06

out10

Ser ateu

O leitor Jeronimo Lemos de Freitas Filho me enviou o texto abaixo, em que ele convida as pessoas a se interessarem em procurar saber se o objeto de suas crenças (seja religiosas, seja não religiosas) realmente é verdadeiro ou falso.

Este post é mais um que chega de pessoas dispostas a lutar contra o preconceito ateofóbico propagado por indivíduos como José Luiz Datena.

Ser ateu
por Jeronimo Lemos de Freitas Filho

A maioria das pessoas não se preocupa em saber se aquilo no que crêem é uma verdade ou uma ilusão. Eu não sei o que você pensa a respeito disso, mas eu tenho um grande interesse em saber se minhas crenças são verdadeiras ou falsas. Isso porque todos nós consagramos muito tempo e energia às nossas crenças.

As eleições por exemplo. A maioria das pessoas não se importa realmente em conhecer nem o programa político, nem o passado da pessoa em quem vai votar. Vemos esse desinteresse aumentar na proporção direta ao grau de ignorância das pessoas. Não que você ou eu não possa ser enganado ou se equivocar. Isso já aconteceu muitas vezes comigo. Mas eu procuro me informar ao máximo para saber se o candidato no qual penso em votar corresponde às minhas expectativas, independentemente de quais elas sejam. Já me decepcionei com muitos candidatos que se corromperam ao longo dos anos, mas eu tenho a consciência limpa.

Quando rememoro o meu critério de análise, vejo que a minha avaliação foi correta, levando-se em consideração as informações das quais eu dispunha naquele momento. Vejo que foram eles que não foram honestos. Quando julgamos pessoas é mais difícil acertar, pois as pessoas são seres vivos que podem mudar ou nos enganar, mas quando julgamos causas, conceitos e crenças, essa variável desaparece.

Às vezes, pelo fato de crermos, por razões as mais diversas, em crenças infundadas, nós nos investimos em práticas inadequadas e ineficazes e gastamos tempo e esforço que poderiam ser utilizados de outra forma, tanto em benefício próprio, como familiar ou social. Muitas pessoas usam o sentimento como guia em detrimento da reflexão ponderada e de um estudo analítico da situação. Muitas pessoas confundem um sentimento profundo com uma certeza. Será que com você isso não ocorre? Eu posso te assegurar que sim. Isso ocorre com todo mundo e eu não sou uma exceção. Eu me surpreendo cometendo erros quase que diariamente, pelo simples fato de crer em coisas falsas ou de ter idéias equivocadas. Assim como eu e todas as outras pessoas, estou certo que você também comete erros quanto às suas crenças e opiniões. Todo mundo é passível de erro, não é verdade?

Já que eu estou consciente que sou passível de erros, eu me preocupo em saber se aquilo em que acredito é certo ou errado. Você, não tem essa preocupação? Isso não te parece óbvio? Na minha vida eu já me enganei algumas vezes quanto aos sentimentos do “meu coração”, “da minha alma”, fossem eles em relação a pessoas ou a opiniões. Acredito que com você já deva ter acontecido algo parecido. Uma decepção com alguém, um amigo, um colega, o governo. Não importa. Acontece que às vezes temos a mais forte impressão de estamos certos de uma coisa, a qual defendemos com tanto afinco, e depois vemos que aquilo que defendíamos era falso. São com esses erros e com os erros dos outros que adquirimos experiência. Vamos ver algumas coisas das quais eu era convicto e agora não sou mais.

Eu já defendi o comunismo, hoje não defendo mais. O tempo mudou, as relações humanas e a geopolítica evoluíram e, para mim, o comunismo não oferece mais uma solução aceitável aos problemas econômicos e sociais atuais. Aliás, ele vai de encontro ao desejo intrínseco e até genético da competição. Pra mim o comunismo pode ter sido necessário em determinada época, num determinado contexto, mas eu nem gostaria de viver num país comunista e nem desejaria que você tivesse que viver num. Eu também já fui contra o aborto e defendi isso com afinco, sem possibilidade de discussão, por conta das crenças religiosas que tive, hoje sou a favor do aborto, não como uma forma contraceptiva, mas em muitas situações. Eu achava engraçado contar piada de bicha e de zombar “delas” nas ruas. Lembro-me inclusive que uma das maiores farras da turma que eu freqüentava era sujar travesti com o pó do extintor de incêndio, só por curtição. Hoje, pra mim, isso é um ato covarde, injusto e impensável. Matar e aprisionar animais silvestres, passarinhos, por exemplo. Fiz muito. É eu já fui muito ignorante. A palavra é bem essa. Ignorância! O fato de desconhecer algo, não ter informações suficientes sobre alguma coisa, ou tão grave quanto isso, ser mal-informado sobre algo e pensar que sabe tudo sobre aquilo. É isso que faz as pessoas acreditarem em coisas falsas e sem fundamento.

Hoje eu me dou oportunidade de analisar e me informar sobre pontos de vistas opostos aos meus, relativos a assuntos do meu interesse. Depois de ponderar bastante, discutido sobre o assunto, analisado casos existentes na literatura e ouço outras pessoas sobre o tema. No caso do aborto, por exemplo, é muito importante se analisar a vida da mulher em questão. É raro ver uma mulher bem estruturada, informada e educada ter que recorrer a um aborto, se não for por uma extrema necessidade. Não temos também o direito de obrigar uma moça despreparada, financeira, profissional e emocionalmente a pôr no mundo uma criança. Mas isso é outra discussão.

Eu acho que, nem que fosse pra reforçar o próprio ponto de vista sobre um assunto ou sobre uma crença, as pessoas deveriam analisar as suas “certezas” e sentimentos, sob a ótica da razão. Já vimos que somos todos passíveis de erro, é bem provável que muitas das coisas em que acreditamos não estejam lá tão certas. Não seria melhor se nós pudéssemos eliminar a maior parte das nossas crenças falsas, guardando apenas as boas e assim poder dirigir o nosso foco naquilo que sabemos ser verdadeiro? Pense nisso! Parar de perder tempo com o que não existe e passar a se concentrar no que funciona. Se houvesse como se analisar todas as suas crenças, você gostaria de analisá-las? Há como fazer isso? Claro que há. A metodologia científica oferece, por meio de debates, experimentos e discussões etc., meios de se analisar a pertinência de muitas crenças.

Muito daquilo no que você crê, com a mais profunda convicção, pode ser falso e muito pode ser verdadeiro. Se você é uma pessoa inteligente e racional e se você tivesse como verificar a veracidade dessas crenças, seria coerente que você o fizesse, não é? De toda a forma você só teria a ganhar. Se fosse verdadeiro, você estaria certo e podia se empenhar muito mais nisso. Se fosse falso, você deixaria de perder tempo com isso, para se concentrar mais naquilo que você sabe que é verdadeiro ou mesmo naquilo que embora não tenha sido validado, não tenha sido desmentido. A não ser que o importante pra você seja acreditar em algo, independente de ser verdadeiro ou não, a crença na crença. Como verificar se suas crenças religiosas são falsas ou verdadeiras? Se dando a oportunidade, por exemplo, de ler livros que mostrem outros pontos de vistas.

Vamos à crença na existência de Deus. Pelo menos dois bilhões de pessoas crêem que existe um Deus que foi o responsável pela criação da matéria, do universo e das leis que os governam. Outros dois bilhões de pessoas crêem do fundo do coração, com a mais profunda certeza, de que existe um deus que criou o universo e que além de ter feito isso, ele controla esse universo e ainda interfere na vida das pessoas, escutando às preces e fazendo milagres. Já eu não acredito na existência de deuses, de nenhum deles. Algum de nós deve estar errado.

Eu não creio em Deus por nunca ter tido uma única prova da sua existência. Quem tiver uma prova, por favor, me apresente. Achar que deus existe, por conta de um sentimento meu ou da afirmação de alguém ou de um grupo de pessoas, pra mim, não é suficiente, pelos motivos que citei acima. As pessoas podem se enganar quanto aos seus sentimentos ou crenças.

Para justificar a existência de Deus, as pessoas costumam falar que cada efeito tem uma causa e que nada se cria do nada. Algo então criou a matéria e o espaço e esse “algo” é Deus. Já eu não tenho informações suficientes pra dizer que essa afirmação é verdadeira. Se eu seguisse essa lógica eu diria que “algo” criou Deus e essa idéia se replicaria infinitamente. Você então poderia apelar para o fato de Deus ter criado a si mesmo, do nada. Se fosse assim eu poderia sugerir que o universo criou a si mesmo do nada, sem ter necessitado de um Deus para isso. Estou certo que há uma explicação lógica para a criação do universo, mas que a ciência ainda não a conhece e talvez nunca vá conhecê-la. Não é por não ter uma resposta que eu vou dar uma resposta fácil (foi Deus). Se você é uma pessoa coerente, inteligente e justa, você não pode dizer que foi Deus quem criou o universo, sem oferecer nenhuma prova disso.

Será que saber se Deus existe é importante? O que você acha? Eu acho importantíssimo. E eu não sou o único. Já se matou muita gente e ainda se mata, já se infligiu e ainda se inflige castigos a centenas de milhões de pessoas, ao redor do mundo, por causa disso. Eu acho que você não vai discordar de mim se eu disser que um universo COM deus seria completamente diferente de um universo SEM deus. Isso, por si só, já é uma assunto que deva ser investigado pela ciência, já que é a ciência quem se encarrega do estudo do universo. As leis de um universo controlado por um deus atuariam de maneira diferente das leis “criadas” de maneira aleatória.

Tão importante quanto isso seria a crença no Deus que interfere na vida das pessoas. Eu já vi muita gente que teve seus direitos violados, que foi vítima de violência, furto, estelionato, desistir de brigar na justiça e “entregar a sua causa a Deus”. E se Deus não existir? Muda tudo, não muda? Você entregou a quem mesmo? Tem gente que põe a sua vida e a vida de terceiros em risco, por acreditar que Deus está protegendo-os. Sai à noite em lugares perigosos ou viaja com toda a família num carro velho, sem segurança, por exemplo. Há milhares de exemplos como esses. Eu noto que muita gente deixa de aproveitar melhor a vida, por crer que existirá uma continuação após a morte. E se não tiver? Você tem provas de que haja? Se sim, podemos analisá-las pra ver se são realmente verdadeiras? Tem gente que não está feliz como o padrão de vida que tem e reza a Deus pra que ele ajude a melhorar. Isso me parece uma perda de tempo.

Eu posso estar errado. Eu não estou afirmando que Deus não existe, embora eu acredite que não exista. Eu não estou afirmando que não haja vida após a morte. O que eu digo é que eu, embora viva procurando, nunca encontrei uma única prova disso. E isso é o motivo pelo qual eu sou ateu. Eu preciso de provas pra acreditar nas coisas. Você pode achar isso estranho mas eu não acho inteligente acreditar em coisas sem saber se elas são verdadeiras. A razão e a experiência mostram que embora muito do que nós acreditamos possa estar correto ou ser verdadeiro, muito pode estar errado ou ser falso. Eu adoraria que existisse um Deus bondoso que ajudasse as pessoas. Claro que adoraria. Não estou falando do Jeová da Bíblia, estou falando de um Deus bondoso de verdade, que cuidasse e protegesse as pessoas. Eu gostaria de poder encontrar o meu falecido pai, a quem eu tanto amei. Eu gostaria realmente que meu pai pudesse acompanhar desde o “outro lado” o crescimento dos meus filhos, a quem ele tão pouco viu. Mas não é porque eu GOSTARIA que isso acontecesse que eu ACREDITE que isso aconteça.

Ser ateu; a-teu, atheos, significa ser sem Deus. Theos = Deus, a= sem. Pois bem. Eu também sou a-fadas, a-unicórnio, a-saci-pererê. Você também é ateu saiba? Você é ateu em relação a Thor, Zeus, Tupã, Hórus, Rá, Osíris, Baco, Shiva, Pacha-mama, Brahma, etc. A diferença entre nós é que na minha lista tem um deus a mais que na sua. Quando você entender porque você não acredita nos deuses dos outros, você vai entender porque eu não acredito no seu.

Tem gente que pensa que os ateus são ruins. Mais isso é uma crença equivocada. Eu não preciso de Deus pra ser bom e espero que você também não. Se alguém só é bom porque acha que tem um deus que está vigiando, essa pessoa não crê em Deus, ela crê na polícia. Deu pra entender? Ela não é boa graças a Deus, é “boa” POR MEDO de Deus. Eu não preciso de Deus pra ser bom. Eu não ajudo aos outros por causa de Deus. Eu ajudo porque posso ajudar e suspeito que se todos agissem assim o mundo ficaria melhor. Você já pensou se de uma hora pra outra ficasse provado, sem sombra de dúvida, que Deus não existe? Você acha que as pessoas iriam sair por aí matando e roubando os outros? Claro que não, pois ainda existiria a polícia. Agora se, por outro lado, a polícia fizer greve, o caos toma conta do país. As pessoas não vão deixar de roubar por causa de Deus. Vá perguntar aos presos da penitenciária se eles crêem em Deus ou se são ateus. No caso do Brasil, um país tão religioso, eu posso apostar que a maioria dos que vão se aproveitar da greve da polícia será gente que acredita em Deus e tem uma religião. Já eu, ateu, não iria sair por aí roubando e matando. Com isso eu não afirmo que os ateus são bons e os crentes são ruins. O que eu quero dizer é que não se precisa de deus para se ser bom.

Jeronimo Lemos de Freitas Filho, 06/10/2010

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ricardo Diaz

dezembro 26 2010 Responder

Mais um show de racionalidade Hominho, um forte abraço…Ricardo

Ruth Iara

outubro 7 2010 Responder

No entanto, é tão divino se expressar assim tão bem sobre pensamentos e sentimentos. No entanto, todos nós precisamos sentir uma forte conexão com a vida e o pulsar de toda Terra, quiçá mesmo com o Cosmos para nos sentirmos em paz, não importa se ateus ou não.
Não acredito muito na razão. Penso um pouco com o cérebro e muito viceralmente. Sou uma pessoa muito emocional e assumo. Meus melhores desenhos acontecem quando a cabeça parece vazia e fraca. Também não acredito e sei com certeza que não és só razão. Teu ateísmo também é sentimento. Sentimento bonito e sem fanatismo de busca da Justiça e da Verdade, valores considerados divinos e sagrados. Neste ponto acho que tu te enganas um pouquinho achando usa só a razão para escolher. Mas, buscas ser bem razoável e isso é uma espécie de purificação que considero religiosa do ponto de vista do Religare que é a grande Religião, a nossa conexão Cósmica com tudo o que há e está fragmentada para todos nós.
Você tem uma alma muito linda, és um espirito de luz ateu. Isso é bem simpático, curioso e interessante.

Eu preciso fazer minha conexão que acontece de vez em quando com El@. Do contrário me sinto meio perdida. Mas, pode ter certeza, não adianta fazer esta conexão através da práticas como meditações e orações se não estiver conectada com pessoas como você e com toda a natureza da qual fazemos parte.

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