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ago10

Propostas eleitorais: confronto entre sustentabilidade e desenvolvimentismo tradicional

Sérgio Xavier e Marina Silva: candidat@s que questionam o velho modelo de promessas desenvolvimentistas usado pelos políticos. São pioneiros por estarem começando uma mudança sustentabilista na práxis política atual.

Nota: Neste artigo falo da postura de candidatos em Pernambuco (a deputado, senador e governador) e federalmente (a presidente). Mas creio que minha abordagem coincide com pretendentes a mandatos de todo o Brasil.

Nos guias eleitorais, estamos vendo em confronto dois pensamentos acerca de desenvolvimento e progresso: a visão de mundo desenvolvimentista tradicional, que busca o crescimento econômico, a expansão empreendedora e a multiplicação de empregos a todo custo, sem se preocupar com as limitações e necessidades do meio ambiente, e o paradigma da sustentabilidade, que quer conciliar e fundir o desenvolver e o preservar.

É esse segundo pensamento, aliás, que vem fazendo a diferença em comparação aos anos eleitorais passados. Tanto esse novo conjunto de propostas como o contraste entre ele e a visão sócio-político-econômica tradicional merecem nossa apreciação.

Os candidatos do paradigma tradicional

Quando assisto ao guia eleitoral, vejo a mesmice da concepção da maioria dos candidatos, seja lá a que cargo for, sobre o que é melhor economicamente para Pernambuco e o Brasil: progresso, crescimento econômico, desenvolvimento, emprego e renda, obras e mais obras, atração de empreendimentos privados etc. a todo custo, sem atenção às consequências ambientais de médio e longo prazo. O velho pensamento do desenvolvimentismo do século 20 custa a ser revisto por essas pessoas.

Pesquisando o que pensam de meio ambiente e sustentabilidade, confirmamos que sua mentalidade acerca de progresso e desenvolvimento é a mesma que predominava no século passado. Ou seja, o mandamento dos propositores é concretar e construir a todo custo para gerar trabalho e dinheiro, fazendo-se “necessários” na iniciativa o desmatamento, a poluição e a superexploração de recursos naturais.

Essa visão se confirma quando observamos a postura de Dilma e Serra e de Jarbas e Eduardo Campos: fazer o Brasil ser um país cada vez mais industrializado, visando induzi-lo a um status de “futura segunda China”, é o que há para eles. Seus projetos de governo valorizam o ensino profissionalizante, de modo que a educação sirva como fábrica de empregados submissos à ordem socioeconômica “não ambiental” vigente que aqui critico.

Esses candidatos mal falam o que pretendem fazer na área de meio ambiente. Para alguns, aliás, como Dilma e Eduardo, esse âmbito é uma pedra no sapato. Isso porque a petista foi uma grande “adversária” de Marina Silva quando as duas eram ministras no governo Lula, com os interesses de seus ministérios entrando frequentemente em conflito, e por seu PAC ter o ambiente como empecilho, vide a usina de Belo Monte e dezenas de outras obras. E porque o governador, como denunciei por vários meses, é o homem que quer destruir 700 hectares de vegetação estuarina em torno do Porto de Suape e já devastou boas áreas de mangue e mata atlântica durante seu (primeiro) mandato, por sua vez tendo uma secretaria “de meio ambiente” inócua e submissa.

Candidatos verdes

Por outro lado, em termos de mudar esse paradigma de desenvolver sem preocupação séria com a sustentabilidade, vemos Marina Silva, Sérgio Xavier e alguns candidatos proporcionais do PV. Mesmo que estejam hoje ainda distantes de disputar um segundo turno, estão sendo pioneiros no que se trata de mudar a forma de pensar o desenvolviment(ism)o. Para eles, não basta mais apenas investir, construir e alimentar o progresso, mas também tentar conciliar essas ações com as necessidades da biosfera.

Os candidatos ambientalistas nos dão a lição de que, do jeito que está, o glorioso desenvolvimento prometido pelos políticos vai não só ter um fim trágico, com a destruição da humanidade pela insalubrificação das condições de vida no planeta mediante poluição, mudanças climáticas e degradação das terras agriculturáveis, como também é propriamente uma das causas dessa possível catástrofe futura.

Suas propostas são reformar o atual modelo socioeconômico de modo a torná-lo compatível com o respeito à Natureza e também fazer o próprio meio ambiente ser um vetor de desenvolvimento. É certo, porém, que se vê cada vez mais que o próprio capitalismo em seus fundamentos é insustentável socioambientalmente, já que tem entre seus pilares a busca do lucro e progresso infinitos e a ostentação de riquezas materiais, o que torna o pensamento ecocapitalista desses pioneiros algo um tanto paliativo, insuficiente e meramente transitório entre o desenvolvimentismo tradicional e um sistema socioeconômico realmente novo.

Mas, percebamos, os passos estão sendo dados por esses elogiáveis verdes, uma vez que estão começando a transição da visão tradicional de progredir e desenvolver à formação de um novo sistema de economia e sociedade sustentável e igualitário (ou que pelo menos não tenha a desigualdade como parte de sua essência).

O desenvolvimentismo tradicional e poluente e a proposta do desenvolvimento sustentável estão aí, num contraste nunca visto antes no Brasil. Mesmo que Marina, Sérgio e outros verdes não vençam este ano, aprecio seu pioneirismo de trazer aos debates a questão de conciliar os interesses socioeconômicos e políticos com os próprios da Natureza e da sobrevivência humana. Graças a esses precursores, o ambientalismo na política vislumbra um crescimento ilimitado e nos traz esperança de que o velho discurso “Vou trazer emprego, progresso e desenvolvimento” seja reformulado e tornado compatível com as cada vez mais reconhecidas necessidades do meio ambiente.

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