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ATEA escreve carta aberta para José Serra sobre seu preconceito religioso e antilaicismo

Com alguns dias de atraso, trago aqui a carta aberta que a ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos publicou para que seja lida por José Serra. Nela está incluída uma indicação de ateofobia de que só tomei conhecimento agora, logo antes de trazer este post.

Mais um entre os tantos motivos para que ele NÃO seja eleito.

Carta aberta a José Serra
escrita em nome da ATEA

Prezado Serra

o uso de temas religiosos na campanha eleitoral tem causado preocupação em muitos setores da sociedade, e os ateus não são exceção. Em primeiro lugar, a religiosidade de quase todos os candidatos, inclusive o senhor, tem sido utilizada como troféu, pois é exibida ostensivamente, repetida, reafirmada em palavras, gestos e até em material de campanha. É perfeitamente legítimo identificar-se com posições de um ou outro grupo de eleitores: constitui a própria essência do jogo eleitoral. Mas a posição religiosa de cada um é subjetiva, carregada de emotividade e metafísica, e frequentemente descolada da ortodoxia do grupo. As pesquisas deixam claro, por exemplo, que existe um exército de católicos recorrendo a contracepção, aborto e divórcio.

Se adesão religiosa não é sinal de concordância doutrinária, ela nada nos diz sobre conteúdo programático, e portanto não tem lugar nas campanhas eleitorais. A exibição de fé dos candidatos ajuda o clientelismo político-religioso e constitui, na melhor das hipóteses, um apelo à emoção do eleitor, vazio de conteúdo. Na pior, é uma exploração da religiosidade popular com fins pessoais e eleitoreiros, que apela e reforça o que há de pior na população: o preconceito contra ateus.

Assim como a orientação sexual, o posiciionamento religioso do candidato é matéria íntima que em nada influi na capacidade de liderar, governar ou legislar. Explorar eleitoralmente esse dado, seja qual for, é concordar com a posição de que é lícito discriminar cidadãos com base nesse critério, o que é não apenas imoral e antidemocrático como inconstitucional.

Serra, sua campanha está utilizando a frase “Jesus é a verdade e a justiça”. É claro que seu direito de opinião é livre. Mas de que maneira essa crença o qualifica como candidato, ou como governante? De que maneira, em uma democracia laica, ela pode incluenciar a escolha de voto? Em cada três pessoas vivas hoje, duas não concordam com essa frase. O único efeito que uma tática desse tipo pode ter é o de angariar votos completamente desvinculados de propostas de campanha, o que já é ruim, e às custas da perda de eleitores de todas as posições não cristãs, o que é péssimo.

Lembre-se, Serra, que em um Estado laico o poder e as verdades não emanam de qualquer religião ou ideia religiosa, mas de conceitos abertos ao debate. Como governante, devemos esperar que procure a verdade através da fé e da religião, ao invés do debate e das evidências científicas? Sua busca por justiça será entremeada pela busca por Jesus? Em caso afirmativo, confirma-se a ideia de que voltaremos a uma teocracia. Em caso negativo, trata-se de estelionato eleitoral.

Serra, ao ser questionado sobre como lida com o fato de ser católico e depender, também, de eleitores evangélicos, sua resposta foi “todas as doutrinas convergem naquilo que é o essencial: que Jesus é a verdade e a justiça”. Caro Serra, e como ficam muçulmanos, judeus, hinduístas, candomblecistas, xamanistas, budistas, wiccas, pagãos, deístas, humanistas, taoístas, confucionistas, agnósticos, ateus e todos os bilhões de pessoas em milhares de grupos que não são cristãos? Para você, não existe nenhuma pessoa que não seja religiosa, e nenhuma religião que não seja cristã? Serra, nós existimos. No Brasil, 7% das pessoas não tem religião, 2% são ateus. No mundo, duas em cada três pessoas não são cristãs – uma ampla maioria que Serra você ignora, imaginando que o mundo inteiro é como você.

Serra, o mundo tem muitas, muitas pessoas, e a imensa parte não partilha as suas crenças. A democracia se propõe exatamemente a acomodar a convvência na pluralidade. A diversidade religiosa atual é enorme. Mas aparentemente, é só para os iguais que você pretende governar, já que ignora até a existência dos diferentes.  Mas nós estamos aqui, e não vamos sumir mesmo que façam de conta que não existimos.

Lamentavelmente, em julho o candidato a vice Índio da Costa já prenunciava a posição da chapa ao ligar sua principal adversária ao ateísmo. Entender que existe ganho nisso é apostar no preconceito contra os ateus e, pior, instrumentalizá-lo em ganho próprio. Tudo poderia ser ficado como uma mera provocação de péssimo gosto, mas durante o debate realizado na tevê Canção Nova, em agosto, nossos piores medos se concretizaram.

Foi-lhe perguntado se o presidente precisa acreditar em deus e se acreditar em deus tem algo a ver com o modo de governar o país. Era o momento para dar uma aula de cidadania, mas sua resposta foi “acho bom que o presidente da República acredite em deus. Eu creio que os valores, a espiritualidade que faltam tanto no mundo de hoje têm causado problemas para a humanidade e mesmo para o nosso país, até certo ponto.”

Em outras palavras, sua posição é a de que o ateísmo não apenas é uma coisa ruim e que tem causado problemas para a humanidade e para o Brasil, mas que não é bom que um ateu seja presidente. Mais uma vez, a história se repete como farsa. Vinte e cinco anos atrás, o preconceito contra o ateísmo deu um golpe mortal na campanha de seu colega e decano do partido, Fernando Henrique Cardoso. Hoje, os papeis se inverteram e é o próprio candidato que se apressa em afirmar com todas as letras sua rejeição à descrença, postando-se ao lado daqueles que, na época, deixaram de votar em Fernando Henrique por causa disso.

Mas sua declaração foi além: “a religião e a crença em deus permite a uma sociedade desenvolver melhor os seus valores, uma ética de comportamento individual, tanto que quando às vezes se fala ‘nesse lugar vale tudo, deus morreu’, a ideia de deus morreu, a ideia de que deus não existe, a ideia de que deus está ausente, que as pessoas nele não crêem, porque ele está presente mediante a nossa crença, pra cada um, isso faz muito mal para a sociedade. Fará mal também para o Brasil. Eu acredito que a religião e a crença em deus nos aproxima dos valores, nos aproxima da solidariedade.”

Traduzindo: o ateísmo atrapalha o desenvolvimento de valores e de ética na sociedade, e por isso lhe fazem mal. O ateísmo nos afasta dos valores e da solidariedade. Não há outra palavra para esse tipo de opinião, Serra: preconceito. Associar imoralidade a um grupo qualquer de seres humanos é uma prática vergonhosa que já foi e continua sendo aplicada por todos aqueles que têm preconceito contra negros, judeus, homossexuais ou qualquer outro grupo, inclusive os ateus. Sim, nós sabemos que é isso que diz a bíblia. Mas de um candidato a um cargo máximo esperávamos uma demonstração de grandeza, de urbanidade, ou ao menos que fosse, tolerância. O que vimos foi um espetáculo de chauvinismo e sectarismo. O que sera pior: que tenha dito isso para agradar os preconceituosos e lucrar também com o seu voto, ou que creia nessas palavras com sinceridade?

Serra, os ateus são cerca de 2% da população brasileira, um contingente maior do que a maior parte das denominações religiosas coretejadas por sua campanha. Seremos tão desprezíveis que nem nosso voto lhe interessa?

Serra, você está completamente, profundamente, inescapavelmente enganado. Todos os dados disponíveis desmentem suas concepções. Nós, ateus, também temos  direitos constitucionalmente garantidos, e não apenas merecemos como exigimos o respeito de todos os demais. Há ateus canalhas, não resta dúvida. E também há canalhas entre os cristãos, os alpinistas, os keyneseanos e os carecas. Assim como há indivíduos boníssimos tanto entre ateus como entre enxadristas, budistas e monetaristas. E não consta sequer que as taxas de criminalidade dos teístas sejam melhores do que entre os ateus. Imaginar que existe algum grupo humano inerentemente pior que todos os demais é de uma pequenez atroz, incompatível com o exercício de qualquer cargo público de um Estado democrático.

Serra, você nos deve desculpas. Desculpas sinceras e completas. Nós não achamos que você seja mau por ser cristão. Mas você está errado, e seu erro nos avilta e nos ofende, aprofundando o preconceito já existente em muitos milhões de brasileiros, e que pode ficar ainda pior caso seja eleito. Sabemos que cristãos também podem reconhecer seus erros e pedir perdão. Por que não fazeis a nós como gostaria que os outros vos fizessem?

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Vanessa

outubro 25 2010 Responder

Comentário editado. Jamais vou permitir que este blog propague boatos contra Dilma Rousseff.

Pelo contrário, meu compromisso é derrubá-los, ajudar a candidata a vencer as MENTIRAS que tentam propagar para ajudar José Serra a se eleger de forma suja e desonesta.

Assim sendo, este comentário que tentava propagar um boato passa a desmenti-lo. Vejam abaixo a verdade sobre o “lesbianismo” de Dilma:

Neste final de campanha os Serristas andam tentando de tudo para tirar uns pontos de Dilma Rousseff e levar a eleição para o segundo turno.

Nos piores momentos de desespero tucano, a criatividade dos golpistas aflora de uma maneira jamais vista.

Há em circulação um email sobre uma amante lésbica de Dilma Rousseff, que pede pensão à candidata na Justiça (aqui). É fácil provar a falsidade deste email. Na “pseudo-matéria”, a suposta amante de Dilma é defendida pelo advogado Celso Langoni Filho. Como todos sabem, após terminar o curso de direito, todo bacharel deve fazer o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Apenas com a aprovação neste exame é que alguém é considerado um advogado de fato. Aos aprovados, é dada a carteirinha do advogado com um número, que fica registrado em um arquivo nacional. O que eu fiz foi bem simples, acessei o arquivo nacional da OAB e procurei o “dr. Celso Langoni Filho” para uma entrevista.

NÃO EXISTE UM ADVOGADO CHAMADO CELSO LANGONI FILHO

Se não acredita, clique aqui e veja você mesmo.

Todos os emails falsos são lamentáveis, mas este tem uma canalhice especial. Trabalha com a homofobia, o preconceito velado das pessoas contra os homossexuais. Há projetos no Congresso em trâmite contra a homofobia, mas não há ainda nada aprovado.

E se Dilma Rousseff fosse lésbica, qual seria o problema? Ela seria uma presidente menos confiável por isso? É EVIDENTE que não.

Fonte: SejaDitaVerdade.net

Grato,
RF

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