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mar11

Por que a esperança cristã pela reconversão dos ateus é uma ilusão

Este artigo visa incitar os cristãos ao respeito incondicional aos ateus, embora contenha partes que podem questionar a fé religiosa de quem está lendo. Que fique claro desde já que não é um texto de ataque à fé, mas sim para defender a convicção dos ateus perante as ofensivas de quem insiste em lhes empurrar uma religião.

Muitos cristãos dizem para os ateus, mesmo quando estes são convictos, que eles “um dia vão receber uma luz divina, um milagre ou revelação que os façam voltar a acreditar em Deus”, crentes de que, mesmo constantemente firmes sua descrença, num belo dia irão deixar a razão de lado e abraçar a fé inquestionável novamente. Nada é mais ilusório do que essa esperança, por diversos motivos.

Primeiro, os ateus mais convictos e bem informados têm consciência de que o Deus do cristianismo não é a única divindade “existente”. Sabem que há ou houve centenas de religiões ao redor do planeta, somando uma estimativa entre 20 mil e 50 mil deuses e deusas, excluindo-se divindades menores – que só no hinduísmo passam dos milhões – e semideuses. Isso pode implicar que o ateu, dependendo de sua assiduidade em ler e conhecer os mitos e ritos de certas religiões, poderia ter “experiências” com Zeus, Krishna, Isis, Amaterasu, Dagda, Inti, Astarte… em vez de com Javé. É possível até que sonhe ao mesmo tempo com deidades de panteões diferentes.

Experienciar algo com o Deus cristão é apenas uma pequena probabilidade dentro de múltiplas possibilidades de encarar algum deus ou deusa. Eles assim diferem da maioria dos cristãos, que só têm conhecimento do Deus de sua própria religião e consideram outras divindades “evidentemente” falsas ou “demônios”. Assim, é provável que o ateu diga à sua avó, esperançosa de uma futura “iluminação” do seu neto, que já teve experiências com outras divindades que não a cristã.

Outro detalhe é que experiências místicas sempre serão encaradas com ceticismo pelo ateu firme. Mesmo que, por influência cultural forte do passado ou do seu meio sociocultural, sonhe com Javé lhe ditando alguma mensagem, ele o irá encarar apenas como personagem de um sonho. Caso tenha uma “revelação” de Deus mesmo acordado, irá se perguntar se está tendo alucinações por causa de seu meio sociocultural e dos resquícios psicológicos de seu passado religioso, e é mais provável que procure um psicólogo ou psiquiatra do que uma igreja. Pois tem em mente que manifestações místicas são geralmente fenômenos psíquicos, pareidolias ou mesmo histórias falsas.

Também há uma situação que, mesmo imaginária, é emblemática em frustrar as esperanças dos cristãos em ver os ateus “voltando para Deus”: se o Divino bíblico de repente aparecesse de frente ao ateu, numa real experiência sobrenatural, este iria inquiri-lo com diversas perguntas:

– Como o livro sagrado que você inspirou aqueles homens do passado a escrever é tão cheio de contradições?
– Segundo o livro sagrado que você inspirou, você próprio matou milhões de crianças e animais não-humanos no passado, e ainda incitou os hebreus a diversas guerras e genocídios. Como posso confiar em você como meu guia moral?
– Que livre-arbítrio é esse que me coage a aceitar apenas uma das opções sob pena de uma eternidade de tortura e sofrimento?
– Como você pode se dizer um deus de bem absoluto se você próprio criou, direta ou indiretamente, o mal, o inferno e a intolerância?
– Por que você considerava a mulher um mero apêndice do homem lá em Gênesis? Por que criou o homem primeiro e a mulher em segundo? Por que, depois do pecado do fruto proibido, condenou a mulher à servidão perante o homem?
– Por que, nos Dez Mandamentos, você proíbe que os homens cobicem “a mulher do próximo”, mas não que as mulheres cobicem o homem da próxima?
– Por que você nomeia a humanidade pelo seu representante masculino?
– Por que não criou a humanidade com plena igualdade entre homens e mulheres?
– Por que você não protege os outros animais, sabendo-se que bilhões são torturados e mortos pelos humanos todos os anos?
– Por que seu livro sagrado é tão antropocêntrico?
– Se você não vê a homoafetividade com bons olhos, por que você próprio criou os homossexuais, dotados desde nascença da tendência de amar alguém do mesmo sexo? Por que proíbe tal manifestação amorosa mesmo você mesmo sendo um Deus de amor?
– Por que outras religiões existem? Por que vossa existência precisa ser anunciada por pessoas falhas e muitas vezes corruptas ao invés de você mesmo se revelar a toda a humanidade e pôr fim a todas as dúvidas sobre quem é a divindade verdadeira?
– Qual a relevância de incluir entre suas leis divinas o não uso de roupas com tecidos diferentes e o formato das barbas dos homens?
– Por que existem tantas Bíblias diferentes e tantas interpretações divergentes do mesmo livro? Por que você permitiu a divisão do cristianismo em centenas de facções distintas que muitas vezes guerreiam entre si, com direito a cultivo de ódio mútuo e muito derramamento de sangue?
Entre dezenas de outras perguntas.

E um quarto motivo é que, diante da diversidade de religiões existente ao redor do mundo e também da função da religião nas sociedades, os ateus são (cons)cientes de que o deus cristão e qualquer outra divindade, enquanto deidades regentes de sociedades inteiras, são apenas artifícios de coerção moral e sociocultural e apoios psicológicos para os povos, em especial para aqueles que não conhecem tecnologias e noções filosófico-científicas avançadas.

Esses são os quatro motivos principais que tornam inviável que os ateus convictos “voltem para Deus”. Os ateus pensam diferente dos religiosos, e isso não só precisa, como deve ser respeitado. A lógica ateísta de ver o mundo é totalmente diferente da lógica crente, e tentar converter ateus fortes em sua descrença é semelhante a convencer os indígenas de que sua cultura é inferior à das sociedades modernas.

Portanto, é vão esperar que nós ateus abandonemos nossa convicção racional para nos voltarmos a uma crença teísta. Não esperem nada disso de nós. Ao invés, respeitem nossa descrença, que é irreversível e transcende os limites filosóficos da religião.

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