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out10

Que papo do século 19 é esse?

Recentemente um texto, de provável autoria de gente simpatizante da direita política (explico mais adiante por que “provável”) e escrito em meados de julho deste ano, me chamou a atenção pelo seu machismo familiar-tradicionalista. Tem como título “Que papo é esse? Esta mulher nunca “cuidou” da própria casa. Quer “cuidar” de um país?” e critica Dilma Rousseff por critérios tipicamente machistas de que ela não teria sido uma boa mãe/esposa/dona-de-casa – a tríade de atributos domésticos que no passado obrigavam as mulheres a aceitar para si em detrimento da ocupação pública, então privilégio dos homens.

Numa época em que as mulheres conquistaram quase todos os direitos desejados – exceto questões como o aborto, assunto ultimamente tão depreciado pelas frentes religiosas e conservadoras aliadas de José Serra – e agora partem para reivindicar a igualdade e combater o machismo, é negativamente admirável que ainda exista gente que continue olhando as mulheres com aquela visão patriarcalista datada de milênios atrás, que confinava a mulher em casa, tornando-a escrava do lar, imputando-lhe os ofícios domésticos de esposa, mãe e dona-de-casa.

Abaixo alguns trechos do texto-pérola:

Seus dois casamentos foram um fracasso, tanto é que terminaram. Nunca cuidou de uma casa, de um lar, de ” um cantinho um violão, este amor, uma canção”…
Onde uma foto de véu e grinalda? Onde uma foto de batizado? Onde uma foto de namoro? Onde uma foto de festinha de criança? Onde um único gesto de “maternidade” ou de “matrimônio”?
(…)
Onde o marido? Onde o amante? Onde o macho?
(…)
Como mulher, como “mãe que cuida”, com todo o respeito, Dilma é um embuste, um truque, uma pegadinha. Ela não tem as credenciais mínimas como mãe, como esposa, como companheira fora do partido e da guerrilha, como mulher.

Ou seja, para uma mulher ser mulher, deve ser boa mãe e devotada dona-de-casa, além de ter um marido e ser uma fiel esposa. Típica opinião de quem parou no século 19 em termos de visão de mundo.

As mulheres não precisam de textos como o aqui descrito. Não precisam de pessoas assim que desejam tolher-lhes os direitos, a liberdade e a vida pública.

Tampouco Dilma precisa dos atributos exigidos pelo conservador em questão para ser uma boa política, uma boa presidenta. E, aliás, vou envelhecer sem ver alguém dizer com convicção que homem que é homem deve ser um bom pai, marido e dono-de-casa e exercer com competência funções domésticas e familiares.

Mas, vendo por outro lado, o texto em questão pode até ajudar as pessoas a confirmarem sua opção por Dilma, pela esquerda – seja ela moderada ou radical. Porque mostra, ainda que de forma caricata, qual é a laia de parte daqueles que não querem vê-la no poder: machistas, conservadores, reacionários, homens que se arrogam “proprietários” de mulheres, gente que odeia o progressismo e a conquista de direitos pelas minorias historicamente discriminadas.

Outro motivo por que vejo o tal escrito como um favorecedor de Dilma é o mesmo que me fez pôr lá em cima que a autoria do mesmo é “provavelmente” de gente da direita conservadora: é a hipótese de ter sido escrito por um dissimulado pró-Dilma, querendo mostrar uma imagem propositadamente deturpada de quem é interessado na vitória de José Serra em 31 de outubro. Passa a imagem de que, se ele ganhar, veremos um enorme retrocesso social capaz até de tragar as mulheres de volta para o confinamento do lar e impor-lhes as funções exclusivas de esposa, mãe e dona-de-casa.

Mas também é provável que o autor em questão realmente seja um ultraconservador de direita, sincero em seu machismo, desejoso de possuir uma mulher esposa “piniqueira” em sua casa. Ou então um puro troll, que escreveu só para fazer as feministas “pegarem ar”, incharem de raiva.

O texto pode até favorecer Dilma por hipotetizar um futuro sombrio e retrógrado com Serra e caricaturar os interesses dos conservadores, mas nem ela nem as mulheres em geral precisavam de tamanha pérola.

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