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nov10

Plantas sentem dor?

Um dos artigos do Dia Mundial do Veganismo. Feliz dia a você que aboliu a exploração animal de sua alimentação e consumo!

Uma pergunta muito freqüente: e as plantas?
por Gary Francione, tradução de Claudio Godoy

“E as plantas?” é uma das perguntas mais freqüentes que se fazem a um vegano. Na verdade, não conheço nenhum vegano que não a tenha ouvido pelo menos uma única vez e a maioria de nós já ouviu esta pergunta várias vezes.

É evidente que quem costuma fazer esta pergunta sabe muito bem que existe uma diferença entre, digamos, uma galinha e um pé de alface. Ou seja, se no próximo jantar você cortar um pé de alface na frente dos seus convidados, eles reagirão de um modo totalmente diferente se você, ao invés disso, fatiar uma galinha viva na frente deles.

Se, ao caminhar em seu jardim, eu pisar de propósito em uma flor, você terá toda razão em se zangar comigo, mas se eu chutar o seu cachorro de propósito, você ficará zangado comigo de uma maneira bem diferente. Ninguém considera estas duas ações equivalentes. Sabemos muito bem que existe uma grande diferença entre uma planta e um cachorro, o que faz com que chutar este último seja moralmente muito mais repreensível do que pisar em uma flor.

A diferença entre um animal e uma planta diz respeito à senciência. Ou seja, os animais não humanos, ou pelo menos aqueles que exploramos rotineiramente, sem dúvida são conscientes de sua percepção sensorial. Criaturas sencientes possuem mentes, logo têm preferências, desejos ou vontades. Isso não significa que as mentes dos animais não humanos sejam parecidas com as nossas. Por exemplo, a mente dos humanos, que fazem uso da linguagem simbólica para interagir com o seu mundo, pode ser bem diferente da mente dos morcegos, que se valem da ecolocalização para interagir com o seu mundo. É difícil saber com precisão.

Mas também é irrelevante, pois tanto os humanos quanto os morcegos são sencientes. Ambos são criaturas que possuem interesses, no sentido em que ambos têm preferências, desejos ou vontades. Um humano e um morcego podem pensar de um modo diferente sobre esses interesses, mas não pode haver a menor dúvida de que ambos possuem interesses, inclusive o interesse de evitar a dor e o sofrimento e o interesse de permanecerem vivos.

Já as plantas são qualitativamente diferentes dos humanos e dos outros animais sencientes. Sem dúvida as plantas são seres vivos, mas não são sencientes, pois não possuem interesses. Uma planta não pode ter desejos, vontades ou preferências porque ela não possui uma mente para que possa se ocupar com estas atividades cognitivas.

Quando dizemos que uma planta “precisa” ou “necessita” de um pouco de água, não estamos nos referindo ao seu status mental do mesmo modo que não estamos nos referindo à mente de um carro quando dizemos que o seu motor “precisa” ou “necessita” de um pouco de óleo. Trocar o óleo do meu carro pode ser do meu interesse, mas nunca do interesse do carro, pois este não tem interesses.

Uma planta pode reagir à luz do sol e a outros estímulos, mas isso não significa que ela seja senciente. Se eu descarregar uma corrente elétrica em um fio amarrado a um sino, o sino tocará. Mas isso não significa que o sino seja senciente. As plantas não possuem sistemas nervosos, receptores de benzodiazepina ou quaisquer características que estejam relacionadas à senciência.

E tudo isso faz sentido do ponto de vista científico. Por que elas teriam a necessidade evolucionária de desenvolver a senciência se elas não podem fazer nada para reagir a um ato danoso? Se você atear fogo a uma planta, ela não poderá sair correndo, ela permanecerá no mesmo lugar até queimar. Agora se você atear fogo a um cachorro, ele reagirá exatamente da mesma forma como você reagiria: ele urrará de dor e tentará se livrar das chamas.

A senciência é uma característica que evoluiu em algumas criaturas para que elas pudessem ser capazes de sobreviver ao fugir de um estímulo nocivo. A senciência não teria nenhuma serventia para uma planta, pois elas não podem “fugir”.

Não estou querendo dizer com isso que não existe nenhuma obrigação moral de nossa parte referente às plantas, mas sim que não temos nenhuma obrigação moral para com as plantas. Ou seja, podemos ter a obrigação moral de não cortar uma árvore, mas esta é uma obrigação que não temos para com a árvore. Uma árvore não é o tipo de entidade com a qual nós podemos ter obrigações morais.

Podemos ter obrigações morais para com todas as criaturas sencientes que vivem em uma árvore ou dependem dela para a sua sobrevivência. Podemos ter obrigações morais para com os outros seres humanos e para com os outros animais não humanos que habitam o planeta no que se refere à não destruição de árvores a torto e a direito. Mas não podemos ter nenhuma obrigação moral para com uma árvore, pois só podemos ter obrigações morais para com criaturas sencientes e uma árvore não é nem senciente nem possui interesses, pois ela não tem preferências, vontades nem desejos.

Uma árvore não é o tipo de entidade que se preocupa com o que fazemos com ela. Uma árvore é um “objeto”. Já o esquilo e os pássaros que vivem nela sem dúvida têm o interesse de que nós não a derrubemos, mas a árvore não. Pode ser moralmente repreensível derrubar uma árvore por capricho, mas este tipo de ação é qualitativamente diferente do ato de atirar em um cervo.

Quando se fala em “direitos” para as árvores, como querem alguns, procura-se igualar as árvores aos animais não humanos e este tipo de comparação só pode se dar em detrimento destes últimos. De fato, é comum ouvir ambientalistas falar sobre a nossa responsabilidade na preservação de nossos recursos naturais, considerando inclusive os animais não humanos como um “recurso” a ser preservado.

E isso é um grande problema para aqueles como nós que não consideram os animais não humanos como “recursos” destinados ao nosso uso. Árvores e outras plantas são recursos que podemos utilizar. Temos a obrigação de usar estes recursos com sabedoria, mas esta é uma obrigação que nós temos apenas para com as outras pessoas, sejam elas humanas ou não humanas.

Para finalizar, existe uma variação da pergunta sobre as plantas: “e os insetos, eles são sencientes?” Até onde eu posso saber, ninguém ainda sabe com certeza. Mas certamente eu concedo aos insetos o benefício da dúvida. Eu não mato insetos em minha casa e procuro sempre evitar pisar em um deles quando caminho.

No caso dos insetos, pode ser difícil traçar o limite, mas isso não significa que este limite não possa ser traçado com precisão na maioria dos casos. Matamos e comemos pelo menos dez bilhões de animais terrestres todos os anos apenas nos Estados Unidos. Esta cifra não inclui todos os animais marinhos que matamos e comemos. Talvez possa haver alguma dúvida se animais como mariscos ou mexilhões sejam mesmo sencientes, mas sem dúvida todas as vacas, porcos, galinhas, perus, peixes, etc. são sencientes. Os animais não humanos dos quais tiramos o leite e os ovos sem dúvida são sencientes.

O fato de não sabermos ao certo se os insetos são sencientes não significa que devemos ter qualquer dúvida sobre o fato de que todos estes outros animais não humanos são sencientes, pois estamos absolutamente certos quanto a isso. E, ao dizer que o fato de que não estamos certos se os insetos são sencientes nos impede de avaliar a moralidade de se comer carne ou de usar produtos oriundos de animais não-humanos que sabemos sem sombra de dúvida serem sencientes ou de avaliar a moralidade de trazer estes animais não humanos à existência com o objetivo de usá-los como nossos “recursos” evidentemente é um absurdo.

Gary L. Francione

© 2006 Gary L. Francione

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27 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ivete vieira

dezembro 10 2015 Responder

Tenho duas algumas questões:
1) Minha mãe matava galinhas e para nós era natural.Quem já morou em sítio sabe do que estou falando. Então é uma questão de cultura. De fato tanto fazia colher um pé de alface quanto matar uma galinha.
2) Até 985, muitos médicos acreditavam que os bebês não sentiam dor e cirurgias eram realizadas sem anestesia.
3) Por que plantas morrem (visitante de olho gordo, acho q todo mundo já presenciou uma cena dessa)
O que eu acho é que ainda não temos sensibilidade suficiente para percebermos o que está a nossa volta. O problema é, vamos comer o que? Ou talvez, simplesmente dizer, eu preciso sobreviver e vou comer o que estiver disponível.

Lu Zied

maio 19 2015 Responder

Como uma pessoa é tao sensível para alguns.as coisas e insensíveis para outras.Qualquer pessoa que tem uma planta em casa sabe que elas sentem dor e tem provável consciência da sua existência, são mais sensíveis energeticamente.Os veganos acham que isso e ” desculpismo”, mas eu acho que ninguém precisa de desculpa para defender o que acha certo e também o que come..

    Robson Fernando de Souza

    maio 20 2015 Responder

    “Qualquer pessoa que tem uma planta em casa sabe que elas sentem dor e tem provável consciência da sua existência, são mais sensíveis energeticamente.” – Falácia egocêntrica com evidência-anedota. Não é porque você crê em senciência vegetal e que suas plantas “sentem dor” e são “energeticamente sensíveis” (crença essa bastante sobrenaturalista e subjetiva) que todo mundo mais crê a mesma coisa.

Camila

julho 9 2014 Responder

Alguns estudos que podem nos ajudar a ver as plantas um pouco mais como seres vivos conscientes:
http://galileu.globo.com/edic/98/conhecimento5.htm

Gabriel

fevereiro 9 2014 Responder

E se elas sentissem dor vocês comeriam?

Juliano F

agosto 9 2012 Responder

Porque tanta gente fala de estudos científicos ou de pesquisas científicas e quando se pergunta quais são, não sabem responder, é sempre o conhecimento popular querendo se transformar em ciência, é foda.

Claro que as plantas não sentem, são organismos influenciados por campos magnéticos, só isso, claro que devemos impactar na natureza o mínimo possível , mas não tem nada a ver com ser senciente.

SCBright

julho 18 2012 Responder

Muita discussão para absolutamente nada!
Cada um tem a sua opinião e o importante é: faça aquilo que você achar melhor para você, mas nunca, nunca tente convencer os outros de que aquilo que você pensa, acha ou acredita é a verdade absoluta!
Não quer comer carne? Não coma!
Porém, sómente como exemplo, se o homem fosse extritamente vegetariano nossa dentição deveria ser igual à de um cavalo ou uma vaca, porém não é assim, temos a dentição adaptada para o modo de alimentação onívoro (para que servem os dentes caninos senão dilacerar carne?).

Pouco me importa a opinião alheia, faça o que melhor lhe aprouver, porém aprenda: a verdade absoluta não existe e o pior investimento que alguém pode fazer é querer ser dono da verdade.

    Robson Fernando de Souza

    julho 18 2012 Responder

    1. Se não devemos convencer os outros de nada do que acreditamos (ou do que a Ciência descobriu), então o que você veio fazer aqui?
    2. Pergunte aos gorilas e pandas sobre caninos, e como nossos caninos de comprimento igual aos demais dentes são eficientes em rasgar carne crua.
    3. Se pouco lhe importa a opinião alheia e detesta “donos da verdade”, então repito: o que você veio fazer aqui?

    Ivete Ferreira

    dezembro 10 2015 Responder

    SCBright entendo que alguns assuntos podem e devem ser discutidos. Novas idéias, ver coisas sob outro ângulo, trocar informações…mas, respeito seu individualismo. Como você mesmo disse, pouco lhe importa o alheio.

Allo

janeiro 24 2012 Responder

só porque as plantas não tem um organismo parecido com o dos animais não quer dizer que elas não sintam dor. Se você afirma isso, está dizendo que existe só um tipo de sistema nervoso presente no universo inteiro. E várias pesquisas científicas sustentam que as plantas, além de sentir dor, tem sentimentos pelo menos instintivos como raiva, medo, agitação, prazer entre outras coisas. E ainda outras pesquisas dizem que as plantas podem ter apego ao ser o cuida e que as arvores gritam quando feridas.
não estou aqui para ofender ou censurar o conteúdo que este post, mas só quero deixar bem claro que qualquer coisa que tem vida pode ter um sistema totalmente diferente do nosso tendo sensações parecidas. Há quem diga que até pedras, planetas, estrelas, átomos, buracos negros e qualquer outra coisa que seja criada de um modo natural

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 25 2012 Responder

    Quais pesquisas?

ragcosta

novembro 13 2010 Responder

q babaca esse Gary L. Francione, ele deve ser do tipo q nem liga para as plantas e por ele todas devem morrer….

    luiz eilert

    janeiro 13 2012 Responder

    concordo!!! muito babaca !!!!

Bárbara DSa

novembro 1 2010 Responder

“Bactérias sentem dor? Células sentem dor? Neurônios sentem dor?” Que pergunta é essa?
Desde quando celulas e neuronios sao seres vivos?

    luiz eilert

    janeiro 13 2012 Responder

    se não são “vivos ” como estamos vivos , podem não ter consiencia, mas não estão mortos…

      Robson Fernando de Souza

      janeiro 13 2012 Responder

      Mas, não tendo sistema nervoso e senciência, não sentem vontade consciente de viver.

Guilherme Monteiro

novembro 1 2010 Responder

Bactérias sentem dor? Células sentem dor? Neurônios sentem dor?

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