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fev11

Cientistas estadunidenses defendem a exploração animal em nome da ciência

Cientistas defendem no AAAS testes com animais

Um grupo de cientistas americanos defendeu os experimentos com animais, durante reunião da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), que encerrou segunda-feira em Washington (EUA), afirmando que a medida permitiria salvar vidas.

Os testes com animais possibilitou avanços em pesquisas que, por sua vez, melhoraram a qualidade de vida dos seres humanos, afirmaram.

Parar significaria não sermos mais capazes de fornecer tratamentos no prazo apropriado. Isto quer dizer: muitas pessoas vão morrer“, afirmou à AFP Stuart Zola, da Universidade Emory, que abriga um importante centro de pesquisa sobre primatas.

Os experimentos com animais permitem, entre outros, trabalhar com tratamentos para doenças como o diabetes ou a Aids, e são utilizados como parte da pesquisa sobre células-tronco, segundo os pesquisadores.

Centenas de animais são usados [eufemismo de explorados e torturados] a cada ano para objetivos experimentais. Estes testes são criticados por organizações de defesa dos animais, que pressionam os laboratórios científicos, algumas vezes recorrendo ao boicote dos produtos fabricados. [A Folha não diz por quê, quais são os argumentos das ONGs animalistas.]

Experiências com animais são, contudo, indispensáveis como no estudo a hepatite C, explicou John Vandenberg, do Centro Nacional de Pesquisa sobre os primatas do sudoeste, com sede no Texas.

“Há uma verdadeira falta de informações no mundo sobre a origem dos tratamentos e das vacinas”, lamentou.

Paradoxal. Cientistas defendem o atraso, a estagnação tecnológica das ciências biomédicas, na reunião da Associação Estadunidense para o Avanço da Ciência. Não falam que a vivissecção atualmente é um “mal necessário” e provisório a ser abandonado no futuro, algo que não pode parar no momento mas precisa ser substituído a longo prazo por tecnologias simuladoras de organismos. Pelo contrário, simplesmente advogam a perpetuação de uma metodologia de pesquisa cruel, antiética e bicentenária, e está parecendo que não falam um “ah” sobre substituí-la num futuro próximo ou relativamente distante – já que a notícia não cita em nenhum momento a perspectiva futura de tornar obsoleto o “modelo animal”. Defendem a acomodação tecnológica, algo que nas ciências exatas-naturais (Física, Química, Astronomia, Geologia etc.) seria considerado um autêntico absurdo por motivos quase óbvios – o que seria da Astronomia, da Física, da Química etc. se usassem o mesmo alicerce tecnológico da virada dos séculos 19 e 20?

Há a diferença, no entanto, de que o “modelo animal” se trata indiretamente do objeto da pesquisa, não de um mero meio instrumental de observação – a cobaia é o objeto da Biomedicina mas o telescópio não é o objeto a ser estudado pela Astronomia. Mas não deixa de ser um intermédio, já que o verdadeiro objetivo é conhecer o corpo humano, não o funcionamento dos organismos dos outros mamíferos (exceto na Medicina Veterinária e na Zoologia). E há perdas e erros quando se pesquisa um organismo apenas similar, não maximamente semelhante, ao humano, como é revelado numa entrevista divulgada no site da revista inominável.

Há possibilidades, cuja maioria hoje me foge ao conhecimento por minha leiguice, de substituir a longo prazo a vivissecção. A simulação de organismos humanos é a que mais me parece evidente – sua dependência de alta tecnologia não é nenhum monstro de cem cabeças se considerarmos que a tecnologia humana não conhece limites e as engenharias se lançam em um desafio atrás do outro. O potencial tecnológico necessário pra aposentar a tortura em nome da ciência existe. Só não existe no momento o interesse de se pesquisar e se desenvolver essa tecnologia.

Demonstrações dessa falta de interesse, da preguiça que emperra o avanço tecnológico da ciência biológica, não faltam. A notícia acima é um exemplo, algo nada isolado se considerarmos que o Brasil também tem uma comunidade científica antropocêntrica e desinteressada no abandono a longo prazo da tortura de cobaias, conforme a alienante campanha de “conscientização” em prol da exploração animal científica no ano passado.

Os animais aprisionados nos biotérios e torturados nos laboratórios possuem uma inimiga. Não é nem tanto @s cientistas que têm a tortura e o assassinato como instrumentos de trabalho, que agem sob “ordens” dessa inimiga. Trata-se da moral antropocêntrica, que autoriza a exploração de seres de outras espécies animais, por mais violenta que seja, pelo “bem” da humana. É a doutrina que sacraliza a vida humana em detrimento de todas as outras, vigente desde antigas religiões – a religião antropocêntrica que conheço como sendo mais antiga é o judaísmo -, passando pela filosofia de Descartes, aquele que afirmava que animais eram autômatos sem senciência, até hoje em plena Era da Informação, época de realizações tecnológicas cada vez mais fantásticas.

O antropocentrismo sempre funcionou de forma muito semelhante ao etnocentrismo e ao racismo, justificando colonizações muito violentas, a presunção de ter um lugar ou civilização como propriedade do povo/raça/espécie “superior” (a exemplo do estuário de Suape, tomado da Natureza pelo governo estadual, que arrogou domínio e propriedade sobre o terreno, e paulatinamente destruído para dar lugar ao atual complexo industrial-portuário), a escravidão, crueldades extremas e extermínios sistemáticos. Assim é a vivissecção: animais tratados como propriedade dos seres “superiores” são submetidos a uma vida inteira de prisão e privações, encerrada de forma violenta com dias, semanas ou meses de tortura e sofrimento até uma execução do tipo de, no caso dos roedores, prender a cabeça do rato entre os dedos d@ cientista e puxar seu rabo rompendo a coluna vertebral (ou mesmo o falecimento resultante de um câncer ou outra doença).

Essa é a realidade que pessoas como essæs cientistas que participaram da reunião da AAAS e @s organizadoræs da campanha de anticonscientização pró-vivissecção desejam perpetuar, como se a tecnologia humana fosse incapaz de encarar o desafio de substituir ou simular organismos vivos.

E uma curiosidade na notícia acima é que, ao contrário de notícias ligadas a outros temas, em que afirmações são quase sempre marcadas com aspas para não dar a impressão de que é uma verdade consensual ou uma opinião sendo transmitida, ela só tem um par de aspas, limitando uma citação direta. As citações indiretas não usam essas aspas que limitam a veracidade de declarações ou a identificação do jornal com as mesmas. É como se reproduzissem a opinião da Folha, favorável à exploração animal em nome da ciência.

Enquanto o antropocentrismo, a aética na relação da ciência biomédica com animais não humanos, a preguiça tecno-metodológica, os interesses das indústrias envolvidas no aprisionamento e tortura de cobaias e a manipulação jornalística pró-vivissecção continuarem prevalecendo, os animais vítimas dessas experiências vão continuar sofrendo muito, com vidas semelhantes ou piores que as de prisioneir@s de campos de concentração.

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