24

fev11

O fiasco dos medicamentos contra doenças crônicas: algo está errado nas pesquisas

O artigo de Marcelo Leite na Folha.com indiretamente nos convida à reflexão sobre a eficácia das pesquisas de medicamentos contra cânceres e outras doenças crônicas. Basta postar aqui o trecho inicial para termos uma ideia de como o atual modelo de pesquisa vem sendo um fracasso na prática.

Sem remédio

Se você tem risco elevado de desenvolver câncer ou doença cardíaca, não conte demais com a tecnologia do futuro, ao menos do futuro à vista, para aliviar seu padecimento. Os medicamentos para essas enfermidades têm as piores taxas de sobrevivência no percurso entre pesquisa e aprovação oficial para venda e consumo.

O dado desanimador consta de levantamento da Organização da Indústria de Biotecnologia (BIO, na abreviação em inglês). Foram considerados 4.275 medicamentos em qualquer fase do processo de licenciamento no período 2003-2011.

Estudos clínicos de segurança e eficácia de novas drogas passam por três fases de testes, com exigências científicas e estatísticas crescentes (como número de pacientes participantes). Depois, elas são submetidas à aprovação final de órgãos reguladores como a poderosa FDA (agência de fármacos e alimentos dos Estados Unidos).

A área de oncologia (câncer) apresentou os piores índices de sucesso. Apenas 4,7% dos novos remédios que entram em testes terminam aprovados pela FDA para uso humano. Em seguida vêm as doenças cardiovasculares, com 5,7%.

Neste segundo caso, os reguladores se tornaram mais exigentes. Demandam, hoje em dia, provas de que o remédio faz bem para o próprio coração, não se limitando a reduzir um fator de risco (como o colesterol).

As áreas que se saem melhor, na corrida de fundo entre a fase 1 e a licença da FDA, são as mais convencionais: doenças infectocontagiosas, com medicamentos contra hepatite e HIV, por exemplo (taxa de sucesso de 12%), males do sistema endócrino, como diabetes (10,4%), e doenças autoimunes, como artrite reumatoide (9,4%).

A farmacologia tradicional está em crise. O índice geral de sobrevivência de remédios experimentais caiu de 1 a cada 5 ou 6 candidatos para 1 em 10. Aparentemente, as autoridades têm preferido perfilar-se mais para o lado da cautela, depois de alguns casos rumorosos. Entre eles, o do popular anti-inflamatório Vioxx, retirado do mercado em 2004 depois de constatar-se aumento de risco para problemas cardíacos com seu uso.

Isso nos leva a uma conclusão: há algo de muito errado no atual modelo de pesquisa, leia-se a aqui tão criticada vivissecção.

O que não falta nos noticiários sobre ciência são experiências de medicamentos que funcionaram em camundongos e ratos – a saber, depois de muita tentativa-e-erro que causou sofrimento e morte dolorosa em muitos desses animais. Contra isso, vemos de repente uma constatação de que apenas uma pequena fração desses remédios é autorizada para comercialização e consumo.

Ou seja, estamos diante de um modelo – o “modelo animal” – falho, com margem de erro muito alta. São milhões de vidas não humanas destruídas em vão nos laboratórios, mais as incontáveis mortes e acessos de sofrimento de seres humanos tratados com remédios ineficazes e/ou dotados de pesados efeitos colaterais. A vivissecção só não se tornou obsoleta porque ainda hoje é praticamente o único modelo vigente na ciência biomédica. Será aposentada tão logo apareça um modelo melhor e ético.

Isso reafirma a minha certeza de que a Biomedicina hoje está na Idade da Pedra – ou, mais adequadamente, numa Idade Média de certo obscurantismo e estagnação tecnológica.

Apesar disso, a comunidade científica parece não discutir como criar ou descobrir meios mais eficientes de pesquisa em organismos. Pelo contrário, continua incentivando a estagnação e o atraso da ciência biológica em conferências e campanhas. Preferem acomodar-se numa metodologia que, visto acima, não consegue emplacar mais de 90% dos medicamentos que testa. Falta qualquer disposição de buscar métodos de pesquisa melhores, prefere-se dizer que é “impossível” isso, quando na verdade é apenas um mistério a ser desvendado como desafio.

A ciência biomédica atual se mostra descomprometida com a vida, desde a não-humana vítima de torturas em laboratórios até a humana vítima de remédios ruins, muito embora tenha como missão declarada salvar vidas (humanas). Se fosse tão comprometida nessa salvação, por que não aceita a construção de uma era pós-vivissecção, de métodos mais eficazes que nos levem a remédios melhores, como um desafio a ser vencido, ainda que só a longo prazo, em vez de julgá-la “impossível”?

imagrs

1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo