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Ilhas do estuário de Suape serviam de atração ecoturística no passado

SONÍFERA ILHA

(reportagem de 3 de janeiro de 2002)

Eles mal sabem quem é o presidente do Brasil ou Osama bin Landen: vivem nas ilhas entre o mar e o Rio Massangana, no Litoral Sul, onde a presença humana é escassa e o Sol é pradroeiro o ano todo

por BRUNO ALBERTIM

Severino da Silva, 46 anos, o Biu da Ilha de Tatuoca, tem aversão ao trânsito. Diz que cidade só presta para comprar o que o mar ou a terra não oferecem. Mas, nos finais de semana, costuma ter um certo tráfego na porta de casa. Não lhe incomoda. Morador da beira-mar dessa ilha quase deserta a poucos minutos do Pontal de Suape, ele recebe visitantes em barcos, lanchas, pequenos iates. Todos atrás do seu caldinho de aratu e da cerveja que, sem eletricidade, ele gela em caixas de isopor. A Tatuoca é o único pedaço de terra povoado entre as cinco ilhas da região. A cerca de 40 minutos de carro do Recife, pois é, está um lugar onde os poucos nativos e raros turistas se misturam para, num cenário irretocável, mostrar com quantos coqueiros se concretiza aquela história de Jorge Ben sobre morar num país tropical.

“Deus que me livre de sair daqui. Quem é doido de querer abandonar um lugar desses?”, indaga Biu, um negro de olhos orientais, filho de uma pernambucana e um imigrante chinês, dono do único bar que se pode encontrar entre essas ilhas. Chegando lá, é difícil que o mais cético dos urbanóides queira contestá-lo.

Turistas visitam a região muito escassamente há cerca de 20 anos. Mas, com a chegada do Blue Tree Park e o acréscimo do número de visitantes no Cabo de Santo Agostinho, essa fronteira interna antes quase inacessível do litoral pernambucano começou a ser desbravada com mais facilidade.

Tanto da Praia de Suape como da pequena Calhetas, há sempre barcos, a motor ou à vela, dispostos a levar os curiosos para uma conferida nas ilhas. O passeio saindo dessa última fica em torno de R$ 15. “It´s amazing” (é incrível), entusiasma-se a turista norte-americana Stephanie Vanhook, 29, que saiu de Calhetas, no barco Olinda II, para gastar cerca de 2,5 horas de suas férias numa volta às ilhas. “A natureza está mantida. É muito diferente das praias de Daytona Beach, Miami e outras praias da Flórida, onde se vê apenas hotel após hotel”, derrete-se. Em Suape, uma lancha para seis pessoas custa em torno de R$ 60. Uma hora num veleiro para duas pessoas fica por R$ 30.

Dos vários mirantes espalhados pela Vila de Nazaré, um sítio histórico vizinho a Suape, pode-se ver as ilhas. De imediato, a ilha da Cocaia, também conhecida como ilha do Francês, chama logo atenção. Inabitada, ela possui coqueiros espalhados por um pequeno monte que se engarregam de esconder a pouco convidativa visão do Porto de Suape, localizado após a ilha. Também há gente por lá. Quase nenhuma, é verdade. Apenas a população típica de uma ilha deserta, ou seja, um pescador aqui, um mergulhador ali, uma turista francesa de topless. E só.

Acreditam os pescadores que, durante a colonização, um francês teria morado por lá. “Isso é folclore do povo. Não há registro histórico”, diz o historiador Luis Alves Lacerda. “O nome da ilha, Cocaia, é uma herança do idioma tupi, significa uma espécie de enfeite que as mulheres usavam”, diz ele. Muito antes dos turistas e até mesmo dos nativos de hoje, aquelas ilhas teriam sido freqüentadas apenas pelos índios Tapuias e Caetés. “Com a chegada do donatário Duarte Coelho, com o início das capitanias hereditárias, há o primeiro grande genocídio de índios, que fogem do litoral para a região do São Francisco”, diz o professor.

A Tatuoca de Biu, vizinha à Cocaia, tem hoje cerca de 30 casas onde, apesar da proximidade com o continente, dificilmente as notícias do mundo atravessam o canal de Suape. Rádio e pouquíssimas televisões, só à bateria. “Isso aqui não mudou nada. Tem uns turistas por causa do hotel. Acho bonito vê-los passeando”, diz Maria Bernadete da Silva, a Dona Dete, uma senhora que diz não saber quem é o presidente do Brasil, não tem a mínima idéia de quem seja Osama bin Laden e não lembra sequer a idade. “Tenho uns 70. Quando preciso saber, olho no registro”, simplifica. Depois de trabalhar como cortadora de cana no Engenho Massangana, ela chegou com o marido na Tatuoca há mais de 30 anos. Ela também não desconfia, mas, como os outros moradores, deve ser uma herdeira dos antigos escravos que viveram sob a proteção de Joaquim Nabuco, na época em que o abolicionista comandou o Massagana, que também dá nome ao principal rio que banha essas ilhas.

É mais que evidente que Eduardo Campos, o DesMatador de Mangues, capitão da expansão industrialista pernambucana, é a maior ameaça que já se abateu sobre o estuário dos rios Ipojuca, Tatuoca e Massangana. Mas convém dizer que seria muito menor a probabilidade de ele ter começado a radicalizar a destruição daquele santuário ecológico se Jarbas Vasconcelos (ou qualquer outro governador de outrora) tivesse valorizado o ecoturismo pernambucano e transformado aquela área em unidade de conservação aberta ao extrativismo das comunidades locais, a pesquisas ambientais e ao ecoturismo.

Pois bem, ali é um paraíso ecoturístico que está sendo implacavelmente destruído pela “revolução” – que mais lembra um golpe militar ou uma revolução baseada em derramamento de sangue inocente. Há menos de dez anos, os jornais divulgavam os prazeres de se visitar aquele lugar, quando ainda o viam como um templo da Natureza, não como um terreno baldio sob propriedade estatal à espera de tratores, caminhões de brita, bate-estacas e tijolos. Hoje eles próprios defendem sua destruição com reportagens provavelmente compradas.

O governo de “É” Motosserra, fazendo comparações meramente quantitativas entre quanto dinheiro ganhará com as indústrias (impostos sobre suas atividades, sobre os insumos que elas comprarão, sobre suas mercadorias etc.) e quanto ganharia com o ecoturismo, sacrifica este último, considerando-o supérfluo e pouco lucrativo, e prefere as indústrias. Ignora por completo, porém, as consequências colaterais dessa arrecadação movida a fumaça e motosserra.

Continuarei defendendo a reanimação das mobilizações até a última árvore de mangue ser cortada do estuário. Porque, além de ser um ecossistema a ser defendido, são também, a longo prazo, nossas próprias vidas em jogo. Cada hectare de vegetação a menos é mais um naco  de porcentagem de probabilidade de morrermos por causa de algum problema de origem ambiental – poluição da água, do ar e do solo, catástrofes climático-meteorológicas, doenças causadas por desmatamento etc. Portanto, defendamos o direito da Natureza de existir com integridade como se estivéssemos defendendo nossas vidas.

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