24

fev11

Religião como ferramenta de opressão

Evangélicos resistem à Frente LGBT

A batalha pelo voto entre evangélicos e não evangélicos, que ganhou força nas eleições de outubro, vai se repetir, agora, no plenário da Assembleia Legislativa. Os parlamentares ligados às igrejas protestantes prometem derrubar todas as bandeiras levantadas pela Frente pela Cidadania LGBT (lésbicas, gays e transgêneros) cujo funcionamento foi oficializado ontem.

Daniel Coelho (PV), líder da Frente, prefere ´não crer` que haverá contraposições de debates, principalmente nas questões que envolvam homofobia. ´Quando você debate as questões homofóbicas você também debate a família, porque os homossexuais podem constituir família. Então eu não vejo o porquê desse antagonismo que apresentaram`, salientou Coelho, referindo-se à resistência à formação da Frente demonstrada pelo deputado do PSC, Cleiton Collins, pastor evangélico e recordista de votos nas urnas em outubro.

Coelho ressaltou que é importante levantar ´essa bandeira` para que não se repitam casos comoo de duas jovens lésbicas agredidas na terça-feira porque se beijavam em uma festa em Natal. ´Da mesma forma que há delegacia para a mulher e para a criança, queremos uma delegacia para tratar de crimes e agressões homofóbicas`, defendeu o parlamentar. O tema será um dos primeiros a serem debatidos na Frente.

A oficialização da Frente pela Cidadania LGBT sofreu forte resistência da bancada evangélica, composta por cinco deputados. Já está marcado para hoje a primeira reunião da Frente da Família como uma espécie de resistência à Frente LGBT. ´A Frente da Família é um contraponto à LGBT`, disse Collins, que vai liderar o grupo. O parlamentar promete questionar as proposições que, ao ver da bancada evangélica, sejam ´contra a família`, como a união entre homossexuais. O parlamentar lembrou que fará isso pois ´tem compromisso com os eleitores`, principalmente os evangélicos.

O presbítero Adalto (PSB), também evangélico – o segundo lugar nas urnas em outubro – fez promessa semelhante. ´Certamente haverá conflito. Toda vez que alguém subir à tribuna para levantar a bandeira do homossexualismo [sic] nós vamos defender a família`, disse. O presbítero disse que ´não vê com bons olhos` a discussão das questões homossexuais de maneira separada. ´Elas poderiam ser discutidas dentro da Comissão de Cidadania. Não há necessidade de um tratamento especial para o tema.`

O cientista político Robinson Cavalcanti vê como normal o ´barulho` que o tema provocou. ´Por séculos, concebeu-se a família como a união do homem com a mulher. As reivindicações homossexuais são recentes e o que vimos na Assembleia é um eco dos conflitos que elas causaram na sociedade`, argumentou. O também cientista político Túlio Velho Barreto acrescentou que o debate resulta da exigência dos eleitores evangélicos. ´É legítimo que o deputado defenda os interesses da sua base eleitoral, seja evangélica ou homossexual`. Mas Barreto acredita que isso não deve ´ultrapassar a discussão de direitos`, sem invadir questões morais que fugiriam à perspectiva da atuação parlamentar.

Esse é o típico caso em que a religião abandona qualquer proposta de edificação espiritual e se dedica à opressão de quem não segue seus dogmas. O Deus cristão pregado pela bancada evangélica em questão deixa de ser aquela entidade portadora do “bem absoluto” e passa a fazer o mal a minorias como a LGBT, proibindo esta de exercer sua afetividade, sua orientação sexual.

Além de opressiva, a ideologia de ódio, discriminação e opressão dessa bancada é completamente antilaica, já que pretende transformar em decisão política dogmas meramente religiosos – a de que Deus teria feito homens e mulheres essencialmente heterossexuais e proibido relações amorosas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo -, fazendo as leis regidas pelo Estado exercerem uma proibição com motivação unicamente religiosa.

Faço alguns questionamentos a esses religiosos que pretendem vedar os direitos de muitas pessoas e proibir-lhes o ato de amar seus/suas semelhantes:

– Por que Deus tem a necessidade de proibir relações homossexuais? Por que simplesmente não criou todos os seres humanos com a heterossexualidade inata? Por que cria seres humanos suscetíveis, para não dizer predestinados biologicamente, à homo ou biafetividade?

– Se a homoafetividade é um exercício de amor dirigido entre indivíduos do mesmo sexo, por que Deus há de proibir o exercício do amor para alguns?

– Em relação a travestir e transsexuais, por que Deus deixou uma brecha em sua criação que modo que há a possibilidade de alguns indivíduos nascerem com deficiência de produção do hormônio sexual (estrógeno para mulheres e testosterona para homens) correspondente ao seu sexo? É isso que tantas vezes leva ao modo de vida travesti e às cirurgias de mudança de sexo.

– Se Deus considera o culto de outras divindades tão abominável quanto a homossexualidade, por que vocês não levam essa proibição tão ao pé da letra quanto a proibição homofóbica? Por que não seguem a ordem de Deus e lutam politicamente contra outras religiões da mesma forma que lutam contra a homoafetividade alheia?

– Por que vocês consideram seu conceito de família algo absoluto, o único verdadeiro? O que acham do antigo sistema familial do Brasil colonial e imperial – quando a família predominante d@s brasileir@s livres era um conjunto de filh@s, prim@s, pais, mães, ti@s e até avós e net@s vivendo em um único lar, tendo como chefe um patriarca? O que acham das novas famílias, com mães ou pais solteir@s ou divorciad@s? Se conhecem modelos de família de outros povos e culturas à parte das sociedades modernas ocidentais, o que acham deles? Por que vocês não implicam tanto com esses novos e antigos modelos familiais mas querem a todo custo impedir unicamente o surgimento da família dotada de dois pais ou duas mães?

– Por que acreditam que podem manter o sistema brasileiro de valores socioculturais estacionado, algo que a grosso modo não funciona nem em sociedades tradicionais pré-modernas?

– O que achariam se começássemos a eleger deputad@s pagã/o/s, ateus e candomblecistas que quisessem legalizar novos conceitos de família e afetividade? Usariam o cristianismo como motivo para rechaçar valores característicos de outras crenças (ou do secularismo)?

– Por que ofender um/a cristã/o em função de sua crença é mais intolerável do que ofender um gay, uma lésbica ou um/a travesti? Qual a diferença moral entre os dois tipos de ofensa (fora o fato de uma ter cunho religioso e a outra, cunho sexual)?

– Vocês dariam até a vida pela causa se fosse para lutar por direitos d@s cristã/o/s se o Brasil fosse uma teocracia islâmica ou judaica – em outras palavras, libertar a cristandade de uma opressão que castiga quem não segue a religião oficial. Por que, por outro lado, não se importam em exercer o papel de opressores, de impositores de uma religião, contra quem não segue o cristianismo evangélico de vocês?

– Vocês hoje discursam abertamente muito menos contra outras religiões do que há 50 anos. Tiveram que mudar seus discursos depois que a liberdade religiosa passou a ser protegida pelo Estado e a intolerância contra outras crenças passou a ser crime. Por que então não aceitam mudança similar de discurso em relação à futura proteção estatal à liberdade sexual?

– Se o cristianismo é a celebração do amor de Deus Pai-Filho-Espírito Santo a todas as suas criaturas, por que não dedica o mesmo amor à liberdade sexual? Ou será que vosso conceito de “amor” aceita flexivelmente o ódio contra LGBTs?

imagrs

7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Daniel

outubro 14 2013 Responder

Hello, bom não tenho nem muito a falar do tema, até porque os maiores interessados são os religiosos e os homossexuais, e não sou nenhum dos dois hehe.
Bom mas como acredito no humanismo e na igualdade de direitos, acho que é um absurdo que um grupo tente se sobrepor a outros, e isso vale para cristãos e homossexuais, a questão é muito mais espinhosa do que parece, vão para o inferno ambos os grupos!
Já fui drogado, sou tatuado, sou cabeludo e posso sofrer preconceitos por isso, mas nunca vi uma maldita lei que me protegesse contra isso, mas vai ter uma contra a homofobia, os religiosos vão no mesmo caminho crucificando todos que se opo?m as suas belas concepções do divino!
Ambos os grupos dividem a sociedade, tal como ”entedidos” ”cristãos e seculares” ”nós e os outros” foda se tudo isso!

    Robson Fernando de Souza

    outubro 14 2013 Responder

    Você realmente leu as propostas de lei e os discursos dxs LGBTs pra ter chegado a essa conclusão?

Rejane

janeiro 30 2012 Responder

Excelente texto! Está mais do que na hora de aprovarem leis que realmente punam atos e/ou discursos discriminatórios que desrespeitem a dignidade humana. TODOS, sem exceção, merecem respeito e reconhecimento.
E só pra lembrar: O Brasil é laico (ao menos teoricamente)então…

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 30 2012 Responder

    Valeu Rejane =)

Narcisio

março 4 2011 Responder

Segundo a bíblia, Deus não criou gays, lésbicas , e nem uma espeçe de bandido .Deus criou o homem , segundo a sua imagem e semelhança, e depois fez a mulher para formar um casal,gênesis 1;26. portanto o homem deveria ter o careter de Deus. A desobediência (o pecado) afastou o homem de Deus!,por isso em romanos1;24 em diante, fala que Deus entregou os seres humanos aos desejos do coração deles para fazerem coisas sujas e terem relações vergonhosas uns com os outros. Eles trocam a verdade sobre Deus pela mentira e adoram e servem as coisas que Deus criou, em vez de adorarem e servirem o próprio Criador, que deve ser louvado para sempre. Amém! Por favor! leia ate o verso 32.

    Robson Fernando

    março 4 2011 Responder

    Considerando que a homoafetividade é biológica, passando muito longe de ser uma mera escolha, deus criou sim os homossexuais.
    E mais: em que você se inspira pra chamar o amor entre pessoas do mesmo sexo de “coisa suja” e “relação vergonhosa”? Considere-se sortudo por eu não ter apagado seu comentário com um aviso de preconceito, e também por o PLC 122/06 não ter sido aprovado ainda.
    E mais (2): você acaba de fortalecer minha concepção de que sua religião, o cristianismo, é uma religião machista. Pelo que você diz, a mulher serve apenas pra formar casal com o homem.

    Marcos

    junho 20 2013 Responder

    O que mais me envergonha neste povo e que citam bíblia sempre pra justificarem a sua intolerância, bom então vamos lá. Ja que você cita versículo bíblico tão bem imagino que esteja em dia com a palavra de DEUS por exemplo o maior mandamento citado por Cristo amar ao próximo como a ti mesmo( ele disse próximo não irmão de igreja, pode ser qualquer um),espero também que seja casado caso não seja deve ser virgem pois sexo fora do casamento e pecado, se for casado imagino que não deve nem olhar para outra mulher pq também e pecado. Bom são vários mas vou finalizar com as bem aventuranças espero que seja um pacificador pois eles são bem aventurados. Querido o julgamento de DEUS e sobre o que você faz não sobre o que você acha que a pessoas estão fazendo. Abraços e fique em paz

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo