06

mar11

Ser professor do ensino básico público é subemprego no Brasil (Parte 2: mais comparação)

Novo piso de professor é menor que de profissionais com mesmo curso

Apesar do aumento anunciado na semana passada de 15,85%, o novo piso nacional para professores – de R$ 1.187 mensais por 40 horas semanais – é a menor remuneração inicial que profissionais formados em áreas relacionadas às disciplinas escolares podem ter. Se conseguirem trabalho fora da sala de aula, formados em letras, biologia, química e física tem perspectiva de salário inicial maior.

Nas outras áreas de formação de professores, história, geografia, matemática, sociologia, filosofia e pedagogia, o mercado de trabalho fora da escola é quase nulo para quem conclui apenas a graduação. Ainda assim, há uma opção mais rentável do que dar aulas: estudar. As bolsas de mestrado para pesquisadores com dedicação exclusiva, que vão de R$ 1.200 a R$ 1.478, para o doutorado sobem para até R$ 2,5 mil.

Biologia
No caso dos biólogos, o Conselho Federal de Biologia mantém uma tabela de “referência de honorários” que, apesar de não ser atualizada desde 2007, prevê cobrança mínima de R$ 40 por hora, ou R$ 1.600 pela mesma carga do piso nacional, para os profissionais com experiência de até três anos. Os mais experientes, receberiam R$ 150 por hora.

Química
Os químicos têm a remuneração regulamentada pela lei 4.950 de 1966, que prevê cinco salários mínimos vigentes no País, ou R$ 2.725, para quem fez uma graduação de menos de quatro anos. Quem fez bacharelado, tem direito a seis salários, R$ 3.270. A legislação vale para carga horária de seis horas por dia (30 horas de segunda a sexta).

Letras
No caso de Letras, a comparação fica prejudicada porque os profissionais que enveredam pela carreira de tradutor costumam receber por trabalho e não por mês. A lista de “valores praticados” pelo Sindicato Nacional dos Tradutores, no entanto, mostra que quem tiver trabalho a realizar, consegue uma remuneração melhor do que como professor de língua. A tradução mais barata por escrito custa R$ 26 por página. Um profissional teria que traduzir 45 páginas por mês para chegar ao piso do professor. Já uma tradução simultânea paga por um dia mais do que o piso: são R$ 1.200 nos Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul e R$ 1.300 em São Paulo e Rio de Janeiro.

Física
O profissional formado em física também tem pouco mercado de trabalho fora da sala de aula para quem fez apenas faculdade. Segundo Ivan Oliveira, pesquisador do Centro Brasileiros de Pesquisas Físicas, o profissional que faz mestrado e doutorado tem remuneração inicial de R$ 10 mil como pesquisador, mas antes disso só há duas opções, dar aulas ou ser aprovado em concursos da Petrobras. “Neste segundo caso, o salário mais baixo é de R$ 8 mil”, afirma.

E tem mais, também vindo do IG:

Outras profissões recebem o dobro

O Ministério do Trabalho também levantou o valor das contratações de profissionais de outras profissões durante 2010, conforme pedido da reportagem. A média da remuneração de engenheiros, médicos, dentistas, bancários e enfermeiros é, no mínimo, o dobro do que o professor com o maior salário inicial. O iG já havia mostrado que, se fizer carreira fora da sala de aula, o próprio professor das áreas de biologia, física, química e letras conseguem remuneração maior do que o novo piso salarial.

Da lista levantada pelo ministério, recebem menos que alguns professores apenas policiais e agentes de trânsito ou operários.

Isso se acrescenta às comparações que fiz em relação a quem tem outros empregos públicos no post anterior sobre o subemprego que é o ensino básico público no Brasil.

Eu pessoalmente não ponho fé que Dilma irá fazer uma boa política de educação básica. Se ao menos dirigir alguma atenção ao ensino básico público, será daquelas velhas políticas paliativas. Até porque ela não prometeu nenhuma reforma profunda nos atuais sistema e modelo educacionais. Esse, aliás, foi um dos vários pontos que critiquei e critico nela desde a sua campanha eleitoral.

O cenário de mobilização também é desolador no professorado do ensino público brasileiro: há muito tempo vemos que a situação  do ensino básico público é a mesma, aliás, piora gradualmente em todo o país, e nunca tive a oportunidade de apreciar nenhuma proposta de mobilização nacional unificada em prol de reformas  profundas – ou, quem sabe, clamando por uma revolução educacional nacional.

Até aqui mesmo no Arauto da Consciência o que vejo são professoræs descontentes querendo desistir de sua profissão, nunca chamar a atenção dos sindicatos docentes para a necessidade de unificar e radicalizar a luta e aprofundar as reivindicações. Tudo o que vemos são greves ocasionais focadas meramente nos salários, e quase nada mais. Não vejo nenhuma grande campanha de lutas comparáveis às lutas operárias europeias dos séculos 19 e 20, ainda que haja bastante similaridade entre a situação de exploração e privações no professorado brasileiro de hoje e a no operariado europeu de outrora. (Ok, posso estar sendo romântico nesse ponto, mas não deixa de ser um fato.)

Esta é até uma mensagem aos professoræs que depuseram no primeiro post Ser professor do ensino básico público é subemprego no Brasil: a situação não vai melhorar em nada enquanto virmos o próprio professorado repetindo aquilo que não gostariam de ver sendo corruptamente ensinado pela vida às crianças e adolescentes: o individualismo egoísta de quem pensa apenas nos próprios bolsos e bem-estar e encara uma ideal melhoria na educação apenas como forma de melhorar suas próprias condições individuais de vida. Não estou @s obrigando moralmente a permanecer a contragosto na sala de aula, mas sim clamando para que transformem suas frustrações em combustível para uma revolta coletiva que faça a diferença no final não só para o indivíduo professor, mas para toda a classe docente. O ideal seria desistir da docência apenas se o sindicato não correspondesse aos anseios d@s professoræs de promover mobilização com convicção.

Em outras palavras: professoræs, descubram e destranquem a função “secreta” de sua profissão: mobilizar cidadã/o/s – incluindo vocês própri@s – e promover mudanças no estado de coisas vigente!

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo