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fev11

Como um governo atenderia aos interesses dos animais inviabilizando a pecuária

Aviso: este artigo é dedicado apenas a leitores veg(etari)anos, já familiarizados com os Direitos Animais. Os onívoros que o lerem provavelmente o acharão absurdo e radical demais para ser levado a sério.

A luta pelo reconhecimento e consolidação legais dos Direitos Animais acontece à revelia dos interesses dos governos e dos poderosos que os influenciam – como, por exemplo, os grandes pecuaristas que compram favorecimentos de Brasília –, mas, contando-se com o progresso da militância abolicionista e da conscientização popular, chegará a hora em que nossa meta, a assimilação dos direitos dos bichos pelas legislações ao redor do mundo, será atingida. Aí hoje pensamos: como um governo agiria em favor dos animais não humanos? Como ele começaria sua política de proteção legal aos novos reconhecidos pacientes morais?

Mais especificamente, considerando o caso mais complicado: como, na intenção de impedir que os animais nasçam para uma vida de escravidão e sofrimento, faria para cercear a pecuária – e a pesca –, diminuindo até o colapso seu poder de produção?

Sabemos bem, até pela lógica, que nunca haverá uma revolução legislativa abolicionista a, por imediato, criminalizar a criação de animais, proibir o consumo de carne, laticínios e ovos, tornar o veganismo obrigatório e libertar os bilhões de seres reféns dela. Até porque isso tornaria o pensamento vegano uma imposição ditatorial para as pessoas, as quais veriam o veganismo com hostilidade, como um sistema fascista. Logo, o desafio de pensar uma forma de os governos começarem, ainda que pouco a pouco, a proteger de verdade os animais é inexorável.

O assunto rende e renderá boas discussões entre os veganos, portanto, em vez de trazer fatos para conscientização e convite à reflexão, me ocupo neste texto a dizer o que pessoalmente vejo hoje como melhor solução para a ilegalização gradual da pecuária, estando sujeito a discordâncias e refutações.

Defendo que a legislação pese sobre a pecuária não por regulamentações bem-estaristas, mas por proibições graduais de práticas e técnicas, pelo aumento de impostos sobre os insumos e produtos dela, pelo incentivo a alternativas vegetais ou sintéticas de alimentos e itens industrializados e pela contrapropaganda de produtos de origem animal.

Os procedimentos da criação de animais, como o confinamento dos bichos, o roubo dos filhotes das mães e a injeção de hormônios, seriam censurados um a um. Uma lei ideal de defesa animal não se ocuparia de regulamentar, por exemplo, o tamanho das baias onde os animais são mantidos aprisionados ou por quanto tempo os filhotes da mamífera matriz ou leiteira teriam o direito à companhia de sua mãe, mas sim proibir o confinamento das “cabeças” e o sequestro da cria das mães, obrigando os pecuaristas a concessões que, em conjunto, terminariam inviabilizando a pecuária como atividade lucrativa e de fácil manejo.

Junto ao proibicionismo gradual, os impostos atuariam em duas frentes: primeiro, sendo cada vez maiores sobre os insumos da “produção” e “manejo” dos animais e das matérias-primas extraídas – grãos para forragem, aparelhos de ordenha mecânica, tonéis de leite, tanques de nitrogênio para marcação, hormônios de crescimento e de multiplicação láctea, chocadeiras elétricas, pistolas de insensibilização, tosquiadeiras de lã, grades de baias, máquinas cortadoras de carcaças, envazadoras de leite e iogurte etc. Também haveria taxação maior de insumos pesqueiros, como redes de arrasto, varas e barcos de pesca.

Segundo, encarecendo os produtos de origem animal: mais e mais impostos sobre alimentos como carne, laticínios e ovos e sobre itens industrializados com ingredientes derivados de animais – sabonetes com base de sebo, cremes de barbear com lanolina, acessórios indumentários de couro, roupas de lã, cremes de cabelo com tutano ou queratina etc. Tanto quanto o cigarro de hoje em dia, os impostos tornariam o consumo de base pecuária mais e mais proibitivo economicamente.

Outra medida seria o incentivo econômico à agricultura e ao desenvolvimento de produtos de origem vegetal e/ou sintética. Haveria aí estímulos a empresários que abandonassem a pecuária e as indústrias frigoríficas, lácteas, granjeiras e pesqueiras e mudassem de ramo, e também capacitações profissionais de ex-peões, ex-pescadores, ex-aquicultores e ex-funcionários de indústrias alimentícias atendidas pela pecuária e pesca.

E por último, a obrigatoriedade da contrapropaganda, da mesma forma que os cigarros: nas embalagens de hambúrgueres, presuntos, leites, iogurtes, ovos etc., haveria mensagens alertando para o problema ético da pecuária e da pesca. Por exemplo, “A Secretaria Especial de Direitos Animais adverte: uma vaca foi escravizada para a produção deste laticínio.”; “…adverte: por este leite, uma vaca teve seus filhotes roubados.”; “…adverte: um animal precisou ser explorado e assassinado para a produção desta carne.”; “…adverte: este peixe sofreu asfixia por vários minutos antes de morrer.”

Tudo seria posto em prática junto, da mesma forma que hoje os impostos e a contrapropaganda atuam em conjunto para tornar o consumo de cigarros cada vez mais inconveniente – o que vem dando certo.

Essa providência provavelmente irá agradar tanto a abolicionistas quanto aos ditos neo-bem-estaristas (defensores animais que argumentam que leis graduais de bem-estar são necessárias para a futura abolição da exploração animal), pois ao mesmo tempo tornará a pecuária menos e menos viável economicamente, sendo cada vez mais cara e limitada – ao contrário do bem-estarismo que termina protegendo a pecuária – e diminuirá as privações sofridas pelos animais viventes à época.

Este texto, longe de esgotar a discussão sobre como o Estado faria frente aos animais contra os sistemas de exploração, dá uma sugestão a ser discutida e melhorada, senão substituída por algo ainda melhor. O convite ao debate está feito, por um futuro de decadência e colapso para a escravidão animal.

imagrs

4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

ruth iara

fevereiro 5 2011 Responder

Muito bom e pragmático artigo. Acho que já chegou mesmo a hora de idéias sustentáveis com estas. O traçado de planos e verificação das suas consequências que não podem ser todas conhecidas senão pela prática é muito importante para atingirmos a meta de libertação dos animais de uma forma gradual e tão natural quanto possa ser. A persistência neste propósito será também de suma importância, pois virá reação dos que possuem grandes interesses econômicos em manter os animais como escravos.

Um abraço, querido! Muito sucesso!

carol

fevereiro 3 2011 Responder

olá! :]

gostei do texto e do tema, principalmente na possibilidade de solução da questão.

ficaram algumas “?”: como seria a alimentação sintética?! entendo que, como sendo industrializada, seria necessária uma gestão voltada para produção de alimentos saudáveis – que sabemos que não ocorre… além da geração de resíduos e toda gestão ambiental envolvida no processo.

solto uma provocação: haveria um novo tráfico?! um tráfico de carne?!

aí pessoal! vamos levar essa discussão adiante!

abraços. :)

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