05

jan11

Preço da carne subindo: eu (não) comemoro (tanto assim)

Dentro da notícia abaixo enumero os motivos por que não comemoro tanto assim essa inflação da carne bovina – que não acontece só em São Paulo -, e mais abaixo explico melhor cada um.

Carne sobe 34% em São Paulo e lidera reajustes de preços em 2010

Vilã da inflação em 2010, a carne bovina terminou o ano passado com aumento de 34,45% na cidade de São Paulo, de acordo com dados da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da USP. Assim, o item –cuja alta no ano foi a maior entre todos os itens do IPC– contribuiu com cerca de 12% da inflação anual para o paulistano, de 6,4%. O índice é o maior em seis anos.

Alguns cortes de carne mais nobres, como o filé mignon e a picanha, tiveram aumentos ainda maiores, de 67,74% e 57,54%, respectivamente. “O preço das carnes subiu muito mais que o padrão dos últimos anos, por causa da entressafra severa que tivemos entre julho e agosto”, afirmou o coordenador do índice, Antônio Evaldo Comune.

De acordo com ele, houve um problema de oferta, agravado por um aumento na demanda graças à entrada de mais pessoas no mercado, com o crescimento da classe C. [Motivo 1]

As razões apontadas pelos segmentos ligados à produção de carne bovina para o aumento de preços incluem: o abate excessivo de matrizes entre 2003 e 2006, que ainda se reflete na oferta de gado de corte [Motivo 2]; a seca excepcional deste ano, que emagreceu o gado [Motivo 3]; o aumento do consumo interno; e o crescimento das exportações, em razão da diminuição do rebanho de dois tradicionais exportadores, Argentina e Austrália.

Com o preço da carne bovina em alta, os consumidores migram para suínos ou frango [Motivo 4], transferindo parte do aumento de preços para esses produtos. O custo das carnes suínas registrou aumento de 21,75% em 2010, enquanto o frango teve elevação de 23,61% [Aliás, isso torna a notícia suficientemente positiva, já que é a maioria das carnes que está inflacionando, não só a bovina]. “O consumidor foge do produto caro para um que seja mais acessível”, explica Comune.

Segundo ele, o aumento nos preços das carnes deve continuar pelo menos até fevereiro e, junto com a pressão sobre os preços de commodities como milho e trigo, deve manter a inflação dos alimentos elevadas neste início de ano.

Motivo 1: Como diriam algumas propagandas eleitorais da hoje presidenta Dilma, a carne deixou de ser “coisa de rico” e se popularizou com a ascensão socioeconômica em massa na população brasileira. E ascensão social não tem nada a ver com conscientização animalista, ambiental, sociopolítica etc. – muitas vezes implica exatamente o contrário, o recrudescimento de comportamentos eticamente abusivos,  tais como o aumento do próprio consumo de carne (vermelha de preferência), o consumo de produtos de empresas conhecidamente antiéticas e criminosas e o maior consumo e descarte de bens de pouca durabilidade.

Logo, com a vigência inarranhada do atual paradigma ético-cultural onívoro-especista e o crescimento do consumismo, o natural foi que o consumo de carne crescesse como cresceu – e o inverso tende ao inverossímil. O veg(etari)anismo ainda é marginalizado hoje em dia, tratado como uma “frescura”, um pensamento “sentimentaloide”, um afeminado sentimento de “peninha”  dos animais (e a sociedade atual repudia, muitas vezes com violência, que homens cultivem características culturalmente típicas do sexo oposto – mesmo que o vegetarianismo esteja longe de ser algo esperado apenas de mulheres).

Aconteceu o mesmo que acontece em diversos lugares do mundo: o consumo de carnes mais caras simboliza a ascensão social, o aumento do poder aquisitivo, a conquista do acesso aos prazeres luxuosos – o que inclui o prazer do paladar. E o inverso – a desvinculação dessa simbologia da alimentação, considerando que o vegetarianismo, mesmo o completo, é acessível a qualquer estrato socioeconômico; e a adesão massiva à alimentação livre de exploração – ainda é uma utopia hoje, em tempos que ainda há instabilidade e fortes discórdias sem controle dentro dos engatinhantes grupos de militância veg(etari)ano-animalista.

Motivo 2: O bem do aumento dos preços da carne bovina veio em parte por causa de um mal – o assassinato massivo de vacas reprodutoras. Vacas que foram tratadas como “máquinas de fazer bois” que tiveram sua vida útil abreviada, “meios de produção” que poderiam ser descartados em caso de condições econômicas adversas. Não bastassem ser tratadas como máquinas, submetidas periodicamente a gravidezes forçadas, foram mortas tais como uma maquinaria obsoleta e improdutiva jogada no ferro-velho.

Motivo 3: É provável que os bois tenham sofrido com a escassez de alimentos, não tendo acesso a uma alimentação que mantivesse seu corpo suficientemente robusto e assim tendo acessos de fome. Não basta serem escravos de corpo, ainda estão suscetíveis a secas que lhes tolherão parte de sua alimentação.

Motivo 4: Esse é o motivo maior que me faz não comemorar tanto assim a alta da carne: o preço da carne bovina subiu, mas o consumo de animais não diminuiu. Pelo contrário, migrou para as carnes brancas e suínas – e passou a implicar ainda mais mortes na pecuária, já que a carne de um único boi pesa o mesmo que a de cerca de 100 frangos ou uma variavelmente enorme quantidade de peixes.

No entanto, pelo menos as carnes suína e aviária também estão inflacionando, e isso, somado à alta da bovina e às futuras inflações da de peixes, deverá encorajar, desde que precedido de muita divulgação, que a população comece a correr para a culinária vegetariana. Isso por si só não vai induzir a população ao vegetarianismo, mas poderá estimular o crescimento da alimentação sem carne mesmo entre @s onívor@s, abrindo-lhes a porta do vegetarianismo pela qual caberá às pessoas escolher entrar ou não.

E os preços altos das carnes são um motivo de longe insuficiente para vegetarianizar as pessoas. Elas precisam de educação ética, de conscientização e esclarecimento sobre o que há de eticamente errado na produção e consumo de carne e outros alimentos de origem animal,  como o vegetarianismo (completo) bem planejado sustenta nutricionalmente a saúde do ser humano e o quão vasta e completa é a culinária vegetariana – desde o café-da-manhã mais simples até a mais luxuosa alta gastronomia, passando pelo colorido e diversificado almoço. Se se tornassem vegetarianas só pelo preço alto de animais mortos, deixariam de sê-lo quando os preços caíssem, não adiantando muito para os animais que vivem e viverão sob a opressão da pecuária e da pesca.

***

Por todos esses motivos, vejo o aumento dos preços das carnes contente, mas não o considero a melhor coisa que poderia acontecer. Aliás, a melhor coisa mesmo seria ver na mídia tradicional que o vegetarianismo está crescendo e prestes a ameaçar os lucros da pecuária e da indústria frigorífica (e da láctea também). Seria ver notícias como essa aqui se multiplicando.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo