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Diario de Pernambuco e protesto de 11/01: de novo o desencorajamento da cidadania

Atualizado em 12/01/11 às 20:25

Chama atenção a nova onda de cidadania ativa que, abalando o centro do Recife, expressa a intolerância de parte do povo aos abusos vindos do poder público. Por outro lado, algo que também vem atraindo os olhares atentos da população é a atitude do Diario de Pernambuco, que vem tratando com verdadeiro ódio e patente tendenciosidade as manifestações de rua ocorridas no velho centro.

Repetiu-se, na edição de 12 de janeiro, o papelão da publicação do dia 28 de dezembro, em que se havia dedicado a notícia intitulada “Manifestação tumultua centro” para atacar o protesto cidadão contra o alto aumento dos parlamentares federais e estaduais. Mas dessa vez de forma ainda mais enfaticamente agressiva e repudiatória, praticamente sensacionalista.

Na primeira página (manchete “Quando o protesto sai pela culatra”) e na notícia chamada “Mais uma vez, a cidade refém”, deu-se ênfase máxima aos engarrafamentos que a paralisação sequencial das avenidas Conde da Boa Vista e Cais de Santa Rita causou, e reservou-se apenas uma descrição residual às causas e às consequências positivas do protesto. O leitor de mais senso crítico percebe que o Diario desistiu de posar de mídia imparcial e passou a investir num ponto de vista tornado óbvio – a apologia à ordem sociopolítica em detrimento da cidadania e da democracia.

Foi-se ainda mais longe do que os veículos integrantes do “PIG”, que ainda fingem imparcialidade por dar ao outro lado o direito ao gol de honra: a notícia em questão só mostrou pessoas que sofreram com os engarrafamentos. Só exibiu declarações e situações de quem discordou da manifestação. Só um lado foi mostrado. Totalmente omitidos foram os estudantes e trabalhadores que participaram do ato. E nem mesmo os transeuntes que simplesmente compreendiam a motivação do protesto tiveram voz na edição final desse DP.

Desde a capa, só se mostrou o congestionamento, os carros parados, a angústia de quem perdeu o compromisso, as grandes vias paradas, o transtorno causado à cidade. Sem falar que a primeira página chama o protesto de “pequeno” e diz que havia “poucos estudantes e militantes de esquerda”, ignorando a presença de trabalhadores sem ideologia declarada.

E quase nada sobre o motivo que levou aquelas centenas de jovens e adultos às ruas – as passagens cada vez mais caras, o transporte coletivo estavelmente ineficiente e desconfortável e os interesses de quem engessa propostas como o VLT e o passe livre custeado por impostos. Zero sobre a essência democrática e constitucional do ato. Ignorou-se que o protesto de rua, aquele que causa engarrafamentos e divide opiniões, é parte dos ossos do ofício de qualquer democracia do planeta.

Esqueceu-se de que, para não haver (a necessidade de) protestos, basta não haver opressão. Reclamou-se muito e muito da afetação temporária do direito de ir e vir dos motoristas de carros, mas omitiu-se por completo que o mesmo direito de ir e vir de quem depende dos ônibus – pessoas muito mais numerosas e necessitadas – é atacado e ameaçado permanentemente, todos os anos.

E preferiu-se, com ódio evidente, atacar o protesto e suas consequências a aproveitar o momento de discutir por que a cada ano temos que ver passagens aumentando e protestos paralisando a cidade. Não houve esforço nenhum de abordar a causa de todo o transtorno alardeado – a desproporcionalidade entre aumento dos preços e evolução da qualidade dos transportes públicos, a falta de linhas de VLT, a não realização de licitações, a limitação do metrô de superfície, a retirada de recursos como ar-condicionado e TVs etc. O DP reclamou tanto mas não deu receita nenhuma de como termos um futuro sem protestos recorrentes, sem os constrangimentos de chocar a insatisfação de parte do povo e a rotina da cidade.

Com tamanho papelão antidemocrático, o Diario de Pernambuco reincidiu em investir, dessa vez de forma recrudescida, contra a democracia e a cidadania ao satanizar o protesto e recusar atenção àqueles cujo grande “crime” foi ser cidadãos. O jornal segue no seu esforço de desmobilizar e despolitizar os leitores, induzindo-lhes a crença de que só basta o direito-dever da eleição para se fazer um Estado democrático. Deixa de lado quase 190 anos de credibilidade para se tornar um arauto do reacionarismo, um porta-voz de quem odeia a democracia em sua essência.

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Tobias Farias"

janeiro 12 2011 Responder

E assim vivemos.
Antigos opressores em nova pele,
no planalto, no alto dos edifícios riscando e arriscando o que os jornalistas escrevem,
no alto de seus saltos de dinheiro que os distanciam cada vez mais da realidade
majoritária de nosso país.

Um dia muda, basta a gente não desistir.

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