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fev11

Como *não* conscientizar as pessoas sobre vaquejada e direitos animais

Achei o panfleto abaixo na internet (trouxe para cá editado, sem o nome da entidade divulgadora), e, observando seu conteúdo, me vi no compromisso de fazer uma crítica a certas táticas tradicionais de conscientização de direitos animais.

O panfleto em questão, embora tenha sido feito com a melhor das intenções, é um tiro no pé em se tratando de divulgar a causa animal e criticar as vaquejadas. Isso por diversos motivos:

a) Incide em pesados juízos de valor, arriscando expor mais uma concepção pessoal e subjetiva da violência da vaquejada do que uma descrição objetiva e factual dos aspectos que tornam o pseudoesporte antiético e violento. @ conscientizador/a vê a vaquejada como “espetáculo implacável”, “sadismo”, “covardia”, “não-cultura”, “barbárie”, mas o indivíduo a ser conscientizado não. Há um choque de valores e até de percepção cultural. É como um militante negro que quer porque quer convencer um brasileiro médio de que a negritude feminina é um padrão de beleza fenomenal – não consegue usar fatos, mas apenas percepções meramente pessoais relativas a conceitos e preferências de beleza.

Juízo de valor não convence ninguém do erro de um comportamento. Pelo contrário, corre o risco até de causar resistência n@ outr@ à recepção da mensagem transmitida.

b) [atualizado em 09/02/11 às 20:25] Uso falho do apelo ao coração: não faltam expressões emocionais meramente pessoais de indignação, revolta e repúdio e os já citados juízos de valor, e há por outro lado poucas referências factuais que pudessem tocar as pessoas pela compaixão, como dizer que os bois e cavalos têm sentimentos e são seres inocentes que sofrem por causa da violência causada por seres humanos. Dá-se um peso muito grande à emoção existente d@ conscientizador/a, carregada de revolta, indignação e repúdio, mas pouco peso ao conscientizad@, ao modo como a mensagem irá tocá-l@. É como se se tentasse dizer: “eu sinto muito ódio de vaquejada, por isso peço para você também ter esse ódio”.

c) Nega o caráter cultural da vaquejada, que, por mais que nos oponhamos, é uma manifestação cultural. Algo não precisa ser obrigatoriamente ético e respeitador de direitos para ser cultural. A mutilação genital feminina é um aspecto cultural de certos países, por mais que ofenda os direitos humanos e oprima as mulheres. O infanticídio foi/é um elemento cultural de certas tribos indígenas. Matar gladiadores, leões e cristã/o/s era uma apoteose da cultura lúdica da Roma Antiga. O sacrifício humano religioso era parte da cultura asteca. A escravidão humana foi algo socioculturalmente arraigado no Brasil por mais de 350 anos.

O que se pode fazer não é negar que vaquejada é um aspecto cultural, mas sim mostrar que cultura e tradição não definem ética e também que a cultura pode mudar para se adaptar a uma realidade de mais direitos e menos violência.

d) O mais grave do panfleto: dirige acusações patentes, extremamente ofensivas, contra as pessoas que deveriam estar sendo conscientizadas. Quando diz que “a vaquejada não é cultura, é crime e os participantes que estão na arena, o público presente e os patrocinadores desta manifestação de barbárie não passam de criminosos, covardes e sádicos” (grifos meus), fala claramente que quem gosta de vaquejada é criminos@, covarde e sádic@. A mensagem transmitida se torna: você é criminos@, covarde e sádic@!

Quem é que vai ser conscientizad@ desse jeito, sendo chamad@ de criminos@, comparad@ a homicidas, polític@s corrupt@s, sequestradores e torturadores?

e) Carência de dados objetivos e factuais sobre a violência e exploração animal nas vaquejadas. Quase tudo o que se diz no panfleto é baseado em concepções subjetivas e passionais. Não diz por que a vaquejada é uma maldade. Não cita os ferimentos que o boi e o cavalo podem sofrer, o uso de esporas, o medo que o boi sofre, as possíveis fustigações e agressões dentro do brete, o fato de cavalos e bois serem escravos nascidos apenas para o fim de servir de brinquedo, nem mesmo o caráter de agressão de se perseguir e derrubar animais numa arena.

f) Não prova a afirmação de que “pessoas dessa natureza (@s “criminos@s, covardes e sádic@s” que assistem (sic), participam ou patrocinam a vaquejada) estão trabalhando dentro de si sentimentos ruins, desenvolvendo cada vez mais o ódio, a violência e a falta de compaixão, e são capazes de fazer com as pessoas o que fazem com os animais.” É fácil desenvolver a crença lógica de que a vaquejada suscita maus sentimentos e desvio de caráter, já que é uma violência, mas não é conveniente quando não há dados provando que, por exemplo, municípios com vaquejadas são mais violentos que cidades sem o pseudoesporte.

g) A gravura no panfleto não é de uma vaquejada, e sim de uma categoria de rodeio que inclui capturar e amarrar um bezerro. Precisa-se entender de uma vez por todas que vaquejada não é rodeio, rodeio não é vaquejada. São pseudoesportes diferentes, embora ambos se dediquem a explorar e violentar bovinos e equinos.

A militância brasileira pelos Direitos Animais ainda engatinha, incidindo em falhas importantes que comprometem sua credibilidade. Problemas como o uso exacerbado de juízos de valor, o excesso de subjetividade e passionalidade, o lançamento de acusações contra quem deveria estar sendo conscientizad@ etc. fazem as pessoas não familiarizadas com a ética animal adquirirem repulsa por quem tenta exercer o papel de educador/a étic@, e até dá combustível para trolls, alfascistas e discursos reacionários. Sem falar na satisfação de quem ganha dinheiro explorando, escravizando e matando animais.

Em estado ainda mais incipiente está a oposição nordestina à vaquejada. Rara e carregada de vícios argumentativos.

Precisa-se rever como a conscientização vem sendo feita, a linguagem usada, a eficiência da persuasão. Só com uma argumentação decente e adequadamente racionalizada é que vamos conseguir tocar a mente das pessoas e atraí-las para a causa.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nelma Suely Santana Ferreira

janeiro 22 2013 Responder

VAMOS DIZER NÃO: VAQUEJADA COMO ATIVIDADE ESPORTIVA

A nova lei, sancionada pelo governador em exercício, Domingos Filho (PMDB), e publicada no Diário Oficial do Estado na última terça-feira, regulamenta a vaquejada como prática desportiva e cultural no Ceará.
Em meio a divergências, a lei que regulamenta a vaquejada como prática desportiva e cultural no Ceará foi sancionada pelo governador em exercício, Domingos Filho (PMDB), no dia 8 de janeiro, e publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) na última terça-feira. De um lado, ativistas defensores dos animais se dizem contrários à nova legislação. A presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa) no Ceará, Geuza Leitão, que chegou a considerar a lei como “verdadeiro absurdo e falta de vergonha”, destaca que os bois utilizados nas vaquejadas sofrem maus tratos. “Todo mundo sabe que, quase sempre, ao final da competição, esses animais estão sem o rabo e até sangrando”, aponta.
Para ela, a crueldade da prática é referendada pela própria lei, ao definir a vaquejada como evento de natureza competitiva, cujo objetivo é perseguir e dominar o animal.
Além disso, Geuza diz estranhar o “tempo recorde” em que a lei foi aprovada na Assembleia Legislativa. “O processo de tramitação na Casa durou menos de um mês. O deputado apresentou o projeto no dia 22 de novembro e, no dia 20 de dezembro, menos de um mês depois, a lei já estava sendo aprovada em quatro comissões técnicas e no plenário”, frisa a presidente, salientando que vai entrar com ação direta de inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Olhar para a cultura
Autor da lei, o deputado estadual Wellington Landim (PSB) explicou, ao ser questionado se a prática pode gerar maus tratos nos bois, que a nova legislação tem o propósito de fazer com que as pistas “tenham as condições necessárias para que o gado e o vaqueiro sofram menos”.
Ele disse, ainda, que não existe esporte mais popular que a vaquejada no Nordeste. “Não há como retroceder, porque é a nossa cultura”, pondera.
ENTENDA A NOTÍCIA
O principal argumento utilizado pela União Internacional Protetora dos Animais na ação do STF será o artigo 225 da Constituição Brasileira, que proíbe qualquer prática que submeta os animais à crueldade.
Fonte: O Povo

aliny

junho 3 2011 Responder

adorei

Samory Pereira Santos

fevereiro 11 2011 Responder

O g) foi demais. Que confusão, viu?

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