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Aborto, contradições e limites da “defesa da vida” cristã

Que grande parte dos cristãos brasileiros é contra o aborto, não é novidade nenhuma. Que a divulgação (coberta de sensacionalismo nas dezenas de vídeos feitos por crentes antiabortos e publicados no YouTube) de uma entrevista relativamente recente de Dilma Rousseff, feita pela Istoé, em que ela se põe favorável ao aborto, ajudou a impedir a vitória dela no primeiro turno das eleições 2010, isso já é conhecido de muita gente, inclusive da mídia. Mas o argumento dessas pessoas, que dizem “defender a vida acima de tudo”, não me convence de forma alguma. Pelo contrário, soa-me como um discurso altamente hipócrita e seletivo.

Faz-se questão de exaltar que a vida é uma dádiva de Deus, e que só ele pode tirá-la, mas, analisando o comportamento do cristão praticante médio, percebemos limites nítidos dessa concepção de “vida inviolável” e diversas contradições na prática dessa “ética” do “direito à vida”.

***

Entre as várias contradições e limites, das quais não lembro todas, quatro se destacam inflamavelmente:

a) O desamor à vida humana por parte do próprio Deus, segundo a Bíblia

A Bíblia é um livro repleto de contradições e cenas cruéis, e isso inclui o (des)apreço pela vida humana por parte do próprio Javé, em especial no Velho Testamento. Uma estimativa mínima sobre quantos seres humanos contáveis foram mortos diretamente por Deus ou a mando dele no livro sagrado do cristianismo estipula mais de 2,7 milhões de vítimas, estando entre elas inúmeras pessoas da própria nação israelita, dita “o povo escolhido”.

Há, todavia, uma estimativa máxima, a considerar uma contagem indireta, que fala de mais de 24 milhões de mortes humanas que tiveram Deus como responsável, incluindo-se aí as vítimas do Dilúvio e os primogênitos de cada casal egípcio.

Como se pode defender o “direito à vida” em nome de Deus se a própria divindade, de acordo com os próprios contos bíblicos, matou mais pessoas que a grande maioria dos genocidas humanos?

b) O papel da religião nas guerras e a contradição com a defesa “incondicional” da vida

Não é à toa que há capelães nas instituições militares, incitando o fervor religioso de modo que os soldados entrem nas guerras colocando sua devoção a Deus e à “pátria” acima de tudo. A existência de militares cristãos prontos para matar é um fato que contradiz o argumento “pró-vida” dessa religião.

Se a vida deve ser preservada a qualquer custo e incondicionalmente, mesmo que isso cause sofrimento às mulheres impedidas de abortar e a seus filhos condenados ao sofrimento perpétuo do indesejo familiar, por que então os soldados cristãos não respeitam esse preceito? E por que o silêncio sepulcral de grande parte dos “pró-vidas” diante dos assassinatos bélicos causados por militares religiosos?

c) O futuro condenado das crianças indesejadas

Os antiabortistas, ao defenderem direitos para embriões humanos, considerando-os como plenos nascituros sujeitos de direito, esquecem-se que as crianças em que os embriões/fetos se transformam depois de escapar de um aborto estão condenadas a uma vida de sofrimento. Não se enxerga que é altíssimo o risco de a mãe impedida de abortar ver o filho como um acidente, um fruto indesejado, um motivo de arrependimento profundo, e rejeitar-lhe, consciente ou inconscientemente, o mesmo amor dado a uma criança nascida numa gestação desejada e planejada.

Essas crianças, cedo ou tarde, perceberão que sua mãe e/ou seu pai não desejaram seu nascimento. Muito provavelmente verificarão que seus pais não as amam sinceramente tal como amariam filhos desejados. Não saberão o que é o amor materno e paterno em sua plenitude. Do que isso, não há nada pior para uma criança. Um resultado muito provável será uma vida inteira de depressão e até de criminalidade.

É essa a vida defendida pelos antiabortistas? Uma vida repleta de sofrimento, rejeição e desnaturação?

d) A exclusão dos animais do discurso da “defesa da vida”

Em manifestações antiaborto, são frequentes cartazes como “Não à morte!” e “Aborto é assassinato!”. No entanto, quando contemplamos os hábitos de vida da maioria dos “pró-vidas”, o que não falta é morte, patrocínio de assassinatos, desrespeito pleno do direito à vida.

Me refiro ao prato e aos objetos pessoais dessas pessoas.

Para haver carne nas refeições humanas, animais não humanos invariavelmente precisaram ser mortos em abatedouros – geralmente com o sofrimento de quem sente o cheiro de sangue de seus companheiros de espécie e agoniza muito depois de degolados para sangria (ou golpeados no crânio com marretadas), ou sofre minutos de asfixia e pauladas, como é o caso dos peixes. O mesmo se aplica ao couro usado por milhões de cristãos em bolsas, roupas, sapatos, bancos de carro e outros objetos.

Também não ignoro os bezerros que, roubados de suas mães, foram aprisionados e mortos para se tornar vitela graças à indústria do leite; e os pintinhos machos descartados pela indústria do ovo de galinha.

Ignora-se completamente que aquela carne ou aquele utensílio de couro tiveram origem numa morte desnecessária, numa vida que foi violentamente tirada – não por Deus, mas por seres humanos, muitos deles cristãos devotíssimos. Aí a defesa da vida se cala totalmente, exceto quando se trata de “pró-vidas” vegetarianos. Nada de protesto contra o assassinato de criaturas inocentes, de seres que não podiam se expressar ou se defender.

É fato que o “direito à vida” cristão só abrange seres humanos, mesmo na fase embrionária de mórula (cacho de células-tronco originado da célula-mãe resultante da fecundação). É intrigante esse ponto: mórulas totalmente desprovidas de qualquer consciência ou sensibilidade à dor possuem, para os cristãos em sua maioria, muito mais direitos do que um boi adulto ou uma galinha madura. Embriões com poucos dias de idade são mais respeitados na cristandade do que animais não humanos totalmente consolidados biologicamente, com anos de vida, dotados da plena capacidade de sofrer, sentir dor e manifestar sentimentos.

O argumento mais usado para esse antropocentrismo é que apenas seres humanos têm alma, enquanto outros animais não o têm. No entanto, segundo Tom Regan, esse fator deveria tornar ainda mais imperativo o respeito aos bichos, uma vez que eles só têm uma chance de viver, ao contrário dos humanos dotados de almas imortais. Mas o que vemos é exatamente o contrário: vidas finitas, perfeitamente sencientes, sendo tratadas como nadas espirituais e morais, como objetos descartáveis.

Esse é para mim o porquê mais forte de a “defesa da vida” cristã ser incoerente e, por que não, hipócrita. Me autorizo a perguntar: você “pró-vida”, como diz defender a vida “incondicionalmente” se sua refeição é repleta de mortes desnecessárias e violentas?

***

Observando os aspectos acima, percebemos que os antiabortistas em sua maioria infelizmente causam muito mais mal do que bem ao tentarem forçar a sociedade a adotar sua biomoral seletiva. Quando tentam salvar vidas, acabam proporcionando o desenvolvimento de vidas carregadas de sofrimento. E no caso de vidas que, já consolidadas em suas capacidades sencientes, realmente deveriam ser poupadas e preservadas, omitem-se completamente e, pior ainda, participam direta ou indiretamente daquilo que eles mesmos chamariam de crimes abomináveis contra a vida.

Quanto a Dilma, ela não estava errada quando afirmou desejar a legalização do aborto humano. Seu desejo é (ou era) que os bebês nasçam apenas se encontrarem, em todos os sentidos humanos e biológicos, condições plenas de existir com integridade física (algo impossível para nenéns anencéfalos e portadores de doenças crônicas e letais) e psicológica. É muito mais lógico do que permitir que crianças nasçam para sofrer e causar sofrimento pelo resto da sua vida.

P.S: Eu pessoalmente defendo o aborto apenas quando o embrião/feto ainda não desenvolveu um sistema nervoso que lhe ligue a consciência e a sensibilidade à dor. Legalizar o aborto com essa condição impediria, além do sofrer dos fetos, que as mulheres carregassem por sua vida o trauma de ter causado diretamente sofrimento intenso a um ser senciente.

imagrs

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Cynthia

outubro 6 2010 Responder

Faz sentido o que você diz, Robson, mas o problema é que o foco da discussão está deslocado. Alimentar a questão da forma como ela está posta é permitir que o controle sobre o corpo das mulheres sirva de mote para interesses puramente eleitoreiros. Não apenas a questão do aborto é muito séria para ser rifada em uma discussão que, pela própria natureza da uma eleição presidencial, só pode ser feita de forma superficial, mas desvia a atenção das questões que deveriam constituir o cerne do debate. Cadê os debates sobre os programas de governo? Discutir aborto neste momento e da forma como vem sendo feito é garantia de não se chegar a lugar algum.

Abç

    Robson Fernando

    outubro 6 2010 Responder

    Concordo com você, Cynthia. Não que fosse melhor não ter escrito o texto, mas o assunto aborto dominou a ordem do dia na campanha eleitoral, de forma mais que indevida. Porém o texto busca dar uma luz às “trevas” desse obscurantismo religioso que fanatizou parte significativa da população em torno do tema e da rejeição a Dilma.

    Abs

Samory Pereira Santos

outubro 6 2010 Responder

Robson,

Quanto a questão os militares cristãos, entendo que a teoria do inimigo explique de forma satisfatória esse problema.

O inimigo é um ente em que há apenas uma obrigação sobre ele: a de promover sua eliminação. Assim, o inimigo não está vivo, o inimigo não é senciente. A ele não se aplica nenhuma norma moral, exceto a obrigação de o erradicar. Não cumprir esse dever resulta, potencialmente, no rebaixamento do inadimplente a essa categoria não muito agradável.

Então, o inimigo não possui vida para ser defendida.

Obviamente, isso é uma mera ideologia no sentido marxiano do termo, uma vez que normalmente o inimigo é um ser vivo, sapiente (e senciente)…

Enfim,
Abs

Cynthia

outubro 5 2010 Responder

Caro Robson,

Muito interessante seu artigo, especialmente seus questionamentos em relação ao que constitui a vida. Mas tenho duas considerações a fazer. A primeira é que acho que a ignorância em relação ao aborto não é privilégio do cristianismo, mas de algo subjacente a ele e que, em parte, explica a aversão a qualquer debate sério em torno do tema aborto, mesmo entre não cristãos: o patriarcalismo. É inclusive necessário reconhecer que alguns grupos cristãos, como o caso de protestantes históricos e grupos católicos, como as Católicas pelo Direito de Decidir, estão anos-luz à frente do debate sobre aborto e direitos de homossexuais em relação à maior parte da sociedade civil. E embora reconheça a campanha suja e baixa dos setores evangélicos nessas eleições, é preciso pensar por que ela teve tanto apelo entre diversos setores da sociedade.

O outro ponto diz respeito a uma afirmação particular do seu texto: “Não se enxerga que é altíssimo o risco de a mãe impedida de abortar ver o filho como um acidente, um fruto indesejado, um motivo de arrependimento profundo, e rejeitar-lhe, consciente ou inconscientemente, o mesmo amor dado a uma criança nascida numa gestação desejada e planejada”. Ao que me consta, não há uma só pesquisa que demonstre que a proibição do aborto diminua o número de abortos clandestinos em país algum. Isso significa dizer que uma mulher não deixa de abortar porque é proibido, apenas que, aquelas que não podem pagar por uma clínica com condições mínimas de higiene e sob cuidados adequados, abortará sob condições de risco. É por isso, aliás, que o tema tem que ser tratado como questão de saúde pública.

Caso interesse, segue o link para um texto que escrevi há algum tempo sobre o tema: http://quecazzo.blogspot.com/2010/01/slavoy-zizek-versus-paul-ricoeur.html

Abç

    Robson Fernando

    outubro 5 2010 Responder

    Cynthia, obrigado pelo acréscimo importante.

    Deixe-se claro também que eu falei do cristianismo em específico porque é grande parte da população cristã que está pressionando contra a legalização do aborto. Se houvesse uma quantidade significativa de judeus, muçulmanos e/ou gente de outras religiões integrando a população brasileira e fazendo pressão contra o aborto, eu teria denunciado as contradições deles também.

    Abs

Wellthon

outubro 5 2010 Responder

Muito bom Robson, vou repassar.
Queria que você escrevesse sobre essa ONDA CONSERVADORA como um todo depois.

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