20

jan11

Um retrato da objetificação e mercantilização dos animais: a ovinocultura

Criadores de ovinos festejam bons preços

O ano começou aquecido para os criadores de ovelhas no País. Com produção de carne ainda insuficiente para atender à demanda e diante da redução das importações do Uruguai – principal concorrente da carne nacional, os preços subiram e animaram os criadores. Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), o quilo da carcaça de cordeiro está cotado entre R$ 9 e R$ 14 e o quilo vivo [Por quilo vivo, entenda-se que o animal é comercializado por seu peso], entre R$ 5 e R$ 8,50. “Há um ano, tanto o quilo da carcaça quanto o quilo vivo estavam valendo menos da metade do que valem hoje”, diz o presidente da Arco, Paulo Afonso Schwab.

Segundo Schwab, o Uruguai, que foi responsável por 10% da carne consumida no Brasil em 2009 – 88 mil toneladas no total -, reduziu as exportações no ano passado para menos da metade e isso acabou melhorando a remuneração dos produtores brasileiros. Além de exportar menos – levantamento do Instituto Nacional de Carnes do Uruguai (Inac) mostra que o país exportou no ano passado 19.182 toneladas de carne ovina, volume 38,47% menor em relação a 2009 -, a carne uruguaia está sendo destinada a outros mercados. “União Europeia, EUA e Canadá são mercados que pagam mais”, diz ele.

“O mercado está bom”, diz o criador Rodrigo Piqueira, da Cabanha Kaluana, em São Miguel Arcanjo (SP). Piqueira, que está há quatro anos na atividade, garante que o preço nunca chegou ao nível de hoje. “Conseguimos até R$ 8,50 o quilo vivo.”

Qualidade. Para Piqueira, o produto nacional tem qualidade superior ao produto importado. “No Uruguai, como a lã é o principal produto, os animais são abatidos com mais de 16 meses, o que desvaloriza a carne. Nessa idade o animal não é mais cordeiro, é carneiro”, explica. A cabanha possui 3.600 matrizes da raça santa inês e meio-sangue e 23 reprodutores, das raças poll dorset, texel, ile de france e dorper, todos PO, instalados [como se fossem equipamentos para serem “instalados”] em 4 mil metros quadrados de galpões [Subentende-se que os animais vivem aprisionados em pequenas baias de cerca de um metro quadrado]. Os lotes são divididos em piquetes conforme a categoria animal.

Para ser considerado cordeiro, o animal deve ser abatido com 110, 120 dias de idade – “Até 150 dias dá para abater como cordeiro“, diz Piqueira – e peso médio, macho ou fêmea, entre 35 e 40 quilos. O produtor diz que entrega animais para frigoríficos em Boituva, Jaguariúna e Promissão. A dieta dos filhotes é à base de ração, silagem e feno. Ele adota também o “creep feeding”, que oferta ração à vontade para animais com 7 a 40 dias de idade [Subentende-se: separados violentamente de suas mães]. As matrizes são criadas a pasto.

“A genética é importante para ter carne de qualidade, mas a nutrição também é crucial.” E para manter a boa genética do plantel, 30% das melhores fêmeas são reservadas para a reposição de matrizes [“repostas” como se fossem máquinas de produção]. E 5% dos melhores machos são reservados para a venda para outros criadores. “Nossa capacidade é para 5 mil matrizes”, diz.

O corte mais valorizado é o carré, parte do lombo do animal que corresponde à picanha no bovino. O preço varia de R$ 50 a R$ 70. Para tornar o produto mais acessível, os produtores investem em hambúrguer, linguiça, kafta e croquetes, feitos com carne de animais mais velhos. “Fazer hambúrguer, linguiça, espetinho é uma opção entre os mais de 25 cortes possíveis”, diz o criador Valdomiro Poliselli Júnior, de Jaguariúna (SP), que possui mil animais PO. O quilo do hambúrguer, diz, sai a R$ 14,50.

Ciclo completo. O produtor faz o ciclo completo – cria, recria, engorda e abate – e, para garantir a oferta de cordeiros com características padronizadas, investe, há quatro anos, em sistema de integração com ovinocultores de todo o País. Ao todo, são 42 produtores parceiros, responsáveis pela produção de 16 mil animais por ano. “Estou ampliando esse projeto para produzir 100 mil cordeiros em 2012.” A empresa abateu em 2010 42 mil cordeiros.

“O programa Cordeiro Prime subsidia a compra do reprodutor e garante a compra de toda a produção. O integrado produz sabendo para quem vai vender”, diz o criador, que vende cortes resfriados para um empório na capital. A demanda por cordeiros é tamanha que o criador paga prêmio de 10% sobre o preço de qualquer região do País.

A reportagem acima é uma amostra patente de como os animais “de produção” são tratados como objetos, como mercadorias. Como coisas cuja vida nada mais é que uma animação autômata estimulada.

O tal do “quilo vivo” é um símbolo de como as vidas ou os corpos desses ovinos se tornam mercadorias mensuráveis. O cordeiro, que é um filhote de ovelha criminosamente tomado de sua mãe, é tornado nada mais que 35 quilos de carne animada. Ou “melhor”, 35 “quilos vivos” de carne.

Tratados como coisas, vivem aprisionados em minúsculas baias – relacione a área dos 4 mil metros quadrados de galpões com a soma das 3.600 “matrizes” (mães que têm seus filhotes irresgatavelmente sequestrados) e dos 23 “reprodutores” (machos tratados como máquinas que, juntas às “matrizes”, promovem a [re]produção de mais animais), subtraia alguma área para os corredores e veja o quão ridículo é o tamanho reservado para cada ser daqueles.

Aliás, mesmo se vivessem sem esse aprisionamento, não deixariam de estar sendo tratados como objetos sob propriedade de um/a pecuarista.

As mães – omite a reportagem – têm seus filhotes arrancados de si quando mal completaram uma semana de vida, gerando muito sofrimento para genitoras e filhotinhos. Parece manipulação sentimental falar aqui da dor que sente um animal, humano ou não, quando ele perde um/a filh@ sequestrad@ por um capataz d@ seu “proprietári@“, mas esse sofrimento, queira @ onívor@ ou não, é fato, não uma mera interpretação subjetiva de um/a defensor/a animal emocionad@.

Mas são apenas posses de um/a proprietári@, coisas. São pedaços animados de carne, ou então máquinas que produzem esses pedaços de carne. Não importa que as mães sofram e vocalizem gritos de desespero, são apenas objetos a serviço de alguém que ganha dinheiro matando. Assim pensa quem trabalha na pecuária.

Depois de uma curtíssima vida, os cordeirinhos são mortos com poucos meses de vida e, tendo seu corpo destroçado no frigorífico, são convertidos no que as pessoas mais gostam: meros pedaços de carne, dessa vez inanimados e inertes.

Afinal, suas vidas não serviam para ser vividas. A vida para esses seres, segundo o ponto de vista da pecuária, é apenas a animação corporal necessária para permitir ao animal comer e multiplicar suas células musculares. Algo desprovido de consciência, sentimentos e personalidade. Uma animação que, a certo ponto, perde sua utilidade e é desligada com o facão d@ açougueir@.

Isso é pecuária. É escravidão, alienação e negação de vidas. É a não-liberdade de bilhões de seres que têm o infortúnio de nascer no corpo errado, no lugar errado e no tempo errado. É o regime de propriedade que algumas pessoas têm sobre bilhões de escrav@s. É a opressão em seu estágio mais avançado.

P.S: post incluído na categoria “Tortura” porque poucas são as torturas piores que roubar para sempre um/a filh@ de uma mãe ou pai amoros@.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo