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dez10

O que o veganismo não é

Meu amigo irmão de consciência Samory Pereira Santos, autor do blog Opinião Vegana, escreveu, um mês atrás, um texto explicativo sobre o que o veganismo não é, com o objetivo de desmitificar o hábito de consumo ético tanto para quem está aderindo ao veganismo mas ainda tem ideias equivocadas, como para quem o critica tomando como base os mesmos equívocos e preconceitos.

O texto é muito bom, embora não vá convencer @s “alfascistas” a repensarem seus preconceitos.

O que o veganismo não é
por Samory Pereira Santos

Dedico este textos aos veganos que acabaram de conhecer o veganismo e, por vários motivos, acabam por confundir algumas coisas. Não tenho pretensões de esgotar o assunto, uma vez que a quantidade de equívocos que há quanto ao veganismo são tão vastos quanto a criatividade humana. Porém, o dano que esses equívocos podem causar não são desprezíveis. Alguns podem mesmo frustrar o recém-vegano, que desiludido volta ao especismo.

Para melhor exposição do meu pensamento, irei seguir o familiar caminho da enumeração.

1. Veganismo não é heroísmo.

Um pensamento perigoso que é achado com frequência na cabeça daqueles que acabaram de se tornar veganos é o de que ser vegano é ser herói. Talvez as dificuldades de ordem ideológica, social e econômica na prática do abolicionismo animal fomentam essa ideia equivocada, de que ser vegano é lutar contra o mal, salvar os animais da morte certa e ajudar o mundo ser um lugar melhor para todos que nele vivem.

Ser vegano é apenas, per si, estar andando nos ditames da ética abolicionista (ou libertária) animal. Nada mais. Ser ativista, cuidar de animais domésticos, afundar navios baleeiros no caís… isto pode ser heroísmo (não digo taxativamente que o seja, pois não acredito em heróis). Porém fazer apenas o que é possível não é ser heróico. É apenas fazer o que é certo ou, na maioria dos casos, não fazer o que é errado.

2. Veganismo não é puritanismo.

Ora uma autocrítica, ora uma crítica exterior, a ideia do vegano enquanto ser puro deve ser desmistificada pois, além de falsa, é impossível. Parte da ideia do vegano enquanto ser puro está baseada na ideia do verdadeiro vegano, isto é, que o vegano de verdade não possui nenhum vínculo de ajuda junto a qualquer forma de especismo. Sabemos que isso é impossível devido ao contexto histórico em que vivemos, tal como eu expus em O verdadeiro, possível e falso veganismo.

O resultado prático dessa crença é o fácil abalo do recém-vegano, que aspira ser uma santidade perante os animais, quando revelado que até mesmo sendo vegano está sendo um explorador dos animais. O alfacismo, em suas mais variadas formas, nutre desse equívoco e dessa aspiração impossível, procurando frustrar os que infelizmente se sentem moralmente irrepreensíveis.

O que se tem que perseguir não é a pureza ética, mas sim a realização do que é possível para erradicar o problema: o especismo.

3. Veganismo não é panaceia.

Quando alguém adquire a consciência dos efeitos do especismo no mundo (a saber: a matança de 56 bilhões ao ano, desmatamento, obesidade, atraso do progresso científico, coisificação dos animais, caça, pesca, apenas para listar aqueles que me vieram a cabeça no momento) é relativamente fácil começar a ter a ideia de que o veganismo vai salvar o mundo, a humanidade e os animais. Passa-se a vender a ideia de que num mundo vegano não haveria problemas, pois todos os problemas têm como fundamento o especismo.

Ledo engano, um erro de visualização.

Talvez o especismo atual seja mero sintoma do problema, sendo que o veganismo apenas ataque um elemento de um sistema maior (ora o capitalismo, para os marxistas, ora o Estado, para os anarquistas, ora o consumismo, para os ecologistas). Ou mesmo esse veganismo vendido como solução dos problemas seja um futuro problema, por ser limitado, incompleto para uma transformação social que tenha pretensão de resolver todos os problemas do mundo… como se isso fosse possível.

4. Veganismo não é separatismo.

Um lugar sem cheiro de cadáver alheio carbonizado, com rios de melado, onde haja frutos por tudo que é lado, e não se tenha que perguntar se vai manteiga no bolo, se o shampoo não foi testado em animais, ou mesmo ter que ler todos os rótulos que vierem pela frente (me lembrou o ENDA 2010 essa descrição). Eis o paraíso vegano.

Se você é vegano, há 99,99% de chances que você já tenha sonhado num lugar assim ou pelo menos pensado na possibilidade. É também provável que você esteja engajado no planejamento da construção de uma comunidade vegana, a exemplo do projeto Ecovila Vegana. Se você faz parte do 00,01%, é mera questão de tempo para que você fique tendo em ir prum lugar onde não tenha que explicar toda hora que animais possuem direitos básicos, e por isso que você não vai dar uma mordida na coxinha.

Não vejo nada de ruim nesse pensamento, eu mesmo faço parte dos 99,99%. Porém, existe outra face que é sim prejudicial para a causa.

Ao nutrir-se esse ideário se torna tentador começar a pensar que o restante da sociedade não passa de um bando de criminosos especistas, sem vergonhas, que não devemos nos relacionar. Ideia esta que se confunde, inclusive, com o verdadeiro veganismo ou o puritanismo do item 2).

Mas é isso que queremos? O objetivo não é tornar os creófilos veganos? Como fazer isso se isolando? Creio ser impossível. Por isso que é melhor para a causa a convivência com os creófilos, para que eles saibam que além de ser possível não ser creófago, existem quem respeita os direitos animais.

No mais, antes que alguém objete, uma ecovila possui sim sua serventia para a causa: a demonstração da viabilidade de uma comunidade vegana. De fato, serve como exemplo.

5. Veganismo não é uma tribo urbana.

Talvez a ideia mais equivocada de todas. Inicialmente gostaria de esclarecer que entendimento de tribo urbana que irei adotar neste item é aquele forjado por Maffesoli, através da síntese de Frehse, a saber: “Seriam essencialmente “micro-grupos” que, forjados em meio à massificação das relações sociais baseadas no individualismo e marcados pela “unissexualização” da aparência física, dos usos do corpo e do vestuário, acabariam, mediante sua sociabilidade, por contestar o próprio individualismo vigente no mundo contemporâneo.” Naturalmente, nem mesmo a Comunidade Vegana possui alguma identidade com tal definição. Nenhuma.

Para ser um pouco mais flexível, trarei o pensamento de Magnani, muito mais simples e abrangente “a pequenos grupos delimitados, com regras particulares.” De fato, nós possuímos regras particulares, apesar de não exclusivas, (“não comerás o que de animal foi feito”…)  e somos numericamente poucos (já ouvi falar que somos 100,000 no mundo). Agora, a comunidade vegana não é delimitada, não estando presa a uma classe social, nem a grupo étnico, religioso, cultural, nacional, etc… se configura num grupo ético, talvez em um caso sui generis.

6. Veganismo não é meramente uma questão de consumo.

Alguns não veganos, e ditos veganos recentes, confundem um conceito pragmático de vegano (aquele vegetariano que se abstém de produtos testados, vestuário feito de animais, etc) com a própria essência do veganismo, o resumindo a aquele a esse.

É equivocado, uma vez que veganismo pressupõe toda uma carga subjetiva-ideológica que envolve um claro compromisso com alguma das modalidades da ética animal, sobretudo em sua vertente abolicionista (creio que seja possível ser bem-estarista e vegano). Assim, o veganismo não se resume ao mero consumo consciente que é atualmente sua principal definição e efetivação. O consumo consciente é meramente a expressão concreta (dentre várias outras) do compromisso ético dum vegano (que é a essência do veganismo).

7. Veganismo não é essencialmente um apêndice de um programa político, religioso ou civilizatório.

Devo frisar o termo “apêndice”, isto pois veganismo pode sim ser parte dum programa político ou mesmo que haja uma religião vegana (Jainismo é um exemplo), ou mesmo que alguém faça uma proposta civilizatória que tenha como base o veganismo. Porém, o veganismo não se confunde como estes, os prescinde.

Veganismo é apenas uma proposta ética que possui sim seus efeitos nas mais variadas esferas de atuação humana, tal como a política e a religião. Mas não há conditio sine qua non, isto é, não há uma condição indispensável para que seja vegano, exceto sê-lo (desculpe a redundância).

Talvez isso implique em que determinadas religiões sejam incompatíveis com o veganismo, sendo, portanto, uma condição não ser membro destas religiões, porém não creio que tal pensamento seja útil, ao subordinar o veganismo ao não-ser-de-n-religiões (por exemplo).

8. Veganismo não é ascetismo.

Há uma tendência natural entre os creófilos em entender que uma vida sem exploração animal significa uma vida sem os prazeres da vida, ou os prazeres da carne (que prefiro dizer “os prazeres da morte alheia”). Hão de estar enganados.  Vegano algum renuncia os prazeres da vida, exceto aqueles que são ascéticos independentemente do veganismo, sobretudo do paladar. Não é a toa que nossa literatura culinária é efervescente e crescente, sempre inovando e procurando trazer novos sabores, numa tentativa hedonista de fazer nossas felizes melhores.

9. Veganismo não é ser politicamente correto.

Quem um dia pensou que ser vegano é ser politicamente correto, provavelmente não conheceu o movimento Grosseria Vegana, de Rafael Jacobsen.

A ideia equivocada de que veganismo é um tipo de modalidade do movimento politicamente correto possui como base provável o fato de usarmos “animais não-humanos” para falar dos bichos, dos animais, das bestas, daqueles que não são humanos. Ledo engano crer que isso seja mero eufemismo para não ofender (os animais?). É mera questão política, de lembrar que somos animais (portanto, cabe dizer que há animais humanos e não-humanos, tal como somos animais não-felinos), e que os direitos animais também possuem serventia aos humanos, vez que são também animais.

10. Veganismo não é ambientalismo.

A crença que todo vegano é ambientalista, que o movimento ambientalista e dos Direitos Animais andam juntos e tudo mais é muitíssima equivocada. Como comprovado por Marcio de Almeida Bueno, “(…) há uma cisão aparentemente irremediável entre o movimento ambientalista e os defensores dos direitos animais.”

O paradigma atual reinante na Teoria dos Direitos Animais no Brasil, e no exterior, é individualista negativista. O que importa são os animais enquanto indivíduos, e o que importa é que você não faça mal a eles. O meio ambiente é mera consequência disso, merecendo, portanto, menor preocupação direta que os animais indivíduos.

Confesso que considero tal paradigma limitador, resultado de uma visão de Direitos Humanos que é essencialmente o mesmo. Temos que o mudar, abrangendo também a visão ecossistêmica… coisa que esse artigo que, pretendia ser sintético, não fará.

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ruth iara

dezembro 7 2010 Responder

Muito bom.

Aproveito o ensejo para assentar a prática da abolição da escravidão. Vamos trazer o veganismo de forma concreta para o nosso mundo!
Não é ,por exemplo, porque usei um anestésico que deixo de ser vegetariana com desejo de atingir o veganismo. Não é por causa disso que deixo de ler os rótulos e de não aceitar pomadas novas testadas em animais. Não é porque um dia que outro comi um bolo que vai ovos e leite que vou deixar de usar leite de soja todos os dias na minha alimentação, preferir maquiagens não testadas em animais, sabonetes não testados, etc. Colocar nossas metas em termos práticos para mim é isso. Estou convicta do que desejo e uno minha vontade a de todos vocês abolucionistas.

Não queremos o incremento da indústria com produtos desnecessários testados em animais, certo? As invenções consagradas podem continuar. O que não desejamos é a continuidade da tortura ao seres que sentem dor.

Pois o vegano dá exemplos. E o fundamentalismo só atrapalha.

O sapato de couro que aproveitei da minha sobrinha não é tão extravagante o quanto usar uma bota de couro, um casaco de couro ou um casaco de peles o que seria muito pior. Melhor seria se o sapato não fosse de couro, no entanto. Depois deste não quero outro assim. Vou comprar um calçado de couro artificial ou algo que o valha. Vou comprar um destes bem charmoso para minha sobrinha querer um do mesmo tipo.

Vamos trazer o veganismo para muita gente, pessoal! Vamos adaptar isso não apenas para uma elite, mas para a sociedade! Aos poucos… Vamos convidar cordialmente as pessoas a nos curtirem, a curtirem os direitos dos animais e a causa tão apaixonante da sua libertação. Vamos chegar a um denominador comum, pessoas! Vamos procurar ser abrangentes!

Um abraço para ti Robson e para os leitores! ?

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