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nov10

Reflexões sobre a guerra entre forças estatais e tráfico no Rio

Cecília Cuentro, outrora colega minha de Ciências Sociais (eu tranquei o curso, e pretendo voltar algum dia nos próximos anos), escreveu essa reflexão sobre a guerra que está acontecendo entre militares (policiais e forças armadas) e os traficantes de drogas no Rio de Janeiro. Pode ajudar bastante a compreender parte das causas de o tráfico ter dominado as favelas cariocas.

Reflexões sobre o caos que está acontecendo no Rio de Janeiro
por Cecília Cuentro, enviado por e-mail

É interessante perceber como os cidadãos e as cidadãs brasileiras se comportam diante de momentos de crise dentro do Estado brasileiro, que sinalizam uma transformação social. Desde domingo pela manhã, quando a invasão ao Complexo do Alemão começou, por volta das nove horas que venho acompanhando pela Globo News o desenrolar desta mega operação.

“Mil toneladas de maconha foram apreendidas”, “A população do Rio e moradora do complexo tem contribuído…” e assim vai. Possivelmente para quem está de fora e não tem noção da realidade que o cerca, incluindo muitos fluminenses, não sabe como de fato o trafico se instaurou em sua cidade, e em várias outras do pais, e muito menos como as relações sociais se dão dentro das comunidades comandadas por traficantes.

Por duas vezes tive um contato maior com esta realidade, a primeira e a mais intensa e assustadora foi quando li o livro “Cabeça de Porco” de MV. Bill, Celso Athayde e Luis Eduardo Soares. Impressionante o poder desses estudiosos dos morros do Brasil em relatar de forma clara e verdadeira as relações das quais falei. Eles mostraram todo o contexto social no qual tanto população quanto traficante estão dentro das comunidades de varias capitais do país, do Rio ao Recife, e eles não diferem entre si.

Meninos que cresceram sem uma estrutura familiar, que desde cedo viram suas mães (por que seus pais ou não são conhecidos, ou já morreram ou simplesmente não partilham do dia-a-dia com eles) trabalhando como loucas para lhes sustentar e não só a ele mas aos seus vários irmãos também, junta-se a isso uma comunidade cercada por traficantes, que muitas vezes viram símbolos de hombridade e paternidade que esses meninos seguem, pois de alguma forma ajudam à comunidade, têm poder, dinheiro e tudo mais que encanta a um jovem de periferia sem perspectiva nenhuma, que tem uma mãe que trabalha como escrava e a quem ele quer dá um futuro melhor, pois mesmo jovem se sente na obrigação de cuidar dela, já que é o homem da casa.

E ai dentro desse contexto ele começa a virar aviãozinho, moleque que leva e traz a droga, porque essa é uma forma de ganhar muita grana e mudar de vida. E a partir daí ele já está a um passo de se tornar traficante, pois a gana por poder, dinheiro, mudança de vida e belas mulheres só cresce.

Enquanto os traficantes agem proporcionando uma nova vida a esses meninos, o Estado simplesmente está ausente e a par de tudo o que acontece das portas da favela para cima, não oferece escolas de qualidade, atividades complementares para que esses meninos tenham o que fazer e não sejam cooptados pelo trafico. Simplesmente a favela fica às moscas, ou melhor, aos traficantes, que, não se esqueçam, começaram como aviõezinhos dentro desse cenário que há pouco descrevi.

A segunda vez que tive contato com a realidade crua das comunidades foi com o filme “Tropa de Elite 2”, que, por mais sensacionalista que seja, traz a verdade. A corrupção como um câncer a ser curado, não só em relação aos policiais corruptos mas a toda uma comunidade que configura-se como tal, como um câncer, que só dá trabalho ao Estado.

E ai me é muito engraçado que da noite para o dia o Estado (me desculpem a caricatura) tenha se apercebido das comunidades a tal ponto de invadi-las e reinstalar a ordem, esta já perdida pelo Estado há mais de trinta anos. Nesse momento me perguntei: “será que de fato o Estado se deu conta da miserabilidade em que crescem as crianças? No grau de miserabilidade em que vivem estas pessoas? Da construção social em que estão inseridos? E que o trafico só teve abertura dentro desses morros por causa da situação de pobreza e falta de perspectiva das pessoas que lá vivem”. E a conclusão a qual cheguei é que não. O fator que fez o Estado se mexer foi menos a vida miserável das pessoas e mais o fator Copa 2014.

E ai entra o ponto chave: toda essa operação de fato visa outros objetivos; se melhorar a vida das pessoas, ótimo; se não, ótimo também; o que importa é nos livrarmos desse câncer que é o trafico de drogas e de tudo o que ele representa, pobres, gente miserável, sem qualidade de vida. Em nenhum momento, senhores e senhoras, vocês se perguntaram o porquê disso tudo? De mobilizar Exército, Marinha e Aeronáutica? Até domingo pela manhã eu tinha a dúvida, mas ao ouvir o que disse um major (ou sargento, não importa a hierarquia), eu tive a certeza do que digo. Trocando em miúdos, ele disse que a partir desse momento eles (a policia e todos os outros) estavam limpando os morros e retomando o Complexo do Alemão para a Copa 2014.

E para finalizar, para não parecer que sou tão descrente, fico com uma frase do pároco da Igreja da Penha que fica dentro do Complexo:

“Pela minha experiência, eu já vi várias incursões. Eu já vi muita gente sofrendo. E depois foi aquele fogo de palha, que não resultou em nada, em termos de benefício para a população. Eu já vi muito sofrimento, já vi muitos jovens tombarem. Já vi muitas mães chorarem seus filhos, filhos chorarem seus pais. E depois terminou aquela fase. Foi uma coisa de momento. E se fez um alarido, e depois voltou tudo ao mesmo. Os jovens continuaram sem perspectiva de futuro, as crianças, adolescentes.  Eu penso que ninguém desejaria essa situação de tudo o que está acontecendo, nem o poder público. Ninguém é eleito para perseguir A, B ou C, mas para administrar o Estado.”

Boa reflexão a todos e a todas.

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