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nov10

Dilma e meio ambiente: depois da comemoração, a cobrança

Dilma Rousseff está de parabéns pela sua vitória. Sua posse no começo de 2011 será mais um triunfo da democracia, da vontade soberana do povo brasileiro, cuja maioria decidiu pela continuidade da próspera política socioeconômica do Governo Lula. Preferimos ela e seu projeto político de centro-esquerda a José Serra, sua perspectiva direitista de governo e suas promessas desconfiáveis.

Nossos votos, no entanto, não devem transparecer um apoio incondicional e acrítico. A partir de 1º de janeiro, a hora será de cobrar ajustes e melhorias em seu programa de governo, que é questionável em alguns aspectos.

Neste texto, falo do mais importante desses tais aspectos: a fraca política ambiental prometida por Dilma. Numa perspectiva indiscutivelmente conservacionista e antropocêntrica, foram poucos os pontos prioritários enfatizados por ela em seus guias eleitorais e debates. Restringiram-se à diminuição do desmatamento apenas na Amazônia e no Cerrado, à expansão das fontes renováveis de energia e, segundo o último debate do segundo turno eleitoral, à concessão de crédito para quem trabalha em agricultura familiar e silvicultura na Amazônia.

A prometida redução do desmatamento é insatisfatória: o Cerrado ainda perde mais de 20 mil km² por ano e diminuir essa taxa em 40% ainda é pouquíssimo, e a faixa entre 1000 e 2000 km² de desmate anual, considerada a meta amazônica, ainda supera a extensão de vastas cidades brasileiras. E ignorou-se a necessidade de se estabelecer planos de proteção de biomas como Mata Atlântica, Caatinga, Floresta de Araucária, Mata de Cocais, Pantanal, vegetação litorânea (manguezais, restingas e coqueirais), Agreste nordestino, brejos de altitude, entre outros.

Já nas energias renováveis, é um erro contemplar as hidrelétricas entre suas opções, juntando-as às fontes eólicas e solares, pois não são ambientalmente amigáveis. Causam perda massiva de áreas florestais – como no caso de Belo Monte e outras usinas amazônicas – e a emissão de gases-estufa pela decomposição das árvores submersas, matam milhões de animais com os alagamentos, bloqueiam o fluxo migratório de animais de água doce, entre tantos outros problemas.

Faltou também uma proposta consistente para responder ao crescente desafio de conciliar o crescimento dos parques industriais brasileiros, como Suape, com a preservação dos ecossistemas que os margeiam. Com a enorme ênfase dada por Dilma e Lula ao desenvolvimentismo via indústrias e grandes obras e o vácuo na metodologia da conciliação entre essa política e a sua convivência com vegetações e faunas, fica a permanente insegurança na população, relativa ao destino do verde situado em áreas críticas e o choque da indústria e da infraestrutura com atividades locais que usufruem da natureza, como o ecoturismo, o extrativismo e a pesca artesanal (pela qual não tenho simpatia alguma mas ainda sou obrigado a incluir).

Um outro ponto crítico, que eu jamais poderia deixar de abordar aqui, é a tal febre do pré-sal. Dilma deu sinais de que as reservas profundas de petróleo serão a espinha dorsal de seu projeto de gestão socioeconômica, o que nos revela que deverá haver uma glorificação da energia suja no Brasil e o adiamento da urgência mundial de se limpificar as fontes de energia.

Nossa grande fonte de riquezas e divisas para investimento, pelo visto, será o “sangue preto”, cuja queima ameaça uma grande parte da vida na Terra, incluindo uma enorme parcela da população humana, pelas mudanças climáticas e poluição atmosférica. E esse é um problema que põe o Brasil na contramão das tendências e necessidades mundiais, que são, entre outras, a limpificação das fontes de energia elétrica e automotiva. E nos põe no mato-sem-cachorro ambiental que é ser um país que depende da exportação de petróleo.

E também há a questão da ascensão da cultura consumista nas classes socioeconômicas ascendentes. Dilma e Lula exaltam ao máximo que dezenas de milhões de pessoas passaram a ter plenas condições de encher a casa de novos bens de consumo e comer carne. Mas esquecem-se de que o consumismo é um perigo ao meio ambiente, por nos aproximar da exaustão de recursos naturais e gerar poluição e lixo intensivos. No caso da carne, requer a expansão das fronteiras agropecuárias em cima de ecossistemas e o gasto perdulário de água, além do massacre de populações de animais aquáticos pela pesca.

Dizem, aliás, autores como Carlos Loureiro e Marcelo Pelizzoli: a verdadeira salvação ambiental não é nenhuma política conservacionista e paliativa, mas a revisão de nosso paradigma capitalista-consumista. São necessárias uma guinada racionalizadora em nossos hábitos de adquirir imprudentemente bens de consumo e alimentos de alto impacto ambiental e a superação da tradição do lucro e crescimento econômico infinitos. Nesse quesito, Dilma não parece demonstrar nenhum interesse legítimo, já que é uma grande partidária do progresso acelerado universalizador do consumismo.

E a última grande questão é o relacionamento da gestão da presidenta com a famigerada bancada ruralista. Hoje temos diversas dúvidas sobre como Dilma e seus aliados agirão: a deformação do Código Florestal será rejeitada pelo Congresso? Vetada por Dilma caso passe nas câmaras? Haverá pressão para os ruralistas aceitarem a reforma agrária? Será exigida gestão ambiental rural aos latifundiários? A produção de carne, leite, ovos e forragem animal será desencorajada em prol da alimentação vegetariana, de impacto ambiental muito menor? Ela terá coragem de peitar o ruralismo para exigir cessões ambientais como o aumento das reservas de floresta?

Esses detalhes nos exortam a realizar críticas, exigências e pressões que induzam o futuro Governo Dilma a adotar uma política ambiental decente, muito à parte da fraca proposta apresentada na campanha eleitoral. Não defendo a oposição direitista, à PIG (Partido da Imprensa Golpista), mas uma exigência que obrigue o governo 2011-2014 a atender às demandas ambientais e desamarrar as contradições que fazem um dos países-chave do meio ambiente mundial vacilar na sua relação com a natureza.

imagrs

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