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O casal de vegetarianos fanáticos e a desinformação sensacionalista da mídia contra o veganismo

O caso de Sergine e Joël Le Moaligou, casal de veganos (aliás, vegetarianos completos, pois não se sabe se boicotam produtos não-alimentícios com ingredientes animais e/ou testados em cobaias) franceses presos por terem alimentado mal sua filha bebê Louise, lhe negado assistência médica e assim lhe causado a morte, está repercutindo na mídia lusófona e causando um alvoroço, quase um pânico, em muitos que leem a notícia – na maioria dos noticiários online brasileiros, restringe-se à cópia do divulgado pela BBC, com pouco ou nenhum acréscimo ou alteração.

O que se viu em todos esses sites foi um show de desinformação, preconceito, tendenciosidade e até sensacionalismo terrorista (caso de um portal português), quase sempre ligando o veg(etari)anismo dos pais à morte da filha e a potenciais problemas de subnutrição. Uma legítima demonstração de que a imprensa não está pronta para encarar positiva ou imparcialmente o crescimento do veganismo – isso quando não está mal-intencionada, a desejar de fato a difamação do vegetarianismo em prol de certos setores econômicos que produzem e comercializam carne, laticínios, ovos e derivados.

Mesmo na BBC, que erroneamente repete o mito de que os vegetarianos “mais comuns” “não consomem apenas carne vermelha (sic)” – com o mesmo amadorismo que faz errar na concordância e chamar os veganos de “os vegan (sic)” –, podemos verificar vários indícios de que o erro de Sergine e Joël não foi intrínseco ao vegetarianismo completo – errônea mas frequentemente confundido com o veganismo –, mas por uma série de erros vindos de um casal que esnoba as ciências médicas e nutricionais e passa longe de um vegetarianismo completo consciente:

– Louise, a criança vítima do despreparo e do desleixo anticientífico dos pais, só se alimentava de leite materno, mesmo com onze meses de idade. Órgãos como a Organização Pan-Americana da Saúde e a American Dietetic Association recomendam que a amamentação seja acompanhada de alimentos complementares a partir dos seis meses, e que isso não seja negligenciado.
– Verificou-se na autópsia da bebê que as vitaminas A e B12 escasseavam no seu organismo, o que é interpretável, numa análise séria, como uma soma da consequência da não complementação da amamentação e da provável nutrição abaixo da adequada que a mãe dava a si própria – o que pode ter como evidência o leite materno hipossuficiente. Mesmo que a causa maior da subnutrição seja a subnutrição materna – e esta seja confirmada -, deve-se esclarecer que a alimentação vegetariana-completa conscientemente planejada recomenda um planejamento competente, geralmente com a assistência de uma nutricionista, de modo a visar todas as vitaminas e minerais. Esse planejamento incluirá fontes de beta-caroteno – a fonte vegetal daquilo que se tornará a vitamina A – e suplementação de vitamina B12 por comprimido diário ou semanal ou por dose injetável semestral ou anual.
– A bebê sofria de pneumonia. A notícia não deixa claro se foi a subnutrição ou a pneumonia a causa verdadeira da morte dela. E era uma pneumonia não tratada. A negligência em relação ao tratamento medicinal de doenças nada tem a ver com o veganismo, que, longe de conceitualmente rejeitar a medicina alopática, se restringe ao não-consumo na medida do possível* de produtos, alimentares ou não, com ingredientes de origem animal ou fabricados por empresas que testam em animais.
– A própria notícia da BBC afirma (grifos meus):
“O casal não confiava na medicina tradicional e preferia tratar suas filhas com base em informações pesquisadas em livros, ele afirmou. “Quando ele tinha nove meses e sofria de bronquite e perda de peso, eles não seguiram o conselho do médico, que havia solicitado a hospitalização do bebê; preferiram utilizar receitas à base de cataplasma de argila e de repolho que viram em livros“, disse [a advogada Stéphane] Daquo.
Segundo o jornal Courrier Picard, da região de Amiens, o bebê também não tomava banhos normais e era lavado com terra e argila.”
Isso não é relacionado de forma nenhuma com o veganismo. E sim com crenças em ramos pseudocientíficos da chamada “medicina alternativa”.

Além disso, era patente o fanatismo do casal, ao terem decidido retirar a filha mais velha da escola e educá-la domiciliarmente depois que lhe foi oferecido um patê de carne na merenda. Pais veganos mais sensatos optariam por reivindicar da escola uma refeição diferenciada, vegetariana, ou, em último caso, processá-la por não respeitar a convicção ética da garota. E não privá-la da educação escolar e da socialização infanto-juvenil que só uma instituição educacional pode proporcionar. Mais um aspecto do fato que não tem a ver com a essência do veganismo, mas sim com fanatismo e crenças deturpadas.

Apesar de tudo isso, por desinformação preconceituosa e possível má fé, a notícia, tal como reproduzida (copiada) por grande parte da mídia brasileira e portuguesa, visou apontar o “veganismo” – na verdade o vegetarianismo completo confundido – como o grande vilão da história, o culpado pela situação de desnutrição de Louise, um “regime” alimentar desviado, nada recomendável para crianças. Ou seja, para a mídia, o erro está na alimentação sem derivados de origem animal, não nas deturpadas e crédulas crenças pseudo e anticientíficas dos pais, eles próprios desprovidos de uma alimentação nutricionalmente consciente e esclarecida.

E um ponto bastante questionável, que acaba soando aos leitores como mais um acusativo sério ao veganismo, deve ser observado: a vice-procuradora de Amiens afirma que “o problema da carência de vitaminas pode estar ligado ao regime alimentar imposto pela mãe”. E todos os noticiários descrevem o acontecido dando a aparentar contraditoriamente que a bebê também se alimentava do que veganos crescidos comem e bebem.

Mas deve se questionar: onde está a imposição de um regime alimentar quando Louise apenas mamava? Isso tem mais cara de omissão do que imposição, visto que nem os próprios vegetais comidos pelos vegetarianos eram oferecidos à criança. Ou no máximo uma imposição negativa – impor ao bebê que ele não vai comer nada em complemento, só vai mamar. E privar um bebê do leite materno de sua própria mãe ou só alimentá-la em idade avançada com esse leite (que foi o que aconteceu) não encontra nenhuma base na metodologia vegana, visto que nenhuma das duas ações poupa animais de exploração, sofrimento e morte.

Não quero defender a mãe que, apesar de vegetariana completa, é subnutrida, desorientada nutricionalmente. Mas, olhando direitinho, a verdadeira imposição era da sociedade, que queria porque queria que Sergine comesse carne e consumisse laticínios e ovos, que não tolera que uma lactante permaneça vegetariana completa, que preconceituosamente enxerga no vegetarianismo estrito uma ameaça à saúde das pessoas, sejam elas bebês, crianças, jovens, adultas, idosas, gestantes ou lactantes.

Com tamanho sensacionalismo desinformativo, às vezes beirando o terrorismo, diversos leitores acabaram contagiados por uma paranoia antivegana. Reafirmavam suas crenças míticas de que “a carne é indispensável” ou que “deve-se optar pelo equilíbrio (leia-se onivorismo), jamais pela radicalização (leia-se vegetarianismo completo)”. A Folha.com e o Terra Notícias são os maiores exemplos de como o leitorado se atordoou e se preocupou com a “ameaça vegana”. Ali, comentários pró-veganismo receberam múltiplas avaliações negativas, e os preocupados comentaristas pró-onivorismo tiveram seus dizeres bastante avaliados positivamente.

O veganismo é um fenômeno relativamente novo e excêntrico, e a mídia, conforme se viu no caso acima, não está preparada para descrevê-lo imparcialmente, de forma conscientizadora. Nenhum meio online da imprensa mainstream se preocupou em explicar o que é de verdade o veganismo, o que os veganos pensam e como se comportam, muito menos em desvendar competentemente as causas da morte da filha de Sergine e Joël. Todos os veículos consultados demonstraram amadorismo, despreparo, descompromisso com o profissionalismo jornalístico. Incidiram numa notável falta de respeito aos leitores veganos conscientes, os quais pensam diametralmente diferente do fanatismo e da crendice pseudocientífica do casal processado.

É com “coberturas” copia-e-cola amadoras e desengonçadas, se não realmente mal-intencionadas, como a do caso Louise que movimentos sociais e ideologias são seriamente difamados e crucificados perante aquilo que se convenciona como sendo a opinião pública. E quem gosta disso são setores políticos e econômicos que lucram com a opressão, a exploração animal humana e não-humana e a negação explícita de direitos e se beneficiam com a ignorância da população, tão mal-informada por esse jornalismo trapalhão.

 

*Por mais que condene a forma como os medicamentos são desenvolvidos, o vegano fatalmente irá precisar de medicação em algum momento de sua vida. E itens triviais como papel fotográfico e pneus de ônibus podem conter algo de origem animal – respectivamente gelatina bovina e ácido esteárico animal. Por isso não existe um veganismo 100%. O vegano o é quando boicota tudo o que lhe é possível de boicotar – o que inclui no mínimo quaisquer alimentos de origem animal.

imagrs

19 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fabiana

julho 11 2015 Responder

Não como carne há 14 anos (10 vegetariana + 4 vegana).
Em primeiro lugar, RESPEITO. Essa palavrinha tão simples tem um poder de unir as pessoas por mais diferentes que elas sejam.
Sobre o texto: quando vi essa reportagem, antiga por sinal, caí na besteira de acreditar. Lembro que quando li eu ainda não era vegana… um absurdo como gostam de manipular as informações, quem escreveu o texto original não estuda muito bem quanto deveria e abrir sua mente para preconceitos e ser profissional. Enfim…
Sobre os comentários: Gabi, não generaliza os veganos em pessoas que só pensam nos animais. Quando você deixa de comer carne você passa por diversos processos (que a psicologia poderia muito bem identificar com nomes técnicos). Em uma dessas fases você quer que outras pessoas façam isso também, é a empolgação. Fiz isso um dia, hoje não prego veganismo, e sim o amor. O amor leva para o caminho certo. Gabi, você não pode julgar que acha melhor que os veganos façam isso pelas crianças como se veganos não se importassem com humanos. Se eu pudesse, mesmo, eu pegava toda comida que sobra no mundo e redirecionava para as pessoas com fome. E eu faço o que eu posso, em relação aos animais, com relação as pessoas que precisam de alguma comida ou roupa…não por que sou vegana, mas por que gostaria de ver um mundo melhor.

Estou cansada de ler tantas discussões e ofensas na internet…

andre

setembro 9 2014 Responder

Belo artigo. Estou comendo um bife bovino em sua homenagem.

ELIAS

março 27 2012 Responder

Acho que comer carne ou tem a ver com religião ou com os seres primatas, na bíblia por exemplo narra que as pessoas sacrificavam animais para que deus perdoasse s pecados delas, deus aceitou a oferta de Abel que era animal já do irmão de Abel que era futas ele não aceitou
se alguém querer ver o vídeo no youtube,http://www.youtube.com/watch?v=GSQ1PusSv5M&feature=g-upl&context=G20ff579AUAAAAAAABAA
minha opinião é que as pessoas estão iseridas nessa cultura de se alimentar de animais que elas acham super normal, dessa forma nós vegetarianos somos os loucos os fanaticos ao ver delas
toda regra tem exeção

Sérgio Henrique

abril 6 2011 Responder

Todo movimento de luta por direitos sofre grande resistência por parte daqueles que representam o status quo. E, no caso do veganismo, o status quo deve ser 99% da sociedade. Mesmo movimentos sociais mais consolidados e com maior representação, como o feminismo, são frequentemente ridicularizados na mídia. Por exemplo, feministas (segundo a mídia, são sempre mulheres) são retratadas como “mulheres que querem ser homens”, induzindo o público a aceitar que o correto é a sociedade patriarcal e o resto é “fanatismo”… e quando faz reportagens sobre mulheres em empregos tradicionalmente de homens, faz questão de enfatizar que elas “ainda passam batom” e “cuidam da aparência”. Acho que os comentários postados aqui são bem emblemáticos nesse sentido, ao classificar o veganismo como “frescura” ou “alfacismo”. Mas essa visão preconceituosa existe em todos os movimentos de emancipação social, seja na luta contra a homofobia, contra o racismo, contra exploração de crianças, etc. Nesse sentido, os veganos ainda têm muito chão pela frente.

Lucas Gonçalves Bernardino

abril 4 2011 Responder

Desculpem-me pelo erros ortrográficos.

Lucas Gonçalves Bernardino

abril 4 2011 Responder

Minha opnião é a segunte:
Primeiro, ”Parabéns, Gabi!”
Foste muito feliz em teus argumentos, posicionando a favor da verdade, independente de lado, política, imprensa/mídia, crenças, gostos, fundamentos etc. Segundo, essa é a índole profissional de muitos jornalistas (Que merece respeito, sim! Mas, deixam à desejar quando estes usam a mídia não para informar (a quem interessar) e sim, para vender matéra.
E, só para constar sou vegetariano.

Gabi

abril 3 2011 Responder

Eu amo carne, e sou contra o vegetarianismo / veganismo. Considero isso pura “frescura”… Conheço muitos vegetarianos / veganos legais, mas também conheço muitos outros que se comportam como crentes evangélicos, e isso me irrita muito e faz com que a minha opinião sobre esse pessoal piore. Principalmente quando escuto ladainhas sem fundamento. Acho que cada um deve ficar “na sua” e não ficar tentando convencer insistentemente as pessoas a deixar de fazer o que gostam (neste caso, comer carne).
Pouco me importa se os animais sofrem ou não! Preocupo-me com as pessoas, e acho que se os vegetarianos e veganos trabalhassem em prol das crianças carentes com o mesmo fervor que trabalham em prol dos animais, seria admirável. Acredito que deveriam utilizar sua imensa bondade a favor das crianças. Fiz estas resumidas declarações apenas para deixar bem claro que NÃO sou vegetariana ou vegana, portanto, não vou me prolongar no assunto.
Robson, adorei o teu texto e acredito que as outras matérias tenham sido escritas com total preconceito e sem nenhum conhecimento por parte dos “jornalistas”. Na verdade, é provável que tenham agido de má fé, pois não é possível que um jornalista escreva sobre qualquer assunto sem se informar a respeito. Dizer que vegetarianos deixam de comer apenas carne vermelha, foi total falta de respeito com todas as pessoas, tendo em vista que considero qualquer informação incorreta um desrespeito aos leitores. Na minha opinião, foi a pior “gafe” cometida pelo escritor da matéria tendo em vista que isso já está mais do que claro para quem tem o mínimo de interesse sobre o assunto. Sem contar o restante da matéria, que fala explicitamente de uma maneira anti-vegetariana, sem nenhum argumento convincente. A maneira que a criança era criada é absurda, e o “veganismo” dos pais não merecia destaque neste caso. Eles deveriam focar no fanatismo e na irresponsabilidade dos pais, pois qualquer tipo de fanatismo é prejudicial.
Não estou defendendo o “povo anti-carne”, estou defendendo a verdade, que deve ser dita, doa a quem doer.

    Robson Fernando de Souza

    abril 5 2011 Responder

    Ok que você tenha concordado com o post, mas da próxima vez dispense anexar discursos desrespeitosos contra vegetarianos (dizer que é “frescura”, vir com o discurso das “crianças carentes” etc.). Isso foi totalmente dispensável.

    Se você quer argumentar contra o vegetarianismo, faça-o com respeito, que aí um debate saudável se abre.

      Jonas

      março 10 2012 Responder

      Eu concordo sim com a Gabi, Robson.Nao diga para ela nao tocar no assunto de crianças carentes nao. É verdade sim, em vez de escreverem um site tentando incutir na cabeça das pessoas que é um crime matar animaizinhos,que se gasta mais para alimentar um animal do que uma pessoa, enfim, aquela ladainha toda que todos vocês sempre falam, dê sugestões de como podemos diminuir a fome no mundo. Comer carne, de qualquer tipo, é uma forma não absurdamente cara e muito nutritiva de alimentar as pessoas. Vi um programa na TV em que uma vegana perguntou ao cozinheiro se ela podia ver a composição da massa no rótulo, porque poderia ter um componente provindo de uma fonte animal. Desculpe-me, mas isso é “ridículo”. Em outra ocasião do programa ela se recusou a tomar suco de caixinha porque tinha um corante extraído da casca de um besouro.Peraí, ficar sensibilizado com morte de besouro? Você está de bricadeira né? Isso é uma afronta à nossa inteligência. Por favor, pare com esse fanatismo e de tentar arrebanhar as outras pessoas que não têm conheimento do assunto.

        Robson Fernando de Souza

        março 10 2012 Responder

        Quando souber arguemntar com menos apelo ao ridículo, conversamos, ok?

Lucho

abril 1 2011 Responder

Tava demorando para aprecer um textinho revoltadinho de um alfacista.

Ah, mas as notícias não são para serem levadas a sério, afinal de contas foi noticiada pela Imprensa Golpista, não é mesmo?

    Robson Fernando de Souza

    abril 1 2011 Responder

    Antes de nos considerar “revoltadinhos” e confundir alfacismo (que é o antivegetarianismo polemista) com veganismo, leia a notícia, meu artigo e reflita sobre a qualidade do jornalismo que nos “informa”.

    Não importa se é uma imprensa de direita ou de esquerda, todos os veículos que reproduziram o caso, que não diz respeito a nenhuma ideologia política, agiram com sensacionalismo, desrespeito e trapalhada.

    Não é porque somos veganos que nossa reclamação sobre uma notícia malfeita sobre fanáticos presos é vazia como você deve estar pensando com esse viés antivegano.

Samory Pereira Santos

abril 1 2011 Responder

Em relação a educação doméstica: calma Robson. Na França isso é permitido e devidamente regulado, não necessariamente sendo decorrente do fanatismo deles, mas provavelmente o patê foi um “estopim”.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo