17

jan11

Comercial da GVT: androcentrismo que às vezes passa despercebido

Que a publicidade brasileira é androcêntrica e altamente brancocêntrica, não é dúvida para quase ninguém. Mas muitas vezes é bom que alguém se atente para o que pode passar despercebido aos olhares mais desatentos e acríticos.

Um exemplo é o comercial da GVT abaixo, que atualmente está passando na TV.

Este comercial é uma demonstração de que, quando não trata de produtos especificamente femininos (cosméticos, produtos de limpeza, eletrodomésticos e outros elementos que compõem o perfil da “clássica” mulher doméstica e embelezada), a publicidade é direcionada enfaticamente para homens.

Está claro que uma banda larga ruim faz a pessoa (sic) perder… a esposa. Pensei na hora em que vi o comercial: por que não o contrário?

É esse o questionamento que faço: por que a agência de publicidade que fez o comercial acima não pôs uma mulher como protagonista, uma mulher pegando ar? Será que ela perderia o marido por causa da banda larga malfuncional?

E o outro detalhe a que me atentei foi o fato de a esposa ser uma personagem coadjuvante da cena casual. O marido é o membro ativo do casal, que usa a internet para seus negócios e hobbies. A esposa (repito porque, pelo mesmo motivo que repudio o uso do termo “homem” como sinônimo de ser humano, detesto ver a palavra “mulher” sendo usada como sinônimo de esposa) é a passiva que faz uso da muitíssimo menos dinâmica televisão para se divertir – no máximo é uma usuária secundária do laptop do companheiro.

Me pergunto: e se fosse o inverso – a mulher enlouquecendo no laptop e o homem calmo vendo televisão e servindo cafezinho aos homens do manicômio? Opine se desejar, dizendo o que acharia. Ao meu ver, seria uma chocante inversão dos papéis de gênero, a quebra do tradicional contraste entre a mulher secundária, passiva e delicada e o homem “principal”, ativo e assertivo.

Não posso dizer que a GVT errou em levar ao ar esse comercial, já que segue o paradigma tradicional androcêntrico e pouco conhece os valores pregados pelo feminismo – da mesma forma que existe o paradigma tradicional de se comer carne e não se conhecer bem os valores dos direitos animais. Mas vale dizer que dedicar aos homens propagandas de produtos ou serviços unissex é uma injustiça que precisa ser corrigida. É uma amostra de que a publicidade participa ativamente dos esforços de manutenção do patriarcalismo e do androcentrismo.

P.S: a quem considerar este post uma “frescura” ou uma procura de pelo em ovo, considere-se que isso é sociologia, é flagrar injustiças patentes onde o senso comum só vê normalidade.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Lu

janeiro 18 2011 Responder

Adorei a crítica, é bem por aí mesmo = )
Agora pergunto: se o comercial tivesse sido feito com inversão de papéis, qual público antigiria? Seriam usadas cenas mais apelativas, talvez uma mulher gostosona, com decote sugestivo? Ou médicas com cara de atrizes pornôs? rs Certamente!
O mundo ainda é machista e o Brasil então, nem se fala… As vezes sinto que a propaganda brasileira ainda insiste naqueles padrões norte-americanos dos anos 50, 60; quando os fornos e fogões eram o “must” e a família ideal era composta por pessoas com cara de manequim de cera… rsrs Ou a mulher é uma amélia ou uma puta, parece que não tem meio termo…

Fernando Knorr

janeiro 17 2011 Responder

Concordo que “banda larga” deveria ser um substantivo heterônimo?

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo