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jan11

Tortura em nome da ciência (Parte 15: torturando e matando para salvar uma vida)

Transplante de tumor para camundongo salva americano de câncer de pâncreas

Pesquisadores espanhóis conseguiram eliminar um tumor maligno de um paciente com câncer de pâncreas em estado avançado graças a uma técnica que envolveu o transplante do tumor para camundongos.

O paciente, o norte-americano Mark Gregoire, havia recebido em maio de 2006 o prognóstico de uma sobrevida de poucas semanas. Três de seus sete irmãos morreram em consequência do mesmo tipo de câncer de pâncreas, que mata 95% dos pacientes.

Mais de quatro anos depois, Gregoire, 65, não apresenta mais sinais do tumor em seu corpo, apesar de os médicos ainda advertirem que é cedo para dizer que ele foi totalmente curado.

Os pesquisadores, da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, e do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO, na sigla em espanhol), de Madri, desenvolveram as células do tumor que acometia Gregoire em camundongos de laboratório, para que pudessem testar simultaneamente a reação do tumor a dezenas de possibilidades de remédios sem expor o paciente aos possíveis efeitos colaterais.

Com isso, eles descobriram que o câncer de Gregoire podia ser tratado com a droga mitomicina-C, uma droga que inibe a divisão das células tumorais. O paciente vinha recebendo doses de quimioterapia padrão para câncer de pâncreas, sem resultados, mas se recuperou rapidamente com o novo tratamento.

“Todos os tumores têm um ponto vulnerável, mas a dificuldade é identificar isso, por conta da diversidade genômica dos tumores”, explicou à BBC Brasil o coordenador do estudo, Manuel Hidalgo.

“A probabilidade de que outro paciente com câncer de pâncreas tenha o mesmo tipo de tumor que Gregoire é de 1% a 3%”, diz ele. As variações possíveis de tratamentos chegam a quase cem, segundo ele. “Daí a necessidade de personalizar o tratamento”, afirma.

Lembro do livro Deus, um delírio, de Richard Dawkins, em que ele aborda também a questão do senso moral das pessoas. A grande maioria das pessoas que foram entrevistadas por uma pesquisa diziam achar imoral/antiético matar uma pessoa para transplantar seus órgãos a um/a enferm@, mesmo estæ dependendo dos órgãos dela para continuar vivendo.

Eu gostaria de ver uma pesquisa que abordasse as pessoas perguntando se (e por que) acham moral/ético torturar e matar (com essas palavras, não usando eufemismos como “sacrificar” ou “eutanasiar animais”) um ou mais animais não humanos para salvar uma vida humana. Provavelmente uma maioria respondeira “sim”, e eu gostaria muito de ver os motivos alegados – creio que a maioria iria variar entre “porque o ser humano é superior aos (outros) animais” e “porque, assim como todo mundo iria normalmente escolher salvar uma pessoa a um cão em um incêndio, a ciência tem que priorizar a vida humana à vida animal (não humana) nos momentos mais difíceis”.

Até compreendo o que leva as pessoas a dizer que, em uma situação difícil, é preferível torturar e matar dez camundongos para salvar uma pessoa a deixar os dez camundongos íntegros e a pessoa morta – o senso de fraternidade intraespecífica que emerge em situações extremas. Mas o que questiono aqui é o seguinte: por que tivemos que chegar a esse ponto, o de a tortura e asssassinato de seres inocentes acabar sendo necessária para a sobrevivência de um ser humano?

Por que não lutar para evitar que esse tipo de situação aconteça novamente depois, para evitar o constrangimento de plantar cânceres em camundongos, causando-lhes sofrimento incomensurável e morte dolorosa, para salvar uma pessoa enferma do mesmo destino?

O motivo de isso não acontecer é o especismo e antropocentrismo que marcam os atuais princípios éticos da ciência biomédica. A separação entre os seres humanos “superiores”, cujos corpos e “almas” são sagrados e intocáveis, e os animais-cobaia “inferiores”, dos quais a exploração, por mais violenta e letal que seja, é livre – ou no máximo submetida a um fracamente bem-estarista conselho de “ética”.

Em relação a esse pensamento medieval, vejo que só haverá mudança positiva quando as ONGs de direitos animais pelo mundo todo crescerem e começarem a bater na vivissecção e @s pensadoræs do abolicionismo se multiplicarem nas academias de ciências biológicas, intencionando mudar os princípios éticos da ciência atual.

Da mesma forma que hoje agradecemos a Rousseau, Kant e outros iluministas pela consagração da democracia hoje em dia, amanhã agradeceremos a pessoas como Sônia Felipe pela consolidação da ética senciocêntrica (centrada na senciência do ser em vez de na espécie humana) no planeta, de modo que incidentes como o da notícia acima nunca mais se repitam.

imagrs

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