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Poucas esperanças para evitar a primeira etapa do ecocídio de Suape

O Promar e seu impacto

A implantação do Estaleiro Promar S.A, no Complexo de Suape, vai provocar pelo menos 33 impactos negativos ao meio ambiente, tanto no período de construção quanto na fase de operação do empreendimento. O resultado está no Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima) apresentado, ontem, durante audiência pública realizada pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) para discutir o projeto. Realizada no Clube Municipal de Ipojuca, a audiência foi preparada para receber 600 pessoas, mas apenas 200 participaram do encontro, que será o único antes da liberação da licença de instalação para a indústria [Ou seja, a destruição de Tatuoca, onde se pretende construir o estaleiro, é praticamente certa e inevitável]. As discussões duraram pouco mais de quatro horas.

Depois da apresentação do projeto do estaleiro pelo empreendedor, a consultora Eliane Bryon fez um resumo do EIA/Rima. Na lista dos impactos considerados de alta importância, ela citou a dragagem que precisará ser realizada no local, o remanejamento dos moradores da Ilha de Tatuoca e a perda de renda dessa população remanejada. Como soluções apresentou Planos Básicos Ambientais (PBAs) que serão executados pela diretoria do Complexo de Suape e a construção da vila Nova Tatuoca, que também ficará a cargo da estatal. Como iniciativa do Promar mencionou apenas uma parceria “para priorizar a capacitação, focando a absorção deste pessoal no trabalho”.

[…]

Quando estiver operando, o Promar também poderá trazer riscos como alteração da qualidade da água em caso de acidentes, alteração da qualidade ambiental por conta do manuseio de resíduos sólidos, risco de elevação dos níveis de toxidade do estuário e tantos outros. Para implantar o estaleiro também será necessário suprimir [“Supressão”/”suprimir” é um eufemismo muito do ridículo, para algo tão sério e relevante como o desmatamento, a destruição implacável da natureza] 14 hectares de mangue e 31 hectares de restinga.

PARTICIPAÇÃO

Apesar de não ter lotado o clube, a audiência contou com a participação ativa de pescadores, ambientalistas e moradores da região de Suape. Muitos se inscreveram para fazer perguntas e reclamaram da precariedade das respostas. A consultora Eliane Bryon, que apresentou o resumo do trabalho, demorava a dar as respostas e, para a maioria delas, sugeria que os participantes da audiência consultassem o EIA/Rima, alegando não ser possível detalhar as explicações em função do curto espaço de tempo da audiência pública.

O presidente da ONG Salve Maracaípe, Marcos Pereira, criticou a dificuldade em ter acesso ao documento do EIA/Rima. “O link na internet (no portal da CPRH não abria e as entidades não receberam o documento previamente para fazer questionamentos com maior propriedade”, afirmou. A reportagem do JC também não conseguiu acessar o link na web durante a última quinta-feira – véspera da audiência. A agência respondeu que disponibilizou o documento físico na sua biblioteca e nas prefeituras do entorno de Suape, mas ficou claro que as entidades tinham interesse em recebê-lo previamente. O presidente da CPRH, Hélio Gurgel, contestou que bastava uma solicitação para ter acesso. Ele fez questão de dar um tom político à audiência, lembrando que durante a primeira gestão Eduardo Campos foram realizadas 15 delas, com a participação de 10.189 pessoas. Ele comparou que nos 10 anos anteriores foram apenas 8 audiências. “Isso é resultado de um governo democrático e socialista, que quer ser transparente. É um governo popular, que que ouvir o povo e fazer a coisa de forma técnica, séria e competente”, discursou.

A notícia dá um enorme desalento, pois parece mostrar que a destruição dos 691 hectares é certa e ninguém poderá fazer mais nada para detê-la. A audiência, distante do Recife, teve poucas pessoas – um terço da capacidade do auditório -, o que deve ter dado a entender que a luta contra o desmatamento esfriou e a sociedade se conformou com a perspectiva de perdermos para sempre um dos mais importantes santuários estuarinos de Pernambuco para a ganância estatal que persegue uma obtusa e antiambiental visão de desenvolvimento.

É contraproducente ficar criticando o movimento ambientalista pernambucano por sua pouca força, mas é inevitável pensar que poderíamos reservar mais forças e convocar mais pessoas para impedir esse atentado contra a vida terráquea e, consequentemente, crescermos enquanto militância coletiva pró-meio ambiente, pró-vida no sentido mais honesto desta expressão.

Eu pessoalmente não tenho esperanças que a nova Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade freie o predatorismo do governo de Pernambuco. Haverá, cedo ou tarde, pressão política esmagadora para que @s futur@s secretári@s dessa pasta deixem passar qualquer proposta de expansão industrial mesmo sem nenhuma preocupação ambiental verdadeira, sob pena de demissão compulsória ou voluntária – assim como o Ibama local sacou Leslie Tavares (em quem votei para deputado federal) e Rogério Guedes por exigirem condicionais fortes para a autorização do ecocídio.

Destaco também a afirmação em roxo do presidente da CPRH. É muita desfaçatez vinda do pau-mandado de um governo que deu uma banana à população e votou de forma relativamente apressada a autorização do ecocídio para evitar mobilização popular. Isso não foi democrático, e  os entes integrantes desse governo deveriam lavar a boca (ou as mãos cujos dedos teclam) antes de declarar a si ou a seu governo socialistas. Esse governo é capitalista ao extremo, ainda que não seja necessariamente neoliberal.

E agora, gente? Será que vamos realmente perder para sempre aquele estuário para um complexo industrial-portuário extremamente sujo em termos ambientais?

Atualização (17/01/2011, 16:12): Uma lembrança para os 82,84% do eleitorado que votaram no cabeça de toda essa destruição (nota: votei em Edilson Silva):

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Marcos Miliano

janeiro 17 2011 Responder

Passei quase um ano pesquisando na comunidade de Tatuoca para a dissertação de conclusão de curso.

Dentre as coisas abomináveis que são submetidas as pessoas da ilha, por Suape, se tem, a perda da renda, a perda da paz, a perda da segurança, a depressão dos idosos, a desproporção de espaço na relocação, a perda da referência de vida, a morte de um lugar que é elemento afetivo da vida de todas as 52 famílias, a destruição de material arqueológico encontrado e não prospectado do solo da ilha, a morte dos rios Tatuoca e Massangana, a destruição de lugar histórico, dentre tantas outras coisas.

Um morador me disse: “… o mangue não pede escolaridade…”. E é exatamente isso, como dar trabalho a essas pessoas que são analfabetos na maioria, e analfabetos funcionais na totalidade? Um trabalho que lhes dê o que a ilha dá, qualidade de vida, comida em abundância, segurança, manutenção da cultura…

Quem vai pagar a conta, quando os velhos morrerem mais cedo pela depressão, o alcolismo almentar pela falta de perspectiva no futuro, da degradação moral promovida pelos “peões” de obras e empresas do entorno que invadem a ilha, pensando se seu “jardim de prazeres”. Deixam sujeira, dejetos, insultam as moças, recolhem os frutos, inserem drogas na comunidade, fazem baderna.

Quem vai pagar o preço pelo primeiro derrame de petroleo ou outro químico qualquer?
Deveriam olhar para Santos-SP, e ver o que vai se transformar Recife, Cabo e Ipojuca.

Não é só isso, das 300 empresas que se instalam em Suape, em sua construção tem operários imigrantes de outras regiões, que vem com suas famílias. São em média 150 por obra. 150 com suas familias, vezes 300 obras… essas pessoas faram o quê quando as obras terminarem? Farão com certeza um cinturão de pobreza ao redor de Suape.

Então o cáos que vivem os moradores de Tatuoca, não será só lá.

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