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set10

Veja e a “defesa animal” a serviço dos pecuaristas

A revista Veja aparentemente quebrou sua tradição conservadora ao “defender” os direitos dos animais na recente edição de 8 de setembro. Mas isso foi só aparência mesmo. Uma lida consciente no texto “Abaixo a crueldade humana” (pp. 124-129) vai perceber que não há direitos animais de verdade – liberdade, direito à vida, não ser propriedade de outrem, não ser tratado como mercadoria – em jogo na reportagem, mas apenas a questão do “bem-estar” dos animais escravos da pecuária, como eles deveriam ser tratados (sic) pela indústria dos produtos de origem animal.

Vai se notar também que, no fundo, o que a revista pretende é orientar os pecuaristas sobre a necessidade de responderem estrategicamente à ameaça da militância veg(etari)ana e reformarem suas práticas para continuarem lucrando perante uma opinião pública que repudia cada vez mais a crueldade explícita contra os animais. Ou seja, como sempre defende-se interesses econômicos elitistas sob o disfarce de defesa da justiça e da ética.

O tradicional bem-estarismo, pensamento que não quer libertar os animais, mas apenas dar-lhes uma escravidão mais “confortável” – e fazê-lo, na medida do possível, sem prejudicar os lucros de quem explora animais por motivo econômico –, foi o sistema argumentativo “em favor” dos bichos que a revista empreendeu, já que é a única vertente da defesa animal que, em vez de comprometer a existência da pecuária e afrontar os interesses econômicos ruralistas, pode até beneficiar o agronegócio. Quem pensa que a Veja pode aderir ao movimento abolicionista, é porque, convenhamos, nunca ouviu falar dela.

Podemos ver diversos aspectos que a Veja denuncia: foie gras, vitela, gaiolas e superlotação na avicultura, abates não humanitários de bovinos, confinamento de porcas mães e rituais religiosos (especificamente o islâmico Eid al-Adha). Parecia que a revista tinha mudado de lado e se juntado à campanha permanente das ONGs de defesa dos direitos animais contra a exploração animal existente na pecuária.

Mas um olhar crítico revela o que está escondido: esses detalhes não são centrais na criação em larga escala de animais nem em qualquer outra atividade econômica de exploração animal.

A pecuária pode viver sem produzir vitela e foie gras, sem rituais religiosos, sem a “medicina” tradicional chinesa que usa pedaços e secreções de animais vivos ou mortos, sem prender obrigatoriamente galinhas poedeiras em gaiolas pequeninas e frangos em galpões superlotados e sem confinar porcas parideiras em baias minúsculas. Basta que siga os ditames de organizações pseudodefensoras como a WSPA, que premia quem cria as “melhores” e mais eficientes tecnologias de criação e abate “humanitários” de animais, conciliando o “bem-estar animal” e a otimização dos custos produtivos da exploração animal.

E é na onda do bem-estarismo lucrativo que a Veja pega carona, em frases como “Como tratar melhor os animais significa dar-lhes mais espaço e melhores condições e vida, a questão que se coloca é como fazê-lo sem sacrificar a produtividade das fazendas”, “Para resolver a equação que envolve menos sofrimento animal sem prejuízos, segundo os especialistas, é preciso rever os métodos de produção.” e a que fecha a matéria – “No caso dos bichos que nos alimentam, porém, é preciso poupá-los de tanto sofrimento.”

Ou seja, os verdadeiros direitos dos animais, os direitos à vida e à liberdade e a proibição de tratar-lhes como propriedade e mercadoria, os quais implicariam a libertação dos mesmos e o fim de sua exploração e dos “benefícios” econômicos da mesma, não interessam.

Tanto que não há uma letra sequer dedicada a quem é contra a existência em si da pecuária e defende o vegetarianismo e o veganismo – aliás, nem as palavras “vegetariano(a)” ou “vegetarianismo”, que num futuro próximo terão poder bastante para fazer qualquer pecuarista tremer nas bases, estão presentes na reportagem que diz “defender” os animais. Pelo contrário, afirma ser “impensável” mesmo diminuir a quantidade de animais mortos, quando parafraseia o agrônomo Alcides Torres, que diz que “no caso do Brasil, é impensável diminuir a produção de carne e frango, já que ela está ligada diretamente ao crescimento da economia e salva nossa balança comercial”.

Pelo contrário, a orientação da Veja é salvar os seus aliados pecuaristas da ameaça crescente que é a preocupação da opinião pública com os maus tratos existentes nas práticas pecuárias tradicionais. Quase toda a matéria é uma orientação implícita para que os patrões do agronegócio comecem a investir nos “animais felizes”, que sofrem o mínimo possível com desconforto e estresse em vida e são mortos de forma “humanitária”.

E para alienar os leitores, a revista lhes argumenta que toda a luta existente pelos direitos animais é referente apenas à crueldade explícita que os bichos sofrem por causa dos procedimentos tradicionais da criação industrial, dos ramos meramente acessórios da pecuária (vitela e foie gras) e de atividades não econômicas cuja extinção não faria a mínima diferença para os brasileiros.

Com omissão e reducionismo, confundindo várias vezes os “direitos dos animais” com o bem-estar, tenta convencer o leitor de que não é o direito dos animais à liberdade, nem a sua própria vida, nem o seu tratamento como propriedade e mercadoria, o que está em jogo na luta dos defensores dos direitos animais, mas sim apenas o bem-estar animal, o combate à violência óbvia contra os não humanos.

Isso induz quem lê e gosta da Veja a procurar comprar carnes e laticínios de animais “felizes” e ovos de galinhas não engaioladas e a considerar “radicais demais” quem defende que respeitar os animais é muitíssimo mais do que tratá-los “bem” dentro das cercas da propriedade.

Ou seja, a revista orienta os pecuaristas à valorização do “bem-estar animal” e também os consumidores a simpatizarem os que adotaram tal postura, tornando a exploração animal bem-estarista bem servida de clientes e logo muito lucrativa e assim salvando seus aliados do agronegócio de sucumbirem à crescente militância animalista.

Seguinte à parte dedicada a salvar a pecuária e o onivorismo dos defensores animais, a reportagem, numa clara quebra de coesão textual, passa abruptamente para a vivissecção. Faz uma rápida referência aos “defensores mais radicais dos direitos dos animais” – aliás, a única alusão aos “radicais” que geralmente também se opõem à pecuária – e imediatamente toma partido em favor da exploração científica de cobaias ao defender que “isso [abolir o uso de bichos nas pesquisas] é praticamente impossível, sob pena de deter o avanço da ciência e, em especial, da medicina”.

Curioso é que convenientemente não dedicaram uma letra sequer ao que acontece nos laboratórios antes de justificarem a “necessidade” de se explorar camundongos, ratos, cães, primatas etc. em pesquisas científicas. Creio, pela quebra de coesão entre o último parágrafo que defendia a pecuária e o trecho pró-vivissecção, que os redatores chegaram originalmente a descrever alguns procedimentos cruéis da experimentação animal antes de falar dos “radicais”, mas tiveram que apagar o que escreveram por ordem superior, não conseguindo consertar o texto antes do fechamento da edição.

Logo em seguida, falou-se da substituição parcial das cobaias e partiu-se para uma frase que denuncia os limites da “defesa animal” interesseira empreendida pela Veja: “O próximo passo na luta contra a crueldade humana com os animais é extinguir práticas que não oferecem vantagens econômicas [sic] – e são eticamente repulsivas”. Ou seja, aquilo que explora os animais mas dá dinheiro deve ser apenas ajustado. O que deve acabar é aquilo cuja proibição não ameace os lucros e interesses de ninguém.

É nessa hora, aliás, que percebemos que a matéria pseudodefensora dos animais não fez absolutamente nenhuma referência aos rodeios e vaquejadas, mesmo sendo ambos tão cruéis e abusivos quanto as práticas denunciadas entre as páginas 124 e 129. Quando lembramos que os “esportes” envolvendo animais tornaram-se atividades econômicas altamente lucrativas em cidades como Barretos e Surubim – rendendo respectivamente nove e oito dígitos para as economias locais e regionais e fazendo a alegria de milhares de pecuaristas –, percebemos por que a Veja os poupou de qualquer crítica ou mesmo alusão.

A verdade é que ética, comprometimento, altruísmo e respeito aos animais nem de longe foram os verdadeiros motivos que levaram a Veja a “defender” os animais em sua edição nº2181, mas sim a intenção de passar um alerta aos pecuaristas, que, segundo a revista, devem o quanto antes se adaptar às novas e crescentes demandas por produtos vindos de animais “bem tratados” caso queiram continuar lucrando. Também pesou a ação direcionada a fazer os leitores confundirem direitos animais com bem-estar animal, evitando que se tornem vegetarianos e engrossem as fileiras dos crescentes grupos de ativismo abolicionista animal e induzindo-os a continuarem consumindo carne, laticínios, ovos, couro e outros produtos de origem animal – preservando assim a clientela do agronegócio pecuário.

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Rangel

setembro 14 2010 Responder

Ética e isenção costuma passar longe dessa revista. Lamentável que seja uma das mais vendidas do país. Difícil encontrar um jornalismo tão comprometido com interesses econômicos.

Raphael

setembro 13 2010 Responder

Muito bom o post, no entanto, acho que a revista fez uma bela reportagem de uma maneira não tão radical, falando sobre as leis, o tempo em que elas vão entrar em vigor. Ou seja, meu pareceu uma reportagem clara, que não coloca os produtores contra a parede – até coloca pela exposição, mas fala em leis, estado. Expõe o problema sem se compromenter com as empresas.

    Robson Fernando

    setembro 13 2010 Responder

    Acontece, Raphael, que a revista agrada quem vê a defesa animal como algo ligado simplesmente ao bem-estar dos animais. Pra quem crê que o fim das crueldades mais explícitas contra os animais é o êxito final dos defensores dos animais, a Veja fez um bom trabalho.

    Mas se conhecermos a corrente abolicionista, veremos que o que a Veja fez foi nada mais que proteger seus aliados pecuaristas, tentando salvá-los da ameaça vegetariana – o vegetarianismo completo é de fato o segundo pior inimigo da pecuária, sendo o veganismo o pior – tanto por avisá-los pra investir em bem-estarismo como por fazer os leitores confundirem direitos animais com bem-estar animal e crerem que, acabando a violência explícita contra animais, conclui-se o objetivo da defesa dos animais.

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