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set10

Conscientização FAIL: Prefeitura de Florianópolis dissemina preconceito contra cães vira-latas

Um cartaz da Prefeitura de Florianópolis me causou estarrecimento. Pretendendo desencorajar o abandono de cães e incentivar a adoção de bichos abandonados, o anúncio em questão foi um doloroso tiro de fuzil no pé:

O primeiro detalhe, mais visível mas não o principal, é dizer que cães têm “dono”. Relembrando o artigo “Dono” e “posse”: palavras que não combinam com os animais, a palavra dono significa proprietário, alguém que tem propriedade sobre algo. O cartaz, mesmo sem querer, naturaliza e reproduz o paradigma de se tratar animais domésticos como propriedade ao dizer que quem tutela cães e gatos são seus “don@s”.

O segundo detalhe foi o que me motivou a escrever este post. O cartaz associa as expressões “de raça” e “vira-lata” – ou seja, a raça do cachorro – ao caráter, à índole, à respeitabilidade, tanto de cães como de pessoas. Se o indivíduo que cuida do animal é “de raça” (o cartaz faz um jogo de figura de linguagem entre as expressões citadas), é uma pessoa boa, ilibada, de bom coração, que respeita e trata com amor e zelo seus bichinhos tutelados. Mas se é “vira-lata”, passa a ser um sujeito de mau caráter, irresponsável, violento, disposto a maltratar e abandonar os animais de que cuida.

A intenção em fazer o cartaz pode ter sido a melhor possível, mas está expresso um claro preconceito canino-racial ao associar a raça de um cão ao seu caráter. O cartaz cria ou reforça, por associação e estereotipação, uma imagem mental de que animais sem raça definida, assim como @s “don@s (sic) vira-latas”, são imundos, antipáticos, violentos, antissociais, repudiáveis, enquanto cães ditos de raça (poodles, dashchunds, pastores-alemães etc.), tais como @s “don@s (sic) de raça”, são amigáveis, admiráveis, de bom caráter, carinhosos, tudo de bom. Ou seja, um racismo dirigido a cães.

Se não entendeu bem ainda, faça uma “equação” imagética:

a) Pense: “Tutor/a de raça” = Tutor/a de bom caráter e respeitos@; “Tutor/a vira-lata” = Tutor/a de mau caráter e violent@

b) Corte “tutor/a” e sobrará: de raça = de bom caráter e respeitos@; vira-lata = mau-caráter e violent@

c) Se quiser, substitua “tutor/a” por “cão”.

Tentando coibir o abandono de cães, a prefeitura acaba fazendo exatamente o contrário: ao depreciar de forma tão bruta a “raça” vira-lata e promover os cães com raça definida como mais respeitáveis e admiráveis, está fazendo uma divulgação, de proporções desastrosas, do preconceito contra animais SRD e até simultaneamente desencorajando a adoção desses cães e  dando incentivo para o abandono de vira-latas de temperamento mais difícil. Afinal, quem quer tutelar, ter em casa, um animal que, segundo “aviso” das autoridades, é mau-caráter, antissocial e imundo?

A verdade, conhecida de tod@ defensor/a de cães e gatos, é que raça não dita comportamento nem tampouco caráter de qualquer animal. Há, por exemplo, tanto poodles dóceis e amigáveis como poodles agressivos. Tanto pit-bulls que são um doce de cachorro quanto pit-bulls violentos. Da mesma forma, há vira-latas docílimos, que fazem amizade com qualquer transeunte da vizinhança, da mesma forma que existem vira-latas que, quando soltos, atacam pessoas, gatos e outros cães na rua. O que determina a personalidade do bicho é o tratamento que recebe durante sua vida por seus tutoræs.

O que a raça determina é, no máximo, a adaptabilidade do animal às condições ambientais do lar, vizinhança e bairro d@ pretendente a adotante. Um cão de estatura grande, por exemplo, não vai se adaptar a um apartamento pequeno situado em um andar alto e num bairro com pouca área verde, logo é mais conveniente, ao próprio cão e à pessoa, que ele não seja adotado pela pessoa que mora sob tais condições. A pessoa poderá adotar um cachorro de menor porte, ao invés, deixando o cão grande a quem tiver mais condições de adotar (obs: quando digo “deixando”, quero dizer “não adotando”, e não “abandonando”). A condição ambiental também inclui a saúde d@ adotante: não faz sentido uma pessoa alérgica a pelo adotar um cão muito peludo. A pessoa poderá, no entanto, independente da raça e estatura, acolher temporariamente o cão resgatado da rua ou do CCZ para encaminhá-lo a quem tem mais condições ambientais e de saúde de tutelá-lo.

A campanha contra o abandono de cães é admirável, mas o cartaz foi um completo desastre publicitário. Um FAIL completo. O melhor a fazer é removê-lo das ruas o quanto antes e criar um anúncio novo que não associe mais a qualidade de SRD ao caráter de um cão, gato ou ser humano.

imagrs

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denise mendonça

junho 29 2012 Responder

Adorei cada palavra tua, pois é exatamente isto que eu penso.Espero que as passoas também passem a pensar diferente.Animal não é posse e sim um amigo,companheiro,sempre fiel e leal. diferente dos nossos “humanos” eles são cometem basbaridades,só matam para se alimentar e suas crias,são fazem fofocas,intrigas para ver o circo pegar fogo,não torcem para que os outros se deem mal,não torturam,estupram crianças, idosos e os próprios animasis que mais parecem sacos de pancada onde os “donos” descarregam todos os problemas e frustações que a vida de alguma forma sempre nos apresenta.São os nossos desafios diários e, que certeza absoluta tudo fica mais simples quando contamos com fiéis amigos e companheiros de quatro patas que geralmente querem dar e receber carinho e atenção.Sei que é uma luta difícil pafer a cabeça das pessoas mas sou meio otimista e acho que só vai melhorar.Abraços.Denise

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