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O ser humano não é um predador por excelência

A argumentação é do agrônomo José Otavio Carlomagno, que escreveu para o blog Vanguarda Abolicionista e desejou que o Arauto da Consciência também reproduzisse seu texto. Ele, numa reflexão inteligente, desmitifica a naturalidade do status do ser humano de predador.

Os bichos sempre pagam o pato
por José Otavio Carlomagno, agrônomo

Os canais de tevê fechada frequentemente levam ao ar programas sobre a vida selvagem nos mais diversos pontos do planeta. Alguns desses programas se dedicam a mostrar as migrações de animais pelas planícies da África. Grandes mamíferos herbívoros atravessam o continente em busca de água e pasto, durante a estação seca, e são acompanhados por leões, leopardos, guepardos, cães selvagens, chacais, hienas abutres e outros predadores que se alimentam da carne ou carniça das zebras, antílopes, gnus, búfalos, etc. As perseguições dos carnívoros aos herbívoros são narradas como se fossem disputas de grande prêmio de automobilismo, ou mesmo luta de vale-tudo.

Certa vez, assistindo a um programa desses sobre a onça pintada, o narrador se referia à capivara como caça predileta do felino, como se ele tivesse desenvolvido um paladar seletivo devido ao sabor da carne de capivara. Eu já presenciei na Amazônia onças pegando tracajás e pirarucus presos num braço de rio que secou, elas também comem preás, aves e jacarés, ou seja, comem o que encontram.

Na África não é diferente, leões caçam pequenos coelhos quando a caça de grande porte está longe das planícies, mas o que dá espetáculo são grandes felinos perseguindo e matando um grande antílope, ou búfalo, a tevê mostra sempre o lado sensacionalista da vida, os leões passam a maior parte do tempo dormindo e caçam apenas uma vez por semana, mesmo na época de abundância de caça, porém, tem-se a impressão de que caçam todas as noites.

Bem, mas o que quero dizer é que o instinto de sobrevivência dos felinos, dos tubarões e outros predadores, é chamado, com frequência, de “instinto assassino”. Aos animais que agem por instinto e matam somente para sobreviver chamamos assassinos; nós humanos, que somos providos de razão, e matamos animais apenas para satisfazer nossos desejos gastronômicos, ou tradições culturais, não nos consideramos assassinos.

Agora vou deixar de lado a tevê fechada e vou à tevê aberta. Outro dia, assistindo a um programa popular, desses que atores tentam levar pessoas a enfrentar situações embaraçosas, as tais “pegadinhas”, um ator, vestido de cozinheiro, num dos corredores do Mercado Municipal de São Paulo, convidava pessoas para ajudá-lo a fazer uma receita que levava frango. Quando a pessoa aceitava a incumbência e perguntava pela carne de frango, o ator retirava de uma caixa um frango vivo e dava à pessoa um cutelo e dizia que teria de matar, depenar, eviscerar o frango.

Sem exceção, todas as pessoas se recusaram a matar o frango, todos disseram que se tivessem de matar o animal não mais se alimentariam de frango ou outro bicho qualquer – o ator também disse o mesmo.Por que não mataram o frango, se matar o bicho para comer é algo tão natural aos humanos, como querem alguns?

É simples de entender: no mercado, a carne acondicionada em bandeja de isopor com filme plástico leva nomes que nos fazem supor que são peças distintas, individualizadas, por exemplo: picanha, filé mignon, coxa, sobrecoxa, peito. Tudo leva a crer que já nasceram assim como peças de carne, porque é muito desagradável apresentar a carne como partes de um cadáver de animal, que mesmo refrigerada ou congelada, já está em processo de putrefação. Os animais carnívoros, que devoram outros animais ainda vivos, se alimentam de carne, mas nós humanos, que comemos partes de cadáveres de animais que já foram mortos há dias, até meses, comemos carniça, que é a carne em decomposição. Um churrasco na realidade é preparado com carniça.

Em Caxias do Sul, como em muitas cidades do Brasil, acontece, na Semana Santa, a feira do peixe vivo, e neste ano aconteceu algo que deve ser relatado. A feira do peixe vivo é uma ironia, pois os animais são transportados em caixas d’água postos à venda na Praça Dante Alighieri, no centro da cidade. O comprador escolhe o peixe que é morto na hora. Na segunda-feira imediatamente à Páscoa, duas cartas publicadas pelo jornal O Pioneiro chamaram minha atenção: duas mulheres estavam indignadas porque compraram peixes e os bichos foram mortos a marteladas na cabeça, os filhos dessas mulheres se puseram a chorar e a berrar compulsivamente ao presenciar a cena.

Elas se diziam chocadas ao ver os peixes se debatendo ao levar marteladas, entretanto não pediam que se termine com a feira, mas que para o próximo ano a prefeitura faça uma barraca fechada onde os vendedores matem os peixes sem que os consumidores tomem conhecimento da morte violenta a que estão sendo submetidos os animais. As pessoas querem se enganar e manter privilégios, isso tudo é hipocrisia, gerada, talvez, pelo medo de romper com tradições absurdas, como essa de que se deve comer peixe na semana santa.

Se matar animais para comer fosse natural ao ser humano, aquele pessoal da pegadinha do mercado não teria hesitado em matar o frango, nem as mulheres de Caxias do Sul teriam ficado indignadas, muito menos as crianças teriam ficado aterrorizadas com a cena dos peixes sendo mortos a marteladas. Apesar de que a maioria das pessoas não tem consciência, em algum lugar do cérebro humano está armazenada a informação: matar animais para comer não é próprio do ser humano, por isso aos nossos olhos essas cenas são violentas.

Alguém já viu algum filhote de onça, de tigre, de tubarão, de lobo chorando quando a mãe mata alguma caça para que se alimentem? Nem é preciso responder, pois aos carnívoros essas cenas são naturais. Acredito que o processo de evolução civilizatória do ser humano terá grande avanço com o fim da escravização e morte de animais para qualquer finalidade.

As cartas das mulheres de Caxias do Sul me inspiraram a escrever um poema que será publicado num livro a ser lançado em setembro:

Pequeno aprendi sobre o Natal.

Dia em que nasceu um cara que morreu pregado numa cruz de madeira,
bode expiatório de um complô.
Para comemorar o nascimento desse sujeito,
as pessoas gastam muito dinheiro.
Compram-se presentes que se dão uns aos outros
e comem galinhas, perus e porcos.
É estranho esse comportamento, muito estranho.
Querem que esse sujeito, que parece ter sido um grande cara, seja deus.
Deus da culpa e dos culpados.
Culpados de quê?
O dia em que esse sujeito morreu é comemorado comendo-se peixes.
Muito estranho.
Um deus bode expiatório que exige que porcos, galinhas, perus e peixes sejam imolados em seu louvor.
Muito estranho.
É muito estranho que pessoas, façam estas coisas:
sacrifícios de animais sob qualquer pretexto.

imagrs

8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Hanna Catarina

junho 24 2015 Responder

Voces estao de parabens, tudo muito bem feito.

Alessandro

setembro 13 2014 Responder

O ser humano é um animal multifacetado, no réptil é apenas extinto, no mamífero apenas extinto e emoção, mas no ser humano é extinto, emoção e intelecto, mas talvez o paradoxo ai seja apenas o tipo de educação que vai englobar cultura, religião … Pessoas da era globalizada são mais emocional e intelectual e menos extintivas. Extinto o qual pode prover veracidade predadora.

    Robson Fernando de Souza

    setembro 13 2014 Responder

    Não seria instinto?

Mariana Padoan

outubro 31 2013 Responder

O texto é muito interessante!
Mas eu concordo parcialmente com ele. As gerações mais novas, como a minha (tenho 28 anos) nunca tiveram que matar um animal, pois como ele diz, já encontramos as partes do animal como um produto nas prateleiras, de forma que é até difícil nos darmos conta de que aquilo um dia foi um animal. E muito menos pensamos na “carne” como carniça, o que ela é, de fato (que nojo!).
Mas também é fato que gerações anteriores como as de nossas avós e bisavós, que nasceram em uma época onde não havia tanta industrialização, os animais eram criados no quintal de casa, em sítios etc, e eram criados para todo tipo de fim: dar leite, lã e… carne. E quem matava esses animais eram seus donos.
Minha vó mesmo sempre teve muitas galinhas, entre outros bichos, e matava eles pra comer, e seus filhos, que cresceram vendo isso, não sentem esse choque que as moças sentiram ao verem peixes serem mortos com pauladas. Essas moças devem ter crescido em ambientes urbanos, onde nunca tiveram que se deparar com o modus vivendi rural.
Não estou dizendo que todo mundo que sair do meio urbano para o rural vai virar um açougueiro, nem que todo mundo que vive em sítios e fazendas seja capaz de matar um animal, claro que não. Mas quero dizer que a capacidade de fazer uma coisa dessas (ou qualquer outra coisa que a gente aprenda na vida) também está relacionada ao fator cultural.

Hernany

abril 5 2013 Responder

amilton

fevereiro 4 2012 Responder

nada haver esse texto, pare de comer e va para floresta pra vc ver se tu nao vai matar bicho pra comer!

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 4 2012 Responder

    E você vá aprender a argumentar sem falácias.

      Fran

      julho 12 2012 Responder

      Concordo, Robson! Adorei o texto.

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