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Explorando animais em nome da “arte”: a indigência da arte

O leitor José Otavio me trouxe o artigo abaixo, uma boa e necessária reflexão sobre a obra(da) de arte da Bienal de São Paulo que envolve o aprisionamento e exposição de três urubus. Se você ainda não está por dentro dessa obra(da) de extremo mau gosto, leia o texto abaixo.

A Indigência da Arte
por José Otavio

No dia 25 de setembro último, foi aberta ao público a 29ª Bienal Internacional de São Paulo. Considerada por especialistas como sendo a mais significativa mostra de arte do hemisfério sul, a Bienal terminará em 12 de dezembro. Na verdade a inauguração da mostra foi no dia 20 de setembro para a imprensa.

Desde o dia 25, o assunto mais comentado na imprensa e que tem chamado a atenção do público visitante não é a qualidade artística das obras, ou ousadia dos autores, ou a inovação nos materiais, mas a pichação da obra Bandeira Branca, uma “instalação” no vão central do prédio feita por um “artista” chamado Nuno Ramos com a colaboração do arquiteto Oscar Niemeyer.

“Bandeira Branca” é composta por três grandes volumes em formas geométricas, que lembram grandes torres, ou chaminés, e no alto ficam poleiros com três urubus. A instalação está cercada por tela. Na manhã de 25 de setembro, a tela foi cortada e um grupo de pichadores que participa da Bienal escreveu “LIBERTE OS URUBU” (sic). Deste jeito mesmo, talvez o pichador tenha precisado fugir dos seguranças e o último S empacou no bico da lata de tinta aerosol.

Ativistas pelos direitos dos animais, empunhando cartazes que pediam a libertação dos urubus, foram repelidos pela segurança na manhã em que a mostra abriu ao público. A mobilização na internet resultou num abaixo-assinado que vai ser entregue ao Promotor Justiça para que a “obra” seja retirada da Bienal. Para assinar entre aqui: www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7046

Procurado pela imprensa, Nuno Ramos declarou que as luzes artificiais e som alto o dia todo “não incomodam os urubus, eles até estão mais calmos que os visitantes”. Que desde tempos está decretado o vale-tudo nas artes, todos sabemos, mas o que incomoda é o cinismo do autor da obra. Sugiro que, na próxima edição da Bienal, Nuno Ramos faça uma instalação em forma de penico cheio de fezes e diga que as moscas são os visitantes que circularão em torno da “obra de arte”.

Outras declarações do “artista”:

– Os urubus estão sendo bem tratadosserá que os urubus concordam em ficar presos? Será que o “artista” consultou os bichos?

– A palavra, para mim, é triste. Nesse lugar que é a Bienal, o outro aparece numa condição de agressão. Não estou chocado, não estou com raiva, vejo como algo atrasado o “artista” está desinformado, atrasado é usar animais como objeto, visto que isso vem acontecendo há milênios, ser atual é reconhecer o direito dos animais, que são parte integrante da natureza assim como os humanos. O antropocentrismo do artista é uma visão atrasada e desconectada da realidade atual.

Tudo foi feito dentro da lei e com o consentimento do IBAMA – o “artista” deveria saber que nem tudo o que é amparado por lei é lícito, ou legítimo: apedrejar mulheres, no Irã, está dentro da lei deles. A lei é a norma expressa do tipo de moralidade vigente em uma sociedade. A preocupação em não transgredir a lei, por si só, já representa um limite a essa “obra”. Ficar indignado e pedir a libertação dos urubus também não é contra a lei.

– Nós não vamos fazer como certo artista latinoamericano que recentemente deixou um animal morrer de inanição – onde está a arte no sacrifício de um animal? O pretenso artista cometeu um crime.

Não seria de se esperar outra coisa da Bienal, a indigência cultural atual atinge a todas as artes. Esta é uma obra digna dos tempos de rebolation. As instalações são obras descartáveis que em nada contribuem para aguçar o espírito de que qualquer pessoa que possua mais de uma dúzia de neurônios funcionais. Pelo seu caráter volátil, é uma arte indigente.

Um dos aforismos de Georges Braque nos diz: “a arte perturba, a ciência tranquiliza”. Neste caso a ciência é o “artista”, amparando-se na lei para não transgredir a moralidade, a perturbação é a pichação, que, foi atribuída a um famoso pichador de São Paulo, este é o verdadeiro artista, seu nome não é segredo: Djan Ivson, o Cripta. Quando no futuro se falar da 29ª Bienal de São Paulo, todos vão se recordar: “aquela dos URUBU, lembra? Que tava escrito LIBERTE OS URUBU”.

Quanto ao projeto dos três monstrengos ser de Oscar Niemeyer, também pode ser enquadrado como ciência, é apenas a tentativa do autor de buscar respaldo num nome de peso. Mas esta não foi a primeira vez que Niemeyer assinou projetos de monstrengos, cito mais dois de autoria do arquiteto: o Memorial JK, em Brasília, e o Memorial da América Latina, em São Paulo [acréscimo do Arauto: também tem o “Parque” Dona Lindu, no Recife, talvez o primeiro “parque” do mundo desenhado por um especialista em obras ricas em concreto].

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José

outubro 3 2010 Responder

No que se refere à questão ética envolvida, a exploração de animais em obras de arte, concordo plenamente, ou seja, os animais não são objetos, são seres sencientes. Já no que se refere ao comentário negativo a respeito de instalações como “obras voláteis”, calma lá, é preciso compreender que não estamos mais vivendo os tempos de Picasso… Sugiro que o autor do artigo se informe a respeito.

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