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Blogueira entrevista diretor da União Nacional dos Ateus

Fernanda Toffuli, jornalista e autora do blog Jornalismo – o cotidiano de uma forma sutil e observadora, divulgou em 28 de julho, dia seguinte ao ataque de ódio ateofóbico de Datena na Band, o diretor da UNA – União Nacional dos Ateus, Marcelo Ronconi.

Ela me autorizou a reproduzir a entrevista aqui no Arauto, e faço essa reprodução com o fim de conscientizar quem ainda pouco sabe de verdade sobre nós ateus.

Cada resposta do entrevistado eu dividi em parágrafos para tornar a leitura mais confortável.

Entrevista com Marcelo Ronconi, filósofo, músico e diretor da UNA (União Nacional dos Ateus)
por Fernanda Toffuli

Fernanda: O que é ser ateu? Por que existe tanta polêmica em torno deste assunto?

Marcelo: De uma forma direta e simples ser ateu é não acreditar na existência de nenhum deus, ou ainda afirmar categoricamente que nenhum deles (Iavé, Osíris, Apolo, Tupã…) exista. Há quem confunda o “não acreditar” com “não confiar”, ou seja, pensam que o ateu é aquele que não “ousa” duvidar da existência deste ser, mas só que não o considera de confiança. O termo é na maioria das vezes pejorativo e durante muitos séculos foi empregado a pessoas que não duvidavam da existência de deus, mas apenas destoavam da doutrina oficial da igreja católica. Assim vemos figuras francamente religiosas sendo chamadas (ofendidas?) de atéias, quando que heréticas.

Hoje em dia existe um pouco mais de precisão, de consenso, e ateu é aquele que se emancipou das fantasias religiosas. É inevitável que o ateísmo cause incômodo e eu particularmente duvido de que um dia a humanidade seja capaz de assumir, de tragar, a realidade tal como ela se apresenta sem recorrer a suas muletas de faz-de-conta. Ainda assim é certo de que existam muito mais ateus do que as pesquisas indicam, mas como infelizmente o preconceito é enorme, e nem todos são corajosos o suficiente para afirmar sua lucidez, cá estamos nós às mínguas… Ser ateu é ser como qualquer outra pessoa, com a diferença de que não se recorre a nada sobrenatural.

Fernanda: O que leva alguém a não crer em divindades ou seres espirituais?

Marcelo:É uma pergunta que deveria ser feita ao inverso. “O que leva alguém a crer em divindades? O que leva alguém a selecionar o que acha razoável nos dogmas de uma instituição religiosa, e desprezar ao bel prazer uma gama vergonhosa de crimes, de contradições, de evidências claras de que não há nada de ‘divino’ em sua instituição escolhida como se escolhe uma roupa no shopping, e mesmo assim se dizer em paz espiritualmente? Em quê acrescenta à vida aceitar algo evidentemente improvável?”.

Eu falei tanto da ideia de deus quanto da religião organizada. É bem mais fácil depreender destas perguntas as mais variadas ilações: medo da morte, uma profunda aversão à realidade pela sua crueza, sua indiferença às angústias humanas, a tradição e aquela ingênua garantia de que se todos fazem assim é porque é o correto a se proceder… O que é uma oração senão um berro a plenos pulmões para um universo calado? O ateu é alguém em estado puro e isso é insuportável e imperdoável para muita gente.

Há quem considere ofensivo aceitar a vida e suportá-la com seus horrores e belezas sem o vício da irracionalidade, da fé; se estas mesmas pessoas ousassem refletir compreenderiam que não precisam fazer parte de um rebanho para ser feliz; a ignorância só pode ser virtude em um lugar onde o obscurantismo reina pacífico.

Fernanda: Como um ateu pode seguir a ética e moral sem ser baseado em dogmas religiosos existentes?

Marcelo:Quem se vê como criminoso caso passe a considerar que deus não exista é alguém que deve procurar ajuda psiquiátrica imediatamente. É célebre e rudimentar o que Dostoievski colocou na boca de Alieksiei, um personagem de seu romance “Os Irmãos Karamazov” quando diz “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Tudo é possível, mas só seria permitido se todos os homens sobre a Terra fossem psicopatas. Se hoje em dia nós vivemos em uma relativa decência não é graças a Bíblia que defende tanto um amor ao próximo quanto atrocidades das mais repugnantes e que exigiu durante séculos várias e várias revisões, mudanças intencionais e não intencionais nos textos e ainda assim trazem tantos exemplos de perversidades.

Ninguém deixa de torturar ninguém só porque ouviu falar que um homem que andava sobre as águas há dois mil anos atrás disse que isso é errado. Infelizmente há quem imagine um mundo caótico antes do advento das principais religiões monoteístas. Mas quantas foram as sociedades que existiram perfeitamente com suas leis, com suas tradições, com seus deuses – que hoje ninguém nunca ouviu falar? Os valores da Antiguidade não são os que temos hoje e isso é uma verdade histórica, mas a própria história é dinâmica, para o horror dos mais fanáticos que gostariam que todos vivessem sob uma coroa e um crucifixo.

Um ateu simplesmente admite o que é evidente, engole a seco toda a crueldade do real e procede conscientemente. A sociedade tem lei, nós temos nossas emoções inerentes, e ao contrário dos que precisam de “dogmas” (desculpe o baixo calão) para não fazerem bobagens, nós usamos a razão e encaramos o fato de que tudo depende tão-somente de nós mesmos. Historicamente nós somos todos cristãos porque legamos e vivemos em sociedades que devem tanto ao judeu crucificado quanto ao histérico de Tarso quanto também ao Constantino…

Se você afirma o evidente, ou seja “deus não existe” isso não quer dizer que você esteja dizendo “vivemos no pior dos mundos possíveis graças ao cristianismo”; para todos os efeitos somos mui cristãos. Mas vá a uma penitenciária e pergunte quantos ali são ateus e quantos acreditam e temem a deus e quantos são ateus. É fácil inferir a resposta. Todos nós devemos aos gregos aos judeus e aos cristãos o que somos hoje e isso não contrasta com a negação dos deuses.

Fernanda: Existe preconceito dos ateus para com os religiosos? E vice-versa?

Marcelo: Muitas pessoas com interesses absconsos, e com discurso tão pouco desenvolvido que chega a ser suspeito, costumam apregoar que não existe preconceito contra os ateus; o curioso nisso é que a maioria dos que afirmam e divulgam esta bobagem são religiosos. Esse estratagema tão pueril quanto encardido pretende calar os grupos organizados de ateus que procuram sua legitimidade, e usam do falso argumento de que ao contrário dos homossexuais e de outras minorias, os ateus não sofrem agressões físicas ou verbais.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo constatou que os brasileiros sentem tanto ódio/repulsa por ateus quanto por usuários de drogas. Eu não me recordo a porcentagem exata, mas os ateus de um modo geral lideraram em antipatia. Há casos de pessoas que foram demitidas por simplesmente não acreditarem em deus e inclusive um assassinato até onde tenho conhecimento divulgado pela Gazeta. Então existe sim um preconceito velado dos religiosos e também aqueles que acham que o são, para com os ateus (ainda que muitas pessoas sejam atéias e nem sequer se dêem conta).

O ateísmo é uma verdade que incomoda, mas isso não pode justificar nenhuma barbárie. Já da parte dos ateus eu não duvido que existam preconceitos… Eu não conheço nenhum ateu que tenham se suicidado explodindo religiosos em atentado suicida, nem outros que tenham jogado aviões contra arranha-céus, ou em menor escala, sequer conheço um que tenha ofendido ou agredido um crente, mas provavelmente a intolerância religiosa somada a burrice crônica de alguns teístas pode sim alimentar alguma antipatia.

imagrs

9 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Luiz Antonio

dezembro 12 2014 Responder

A todos os ateus: Vocês mandariam uma cobra de presente para uma criança pequena, numa caixinha de sedex dos correios, no dia do aniversário dela? Para um filho, sobrinho, neto, etc?? Provavelmente não – porque têm veneno… Mas mesmo uma não venenosa, provavelmente não… Por que não ?
Se a resposta for não: leiam Kant, Kritik der reinen Vernunft (crítica da razão pura), onde ele defendeu a idéia da existência a priorística das coisas. No caso, a cobra é símbolo do mal, e vocês, que não mandariam a cobra de presente, possuiriam a idéia “a priorística” do mal, consequentemente, a do bem, ou de Deus…

RAIMUNDO

agosto 7 2012 Responder

SO EXISTE UM MEIO DE ELIMINAR RAPIDAMENTE OS ATEUS DA FACE DA TERRA; E PROVAR QUE DEUS EXISTE. A MAIORIA DAS PESSOAS NAO PROCURA PENSAR E PASSA A ACREDITAR, SEM O MENOR FUNDAMENTO, EM UM DEUS BONDOSO QUE MANDA MATAR, E ESCRAVOCRATA, SE ARREPENDE DO QUE FAZ(ENTAO ERRA), USOU UM METODO PARA QUE O HOMEM SE TORNASSE BOM E COMO NAO CONSEGUIU, MANDOU O FILHO COM METODO DIFERENTE. DEVE-SE LER A BIBLIA,O ALCORAO, ETC.COMO UM SER PENSANTE E NAO COMO OS PADRES E PASTORES QUEREM. QUEM FIZER ASSIM VAI ENTENDER O QUE E SER ATEU.LEIAM:DEU NAO E GRANDE, DEUS UM DELIRIO, ATEISMO E LIBERDADE,ETC.NA INTERNET: MULTIPLOS UNIVERSOS, ATEA,ASSOCIACAO NACIONAL DOS ATEUS, ATEUS.NET…
OBS.: ESTE PC NAO ACENTUA AS PALAVRAS

luiz costa

maio 30 2011 Responder

De uma coisa o marcelo näo pode descordar, que nós cristäos
que cremos na ressurreiçäo, temos a possibilidade de um dia
morar no céu com o Deus dos cristäos, enquanto ele caso näo aceite a cristo jamais gozará deste privilégio reservado aos cristäos. Marcelo e os demais ateus o vazio que vocês sente no peito só se preenche com a presença de Deus.

    Robson Fernando de Souza

    maio 30 2011 Responder

    De uma coisa o marcelo näo pode descordar, que nós cristäos
    que cremos na ressurreiçäo, temos a possibilidade de um dia
    morar no céu com o Deus dos cristäos

    Disso ele pode discordar sim, visto que ele não crê no céu e no deus de sua religião.

    Além do mais, vocês podem até morar no paraíso cristão depois da morte, mas há a “probabilidade” igual de caírem no inferno islâmico, no Cócito do mundo de Hades ou de terem sua “alma” aniquilada por não acreditarem no(s) deus(es) “verdadeiro(s)”.

    enquanto ele caso näo aceite a cristo jamais gozará deste privilégio reservado aos cristäos. Marcelo e os demais ateus o vazio que vocês sente no peito só se preenche com a presença de Deus.

    Primeiro, ele nunca irá “aceitar” seu deus novamente, se é que já o “aceitou” algum dia, porque ele tem muitas razões pra não fazê-lo mais. Segundo, você entende da vida de nós ateus o suficiente pra poder dizer que sentimos um vazio no peito?

francisco.g.cabral@hotmail.com

setembro 18 2010 Responder

queram ou nao queram com ou sem preconceito eu sou ateeeeeeeeeeeu realista cetico

Michael

setembro 15 2010 Responder

Discordo da Ruth.. “fé no ateísmo” não existe. É um engano pensar assim, na verdade.. é uma dificuldade que faz com que a pessoa pense assim pq não assimilou bem o que é ser ateu. O respeito e a tolerancia eu notei na entrevista então concordo com o que foi dito, e olha q sou agnóstico. Muito boas as respostas.

rayssa gon

setembro 14 2010 Responder

eu ainda não sei se gostei das perguntas e das respostas. :S

Ruth Iara

setembro 14 2010 Responder

Quase nada a acrescentar. Só quero dizer que nós pessoas místicas não recorremos a muletas, mas a métodos de desenvolvimento espiritual e de refinamento da alma quando a Religião é bem empregada. Espero respeito mútuo da parte dos ateus. No mais, vocês têm todo o direito de de serem ateus e eu de pensar que vocês têm fé no ateísmo, pois é assim que eu entendo. Entendo que ninguém é dono da verdade e a verdade se apresenta vendada para todos nós religiosos e ateus.
Quanto mais conheço alguns religiosos hipócritas, prefiro ateus.

    Robson Fernando

    setembro 14 2010 Responder

    Ruth, não se preocupe que a entrevista não reflete exatamente minha opinião, mas sim é o ponto de vista de muitos ateus.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo