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fev11

Ministro da Ciência e Tecnologia defende exploração de animais pela ciência

Ministro Mercadante destaca cuidados no uso de animais em pesquisas

O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, abriu ontem (23), em Brasília, a 11ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (Concea). Ele ressaltou a importância do uso de animais no desenvolvimento de novos fármacos e procedimentos para o avanço da pesquisa e da ciência.

De acordo com Mercadante, o Concea é um avanço no ponto de vista da ciência e da cidadania por expressar o desejo da população que espera procedimentos cuidadosos em relação ao uso de animais, principalmente para pesquisas da área da medicina.

“O Conselho é mais um mecanismo instituído pelo parlamento brasileiro para definir padrões, princípios e regras que orientem a atividade de pesquisa no Brasil. Aqui temos um desafio ainda maior, pois o povo tem grande sensibilidade em relação aos animais [, tanta que grande parte das pessoas zomba d@s veg(etari)an@s e não deixa de comer sua carne de todo dia, frequentar rodeios e vaquejadas e aprisionar pássaros em gaiolas], disse.

O Concea é a instância colegiada multidisciplinar de caráter normativo, consultivo, deliberativo e recursal, instalada em dezembro de 2009 para coordenar os procedimentos de uso de animais em ensino e pesquisa científica. Entre suas competências, está a formulação de normas relativas à utilização humanitária de animais, bem como estabelecer procedimentos para instalação e funcionamento de centros de criação, de biotérios e de laboratórios de experimentação animal.

O Conselho é responsável também pelo credenciamento das instituições que desenvolvam atividades nesta área, além de administrar o cadastro de protocolos experimentais ou pedagógicos aplicáveis aos procedimentos de ensino e projetos de pesquisa científica realizada ou em andamento no País.

No encontro desta quarta-feira foram debatidos alguns processos de infração administrativa cometidos por universidades, os critérios de funcionamento de biotérios e do Cadastro das Instituições de Uso Científico de Animais (Ciuca).

Além do coordenador do Concea, Renato Cordeiro, participaram das discussões representantes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Sociedade Protetoras dos Animais [WSPA?] e dos ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), do Meio Ambiente (MMA), da Saúde (MS) e da Educação (MEC).

A defesa do atraso na ciência biomédica está em alta. Além da reunião da Associação Estadunidense para o Avanço da Ciência, o nosso ministro de Ciência e Tecnologia segue a mesma linha de tornar perpétuo e insubstituível o uso da vivissecção, mesmo ela infligindo dor, sofrimento e morte para milhares ou milhões de seres sencientes todos os anos e tendo uma alta chance de aprovar remédios inadequados e fracassar em seu objetivo de lançar medicamentos seguros.

Como qualquer outro discurso pró-vivissecção, podemos ver muitas contradições no discurso de Mercadante. Segundo ele, a população espera “procedimentos cuidadosos” na exploração de cobaias, mas isso não anula o fato de que a vivissecção tem como parte de seus preceitos fundamentais aprisionar animais – que precisam estar sob controle para serem bons “objetos” de pesquisa -, causar sofrimento – o qual é até interessante ao pesquisador/a em alguns momentos – e tirar vidas – já que os corpos dos animais, em grande parte das experiências, precisam ser dissecados para se observar os resultados da pesquisa-tortura. Da mesma forma que a escravidão humana não pode existir sem que seres humanos sejam tratados como propriedade e forçados ao trabalho, a experimentação animal não funciona sem haver exploração.

Outro ponto no mínimo polêmico é a “grande sensibilidade” do povo brasileiro em relação aos animais não humanos. Isso é algo que deve ser muito relativizado e nunca generalizado. Mesmo que a maioria das pessoas não suporte ver cães e gatos sendo agredidos nas ruas e não aprove o comércio de animais silvestres, é notável a quantidade de pessoas que continuam comprando aves capturadas do habitat selvagem e recorrem vez ou outra ao envenenamento de animais domésticos que “perturbam” o sossego.

Além do mais, essa “sensibilidade” nunca, nunca foi grande. Ela exclui os animais “de produção”, os bovinos e cavalos explorados em pseudoesportes (rodeios e vaquejadas) e as próprias cobaias prisioneiras dos biotérios. D@s onívor@s, ninguém em sua “sensibilidade” deixa de comer carne e ovos e consumir laticínios e outros derivados de origem animal, pouc@s boicotam rodeios e vaquejadas e muit@s continuam defendendo a exploração de animais em laboratórios – uma vez que não sabem que ali dentro há muita privação, tortura e sofrimento e considerando-se também que o próprio governo, vide Mercadante e o MCT, esconde essa realidade da população.

Sem falar no tradicional (ab)uso da palavra “humanitári@” em atividades de exploração animal, ao melhor estilo falácia de Humpty Dumpty*. Originalmente denominado (pelo dicionário Aurélio) “Que ama os seus semelhantes; bondoso, benfeitor, humano”, o termo é distorcido de modo a dar a atos de exploração violenta uma roupagem “ética”. Mas quem (re)conhece a violência da vivissecção sabe que não há absolutamente nada de “amor aos semelhantes”, “bondoso”, “benfeitor” e “humano” nos laboratórios e biotérios, que precisam aprisionar, torturar e matar cobaias para que suas pesquisas tenham uma conclusão.

Reitero a necessidade de haver uma mobilização antivivissecção no Brasil, algo que hoje na prática ou não existe ou é muito fraco e mal divulgado. Só isso vai mostrar que parte importante d@s brasileir@s não aceita os argumentos contraditórios de quem defende a perpetuação e a não substituição da experimentação animal.

 

*Humpty Dumpty, o homem-ovo, disse, no livo Alice através do espelho, que certa palavra significava o que ele quisesse que ela significasse (a palavra “glória” para ele significa “um argumento nocauteador”). Tal falácia é frequentemente usada por entidades e pessoas interessadas em alienar a população, manipulando o significado de certas expressões de impacto.

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