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jan11

Diario de Pernambuco e o desencorajamento da cidadania – terceira parte

O esperado aconteceu de novo: o Diario de Pernambuco voltou a destilar ódio reacionário contra as manifestações de rua dos estudantes e trabalhadores. O jornal de 14 de janeiro seguiu a linha das edições de 28/12/10 e 12/01/11 e demonstrou a plena oposição do jornal aos protestos que visam afrontar os aumentos dos salários dos parlamentares e das tarifas de ônibus da região metropolitana do Recife.

E dessa vez, ao contrário da edição do último dia 12, quando o jornal pareceu estar representando os que foram afetados pelos engarrafamentos causados pela passeata, a atitude foi simplesmente o ataque cego, sem dar espaço bastante a citações dos motoristas congestionados.

Entre outras atitudes tendenciosas da notícia intitulada “Mais uma tarde de caos no trânsito”, notaram-se o reducionismo que restringiu o atores da passeata a “entidades estudantis, (…) alguns movimentos e partidos de esquerda”, excluindo os diversos trabalhadores que participaram e discursaram no microfone do carro de som; a exclusão do segundo grande tema da atividade – o aumento dos salários dos poderes Legislativo e Executivo –; a omissão quase total dos motivos da mesma; o realce extremo das suas consequências negativas; a ridicularização do Comitê Contra o Aumento das Passagens, em dizer que ele era simplesmente um “grupo que se apresenta como um comitê contra os aumentos”; e a desfaçatez de dizer que os manifestantes foram (só) vaiados, ignorando-se que houve muito mais aplausos e acenos de apoio do que sinais de repulsa por parte da população.

E destacou-se o seguinte trecho: “No cruzamento entre as duas vias o grupo fez mais um bloqueio. Um motoboy tentou negociar com os estudantes. Disse que estava muito atrasado. Não foi ouvido e, quando tentou passar, foi agredido. A Polícia Militar teve que intervir.” Com tanta manipulação na notícia, é de se duvidar se isso aconteceu exatamente assim. Os manifestantes não foram ouvidos pelo Diario, para se poder confrontar as versões do fato. E se o motoqueiro tentou passar por cima, conforme relatos de diversos manifestantes? Essa possibilidade o Diario nunca vai cogitar.

E de novo não houve qualquer abertura por parte do jornal para se discutir as causas da manifestação, para se falar dos salários dos políticos e da qualidade do transporte coletivo, para se sugerir meios alternativos de protesto e pressão que não causem transtornos urbanos, para se dar sequer uma pista de como a sociedade pode agir de modo a não haver mais (a necessidade de se fazer) novos protestos no futuro. Em vez de tentar integrar socialmente a classe média, seu principal público-alvo, aos mais necessitados, joga-a contra eles de forma muito grosseira.

O Diario, assim, reitera sua posição reacionária, adversa aos movimentos sociais, ao exercício militante da cidadania e ao direito constitucional dos cidadãos à promoção de protestos de rua. Sua atitude se assemelha à posição assumida por José Serra em relação aos movimentos socioagrários. O ex-candidato a presidente, nos guias eleitorais e debates, criticava o MST e dizia que o Brasil governado por ele seria marcado pela “paz no campo”, sem conflitos agrários, mas não dizia como queria concretizar isso, se iria reprimir e calar os sem-terra. E da mesma forma o DP não diz o que fazer para haver um amanhã sem protestos e constrangimentos à vida urbana, parecendo, em última análise, defender implicitamente o silenciamento pela repressão policial.

Os cidadãos se perguntam: o que o Diario de Pernambuco quer, afinal de contas, ao abordar os protestos dos estudantes e trabalhadores de forma tão negativa, irrazoável e odienta? De quem ele está a serviço, para desqualificar de tal maneira a oposição popular aos abusos vindos do (ou consentidos pelo) poder público? Uma coisa, porém, é certa: o jornal está perdendo o respeito de milhares de leitores seus.

E, para encerrar este terceiro artigo contra a postura abusiva do DP, dou um alerta aos leitores do jornal: preparem-se para a possível chegada de editoriais e artigos carregados de reacionarismo e direitismo radical, no esforço de desqualificar mais ainda o exercício da cidadania protestante, nas próximas edições. Se nas notícias já esbanjam tanta raiva das manifestações de rua, imaginemos o que as seções de opinião explícita estão guardando para nós.

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