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nov10

Ego, autoritarismo e repressão a críticas: a imaturidade do ativismo pelos animais no Brasil

Post originalmente escrito em 23/10/10 às 16:58

Falo aqui, por depoimento e denúncia, do aparecimento, na militância de defesa dos direitos animais no Brasil, de novas lideranças claramente imaturas, carregadas de ego e soberba, indispostas a  aceitar críticas mesmo construtivas mas muito dispostas a reprimir quem tenta induzi-las a ajustes.

Eu pessoalmente tive problemas com as lideranças de duas organizações de direitos animais nacionalmente conhecidas, cujos nomes e siglas não vou revelar aqui por bom senso, para não caracterizar aqui uma difamação e para não tornar pessoal uma crítica que dirijo a grande parte de todo o movimento abolicionista brasileiro. Em ambos os casos, foi por repressão vinda de seus/suas líderes, que responderam com pedradas tentativas sinceras de ajudar e contribuir para a melhoria do movimento de defesa animal. Escondi o caso por vários meses acreditando que poderia causar desunião e atrapalhar a difusão dos direitos animais no Brasil, mas hoje tomei a convicção de que revelar o que sofri vai induzir as pessoas a reivindicarem um movimento animalista mais maduro e receptível a críticas construtivas e mostrar a divisão interna que já existe.

Repito: não vou revelar nome nenhum aqui, nem das organizações nem d@s tais líderes mal-educad@s. Portanto se você é uma das pessoas que me ofenderam, não se preocupe porque você e seu grupo não foram escancarados aqui – só tome cuidado caso queira responder, para não deixar a carapuça cair e acabar dando nome aos bois.

Algumas pessoas que estão lendo este depoimento provavelmente já tiveram o desprazer de tentar ajudar um movimento, dirigindo-lhe críticas construtivas na melhor das intenções, tentando torná-lo mais forte, e no entanto verem suas observações sendo tratadas pelo lado pessoal, serem respondidas com ofensas, terem sua ajuda grosseiramente recusada e serem obrigadas, por vontade própria ou alheia, a abandonar o movimento que tanto tentaram ajudar.

Foi o meu caso. Tentando com boa alma ajudar os grupos a que tive o prazer (sem ironia) de pertencer, recebi adjetivos como grosseiro, presunçoso e antiético, fui acusado de ser motivado por desvio de caráter ou falta de noção e tive a desonra de ver meu trabalho (o Arauto da Consciência, a comunidade do blog no Orkut e meus artigos) ser desprestigiado e desqualificado pel@s líderes que me responderam, numa clara crítica pessoal que me revelou a convicção d@s mesm@s de não apreciar meus esforços pelo bem comum.

E em ambos os casos fui sumariamente expulso da organização ativista ou forçado a abandoná-la por danos permanentes na relação entre eu e o grupo. Fui direta ou indiretamente censurado, impedido de continuar minha luta presencial pelos animais.

Reconheço que a forma pela qual dirigi tais críticas não foi a mais adequada – nos dois casos a crítica foi feita pelo Orkut, expondo assim precocemente os problemas ao público -, mas a retribuição, segundo pessoas próximas, realmente não foi proporcional. Eu poderia ter sido respondido com alguma advertência que me alertasse do erro e me instruísse a não cometê-lo mais, mas não foi o que aconteceu. Fui depreciado em minha pessoa e trabalho e forçado a abandonar o ativismo grupal. A humilhação sentida foi tanta que me comprometi a voltar a aderir a algum grupo de defesa dos animais não humanos apenas quando aprender a lidar melhor com pessoas difíceis – visto que, por ter sido uma pessoa caseira durante a juventude (até hoje, na verdade), não adquiri o domínio de certas habilidades de interação social, entre elas as de responder à altura e exigir respeito sem medo ou vergonha.

Minhas críticas envolviam dois problemas que são recorrentes na militância brasileira de defesa dos direitos animais, que por sua vez também são sérios problemas internos da defesa animal brasileira e global e retomo aqui:

a) a incoerência de haver nesses grupos lideranças protovegetarianas (segundo a nova classificação do vegetarianismo difundida por alguns teóricos dos direitos animais) relutantes em adotar o vegetarianismo completo ou o veganismo e livrar de contradições a luta que empreendem. A defesa animal é de fato incoerente, mal alicerçada e desprovida do bom exemplo prático quando as próprias pessoas que afirmam defender os animais resistem em deixar de patrocinar a exploração dos mesmos via consumo – o caso d@s “ovo-lacto-acomodad@s”. Que moral um/a vegan@ veria num/a “ovo-lacto-acomodad@” para liderá-l@?

b) a linguagem excessivamente passional, pessoalizada, subjetiva, direcionada (a um público específico de pessoas já simpatizantes dos direitos animais) e carregada de juízos de valor que marca muitas das denúncias e divulgações noticiárias sobre exploração animal e conquistas do movimento global de defesa dos direitos animais, em detrimento da ideal impessoalidade jornalística e do equilíbrio entre objetividade e racionalidade e subjetividade e emoção. Uma notícia que exclama, por exemplo, que participantes de vaquejada são desumanos e cruéis e que a vaquejada é uma abominação e uma involução humana, dificilmente vai convencer alguém que é acostumad@ desde criança com os valores sociais sertanejos (de valorização da pecuária e da vaquejada) a entender e aprender (por) que é antiético explorar animais – pelo contrário, é mais provável que essa pessoa passe a antipatizar com quem defende os animais não humanos por entender a linguagem da notícia como fanática e desrespeitosa à sua cultura regional.

Por alertar as lideranças dos dois grupos de que participei sobre os dois problemas acima, sofri tudo o que descrevi mais acima, sendo obrigado a abandonar por tempo indeterminado a militância animal de rua. Refletiu-se que as críticas, mesmo construtivas, iam de encontro com o ego das pessoas a quem as dirigi. Tanto não queriam se tornar vegetarianas completas “sob pressão” de terceir@s como não admitiam que sua política de divulgação de notícias animalistas fosse encarada como equivocada e passível de correções profundas. O ego foi mais forte do que o bom senso.

Esse é um dos grandes problemas que vêm limitando hoje em dia o crescimento dos grupos de defesa dos direitos animais: o egocentrismo de muitas das suas lideranças, que não aceitam ser criticadas, que creem ser as únicas pessoas com autoridade bastante para dirigir críticas e administrar e corrigir seus grupos. Desse modo, muitas pessoas que querem muito ajudar o movimento abolicionista acabam abandonando-o, muitas vezes compulsoriamente, por encarar certas praxes do mesmo com um olhar mais crítico do que o tolerado por certas lideranças. Resultado: desunião, falta de unidade na defesa animal – nada pior para quem quer angariar o apoio da população.

O abolicionismo não humano brasileiro, assim sendo, acaba se assemelhando a movimentos como os socialistas, comunistas, ateístas e religiosos, que, por disputas internas que uma pessoa suficientemente racional e equilibrada encararia com um facepalm, sofrem divisões atrás de divisões e, não conseguindo a simpatia e adesão de um número suficientemente grande de militantes, que encaram certos grupos com receio ou mesmo antipatia, crescem de forma muito limitada ou mesmo não crescem mais.

O movimento brasileiro de defesa dos direitos animais ainda está na sua infância. Se quisermos vê-lo crescer, @s líderes que hoje reprimem quem @s critica também terão que amadurecer, passando a aceitar com educação, cordialidade e boa vontade as críticas bem-intencionadas, equilibrar na balança a Razão e a emoção, saber atuar sob pressão e horizontalizar mais o poder de decidir e corrigir os fundamentos e parâmetros de atuação.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ruth Iara

novembro 14 2010 Responder

É de esmerado bom senso o que escreves, Robson Fernando. Não há nenhum retoque a fazer nesse texto. Apenas intensifico a chama ao acrescentar que as teorias cheias de ideais devem se casar com uma realidade antiga que faz parte de todo um sistema com o qual não se pode romper agruptamente. A maior crítica que pode se fazer ao abolicionismo é a de que se todos pararem de usar o gado ficarão a esmo imenso número de vacas, galinhas, porcos sem um contexto de nicho ecológico e eco-sistema que suporte tal mudança. A esterilização dos animais é uma forma de eliminação de espécie e no entanto já é o que se vem fazendo com cães e gatos de ruas por não haver melhor saída até agora. Uma idéia viável pode ser a aceitação de fazendas alternativas onde se criam animais com respeito aos seus direitos e não há abate, mas ainda se usa o leite, os ovos e talvez ainda se possa montar nos cavalos. Algumas pessoas fazem bem em praticar o vegetarianismo absoluto, mas devemos pensar naqueles que têm contato com animais nas fazendas e precisam criar os animais. A vida dos seres humanos e dos animais dependem mutuamente. Devemos pensar nos esquimós que possuem uma alimentação quase totalmente de origem animal a não ser por causa das verduras que as suas presas ingerem. Ser vegano e abolicionista é ser um mutante e como tal os mutantes irão influenciar pessoas e descobrir possibilidades. Por enquanto o mercado que existe para veganos é alternativo e muito vem se incrementando para nossa alegria. Nosso modo de vida gera o esboço de uma realidade sem sofrimento que o futuro irá pintar. Não temos de julgar aqueles que se alimentam de carne e se beneficiam da co-dependência em relação a outras espécies, mas mostrar uma nova possibilidade. É uma possibilidade que antevê um futuro muito bom em que os animais nos farão re-descobrir a paz, o amor, a beleza, a coragem a humildade que todo abolicionista deve mostrar e esta será uma ótima propaganda das nossas idéias.
O primeiro passo deve ser eliminar a indústria da carne e do leite com os animais aprisionados em espaços mínimos. O gado das fazendas precisa de árvores para se proteger e não só de pasto. Precisa de muita água.
Pessoas do meio urbano podem ser veganos. Que venham os restaurantes, as artes culinárias e todos os tipos de arte para trazerem avanço a abolição. Mas, esqueçamos a violência, pois também somos animais e precisamos todos nos respeitar.
Acrescento aqui como vegetariana que sou e abolicionista, acredito naquelas pessoa que se alimentam de carne também podem ajudar de alguma forma a defender os animais e podem protestar contra a grande maldade que a indústria da carne, do leite e dos ovos acarreta para os animais que passaram a sofrer cada vez mais com um progresso desequilibrado. Devemos admitir que muitos que se alimentam de carne são pessoas bondosas que não suportam ver o filme “A carne é fraca” sem sentir mal estar. Contemos também com estes ajudantes, humildemente, pois todos temos motivos para sermos julgados e condenados.

    Samory Pereira Santos

    novembro 17 2010 Responder

    Não posso concordar contigo, cara Ruth.

    Sua premissa hipotética de “(…) se todos pararem de usar o gado (…)” é, além de inverossímil, errônea. Não se há de falar do fim abrupto da escravidão animal, isto pois se trata de um processo. Pode-se falar sim de uma gradual redução de número de cativos. Assim, numa eventual “revolução social” em que se abondone o paradigma especista, o seu “(…) imenso número de vacas, galinhas, porcos sem um contexto de nicho ecológico e eco-sistema que suporte tal mudança.” já será, na realidade, mero “pequeno número” desses animais.
    O problema do nicho ecológico, num pensamento já otimista, poderá ter sido solucionado pelos ecologistas (coisa esta que não deve ser nossa atual preocupação, vez que tal realidade ainda está muitíssima distante). No restante, vejo com muitíssima prudência sua crença representada em “Uma idéia viável pode ser a aceitação de fazendas alternativas onde se criam animais com respeito aos seus direitos e não há abate, mas ainda se usa o leite, os ovos e talvez ainda se possa montar nos cavalos.” Ao se falar em leite, por exemplo, temos que admitir uma reprodução sistemática, planejada e controlada. Ao se falar em cavalos, tem-se que os domesticar, os domar, os humanizar. Até onde isso seria ético, vez que o fim é claro: a satisfação dos que querem beber leite (e consumir seus derivados) e montar em cavalos? Não me adentro a questão dos ovos, vez que a discussão já é mais profunda, mas tortuosa e cheio de detalhes específicos dos galinácios.
    Pois bem, “(…) mas devemos pensar naqueles que têm contato com animais nas fazendas e precisam criar os animais.” Quando você fala de “precisar criar”, entendo que se trate daqueles que, por questões econômicas, são forçadas a criarem. Se for, a mera derrocada do especismo e da creofilia seria a solução: o mercado que elas são dependentes enquanto produtoras será extinto, elas serão “libertas” (entendo a preocupação de haver, então, uma massa de desempregados da pecuária e atividades afins, mas como já havia dito: é um processo, lento, gradual… tempo o suficiente para que se aloquem as pessoas).

    Enfim, só uma crítica, que entendi ser inadiável, para nosso enriquecimento mútuo.

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