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Frei Betto e sua tentativa de justificar seu preconceito contra o ateísmo militante


Frei Betto, depois de ter comparado o ateísmo militante, em seu artigo “Dilma e a fé cristã”, à tortura e ao assassinato, respondeu nossos protestos com um artigo que, para dizer a verdade, não convenceu a nós ateus de que ele respeita integralmente nossa (des)crença e nossas eventuais ações a justificar a mesma. Diversas partes do texto dele, chamado “Ateísmo militante”, escrito sob a luz da revolta dos ateus de todo o Brasil e em especial dos diretores da ATEA – Associação de Ateus e Agnósticos do Brasil, acusam que a intolerância dele ao nosso ceticismo religioso e a quem milita exercendo-o persiste, sendo a militância ateísta insistentemente comparada a crimes violentos contra seres humanos.

Me incumbo, com este texto de tréplica, na tarefa de mostrar a Frei Betto que ele ainda precisa se esforçar e ajustar suas concepções sobre nosso comportamento para nos tolerar completamente. Aponto cada parte do texto em que ele demonstrou persistir em sua repulsa a atos como justificarmos nossa descrença às pessoas e convidarmo-nas a refletir sobre os dogmas e falhas de suas crenças religiosas.

Eu pessoalmente não sou um neoateu, que milita na divulgação da descrença, no convite às pessoas a pensarem em revisar suas crenças, nos esforços para tornar o mundo menos apegado ao misticismo, à superstição e à religiosidade antirracional. Mas aqui me encarrego de defender os ateus quietos e os neoateus do discurso do frade.

***

“Desfruto da amizade de ateus e agnósticos e pessoas que professam as mais diversas crenças. Meus amigos ateus leram o texto e nenhum deles se sentiu desrespeitado ou comparado a torturadores.”

Creio que esse não se sentir desrespeitado deveu-se mais ao laço de amizade entre esses ateus e agnósticos e o frei do que a não ter percebido o erro da intolerância ao ateísmo justificado. Queiram ou não, entendam ou não esses tais amigos dele, Betto comparou muitos ateus – os neoateus e mesmo aqueles que o máximo que fazem é explicar a seus colegas religiosos por que não creem em nenhum deus e acabar induzindo alguns a revisar suas crenças – a torturadores e assassinos.

“A tolerância e a liberdade religiosas exigem que se respeitem a crença e a descrença de cada pessoa. Defendo, pois, o direito ao ateísmo e ao agnosticismo. Minha dificuldade reside em acatar qualquer espécie de fundamentalismo, seja religioso ou ateu.”

ica patente sua intolerância contra quem ousa questionar as crenças religiosas das pessoas, chamando de “fundamentalismo ateu” o ato de divulgar as falhas argumentativas das religiões teístas e denunciar  os crimes de quem promove violência justificado em interpretações literais ou tendenciosas de mitos e dogmas religiosos. Para ele, os ateus e agnósticos têm direito a sê-lo, desde que permaneçam calados e não falem de sua descrença para ninguém.

“Não há prova científica da existência ou inexistência de Deus, lembrou o físico teórico Marcelo Gleiser no encontro em que preparamos o livro ‘Conversa sobre Ciência e Fé’ (título provisório) que a editora Agir publicará nos próximos meses. Gleiser é agnóstico.”

Certo, não há provas científicas unanimemente admitidas de que um ou mais deuses existem ou inexistem. Mas há sim a possibilidade de negar os deuses por apontar incoerências morais, filosóficas e lógicas nas religiões que alegam sua existência. Por exemplo, eu posso dizer que as divindades astecas não existem, porque o Sol nunca parou de funcionar depois que os sacrifícios humanos acabaram, o que invalida a veracidade da mitologia asteca.

Também é possível refutar cientificamente a mitologia que dá sustentação à pregação da crença em determinado(s) deus(es) – por exemplo, a existência passada de dinossauros que contradiz o mito do Dilúvio, a impossibilidade de se acomodar milhões de espécies animais no interior de uma arca (de Noé) de madeira, a probabilidade de nunca ter havido um império hebraico no passado nem os genocídios cometidos em nome de Deus para a conquista do território canaanita pelos hebreus na Bíblia – vide os levantamentos de Israel Finkelstein –, a inexistência de relatos historiográficos da ressurreição dos mortos (zumbis?) na crucificação de Cristo etc.

“Assim como não tenho direito de considerar alguém ignorante por ser ateu, ninguém pode ‘chutar a santa’ (lembram do caso na TV?) ou agredir a crença religiosa de outrem. Por isso, defendo o direito ao ateísmo e me recuso a aceitar o ateísmo militante.

Ele alicerça sua convicção de que o questionamento da religião é algo análogo à violência, quando compara atos como dizer que a Bíblia tem contradições à agressão a símbolos religiosos. Ou seja, para ele, argumentar racionalmente contra a existência de Deus é semelhante a destruir imagens sacras ou a chamar a Virgem Maria de meretriz. Segundo ele, negar Deus, mesmo com cordialidade, base racional e argumentos respeitosos, é ofender. Ele não aceita que suas crenças em Deus, em Jesus, na Arca de Noé etc. sejam questionadas. Ele pode reagir com hostilidade a quem quiser dialogar com ele sobre, digamos, as contradições da Bíblia.

Esquece-se de que o próprio ato de justificar sua (des)crença, depor a uma ou mais pessoas sobre por que crê em determinado(s) deus(es) ou não crê em nenhum e como sua vida mudou desde que se converteu à sua atual (ir)religião, é um ato de militância. Se ele faz um testemunho de fé cristã a um grupo de candomblecistas e os convida à conversão, está negando as crenças deles. Isso para ele é uma violência comparável à tortura também?

E falando em testemunho de fé, pergunto: se o frade considera o questionamento da crença de outrem uma ofensa, uma violência, ele também é contrário ao missionarismo religioso, que é uma forma de militar em favor de determinadas crenças e negar a validade de qualquer outra religião? Os missionários aceitam apenas uma religião como verdadeira, e precisam negar todos os demais deuses e mitos estranhos à mesma para converter os “gentios”. Um missionário islâmico, por exemplo, precisa contrariar o cristianismo, negando a divindade de Cristo e a existência da Santíssima Trindade e reafirmando o status de Maomé  – inexistente na mitologia cristã – de mensageiro de Deus, para converter cristãos. Convido então o frei a se posicionar sobre isso: ele intolera o missionarismo religioso também, da mesma forma que o ateísmo militante?

“Quem ama o próximo ama a Deus – ainda que não creia. E a recíproca não é verdadeira.”

Essa é a crença dele, de que o Deus cristão existe inequivocamente e é um “sinônimo” do amor, quase uma personificação do sentimento. É sua concepção própria de Deus, mas ele tenta torná-la universal, inerente a todos os seres humanos, mesmo a quem pensa diferente dele. E se minha concepção particular de Deus implicar que “Ele” é não amor, mas sim lei, dominação e temor, justificando-me no Velho Testamento? E se eu disse que não identifico o amor que tenho ao próximo com Deus? O que ele terá contra isso?

“Ateísmo militante é, pois, profanar o templo vivo de Deus: o ser humano. É isso que praticam torturadores, opressores e inquisidores e pedófilos da Igreja Católica. Toda vez que um ser humano é seviciado e violentado em sua dignidade e direitos, o templo de Deus é profanado.”

Retomo colocações anteriores: ele compara o ato de justificarmos nossa descrença perante crentes, a intenção de alguns de divulgar às pessoas que a religião não é o melhor paradigma moral para se seguir, ao crime, à violência, à tortura. Quem está argumentando contra a existência de Deus está fazendo o mesmo que quem tortura e mata: negando o Deus de Frei Betto. E essa é a justificativa para toda a nossa indignação.

Ele está sendo intolerante com quem nega a existência do Deus dele. Não admite que o cristianismo seja questionado, ofendendo-se com críticas à sua crença e aos dogmas que segue – para ele, questionar a religião e defender a irreligião e o ceticismo é uma violência hedionda.

“Prefiro um ateu que ama o próximo a um devoto que o oprime.”

No entanto, como visto, ele não prefere de forma alguma um ateu que questiona e desafia sua religião.

Creio no Deus que não tem religião, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos.
Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas.
(…)”

Não é muito pertinente para acrescentar informação a este meu artigo, mas vejo que ele entra em contradição nesse trecho: o deus dos mitos “da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas” não é um deus suprarreligioso. É o deus da Bíblia, estritamente judaico-cristão. E pelo menos as religiões politeístas negam a sua existência.

***

Frei Betto continua nos devendo uma retratação, mas o que ele tenta fazer, ao invés, é justificar seu preconceito contra quem nega o deus cristão, ao melhor estilo “mexer no excremento aumentando a catinga”. Deixo claro, em nome dos ateus, que o que queremos é que ele nos peça desculpas e enterre seu preconceito na profundidade de sua mente, mantendo-o distante das outras pessoas – se não conseguir livrar-se dele e tornar-se mais tolerante para com quem questiona e nega a existência de seu Deus.

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