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Diario de Pernambuco e protesto de 27/12: o desencorajamento da cidadania

No começo da última semana de 2010, tivemos protestos em todo o Brasil, incluindo no Recife, contra os aumentos de a partir de 62% nos salários dos poderes Legislativo e Executivo em Brasília. A cobertura da mídia pelo Brasil geralmente foi de morna a fria, muitas vezes enfatizando as poucas colateralidades violentas dos protestos que pretenderam ser – e foram, via de regra – pacíficos. Mas chamou atenção negativa a forma como o Diario de Pernambuco (DP), o mais tradicional jornal do Norte-Nordeste e um dos mais antigos da América Latina, tratou a manifestação recifense.

O DP mostrou como parte importante da mídia brasileira investe na desmobilização sociopolítica, no conformismo e na não-cidadania dos seus leitores, forma opiniões contrárias a qualquer iniciativa de protesto e abalo pacífico da ordem contra o estado de coisas corrente. Para jornais como esse, o mais importante não é a demonstração de cidadania e inconformismo que tais manifestações são, mas sim o “tumulto”, a “perturbação da ordem”, os engarrafamentos. Se tiver algum incidente violento, por mais isolado e colateral que seja, o ocorrido é fortemente explorado para se aumentar a rejeição dos leitores à atividade como um todo.

Já no título da notícia – “Manifestação tumultua centro” –, situada na página A6 do DP de 28/12/2010 – dia seguinte à manifestação nacional –, percebemos a rejeição veemente do jornal ao protesto do Recife. Importavam menos a própria passeata e seus motivos do que o fato dela ter interrompido o trânsito e irradiado barulho (apitos e gritos de guerra) pelo velho centro da cidade.

A descrição da manifestação de 27/12, que começou “de verdade” no segundo parágrafo, após o anúncio de uma aparição de manifestantes no discurso de despedida de Lula, nada favoreceu o protesto. Ficou enfatizado que os manifestantes teriam sido um número pequeno – menos de cem, embora tenha aparentado que os repórteres não contaram os nomes nas atas de presença – e mesmo assim “fizeram barulho e congestionaram o trânsito”. Ou seja, teriam sido os manifestantes fracos em número mas muito irritantes.

Sem falar que, dos quatro parágrafos da notícia reservados ao fato propriamente dito, nada menos que dois e meio foram reservados ao seu único incidente violento expressivo – um manifestante, defendendo-se de um quase atropelamento, depredou o vidro frontal de um ônibus, refugiou-se da polícia no veículo, terminou detido e comprometeu-se a pagar o reparo ao ser liberado. Tanta ênfase no ocorrido acabou desenhando contornos ainda mais hostis no protesto: não bastou ter interrompido o tráfego das grandes avenidas e perturbado o sossego dos pedestres e comerciantes, ainda teve que causar uma depredação! – assim é a mensagem transmitida pelo jornal.

E mesmo quando se descreveu a declaração de uma senhora que aprovou o protesto, a redação fez questão de destacar que ela, “por causa dos estudantes, precisou esperar o ônibus mais do que queria” e dizer a aprovação ao movimento existiu “apesar dos transtornos e barulho”.

E pelo que pareceu ao se ler a notícia, apenas universitários estavam presentes. Ignorou-se que ali também havia trabalhadores e estudantes de ensino médio, e que várias pessoas aderiram ao longo do caminho, como foi o caso de um vendedor de pipoca.

Atitudes assim de jornais como o Diario de Pernambuco obstruem o exercício da cidadania e o usufruto da democracia e promovem grandemente a alienação. Graças a notícias como a descrita acima, nosso povo continuará conformista e desmotivado para expor sua indignação e desejo de mudanças, sem gás para empreender protestos. O que esperar de uma população que é frequentemente desencorajada da atitude de se manifestar nas ruas e induzida ao conformismo e à resignação perante os desmandos e omissões dos governos?

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