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Sobre Direitos Animais e radicalismo

Nós militantes abolicionistas dos direitos animais somos frequentemente acusados de ser radicais ou mesmo “extremistas”. Contrariando o que o leitor pode esperar daqui, afirmo que sim, somos radicais, é verdade. Mas num sentido que não só é fundamentado como também torna a crítica dos “antirradicais” e mesmo dos animalistas moderados vazia de sentido. A veracidade do nosso radicalismo é sustentada por três pontos principais, que eu quero detalhar abaixo.

Em primeiro lugar, somos radicais porque realmente não aceitamos flexibilização nas nossas reivindicações, nem tampouco negociações acerca do que queremos para os animais não humanos, ao contrário da grande maioria dos movimentos de mobilização. Por exemplo, se almejamos a liberdade de um peixe, nós o tiramos do aquário e o libertamos num rio ou lago piscoso. O máximo que negociamos é que o próprio aprisionador do bichinho crie consciência e o liberte por conta própria.

Mais nada além disso. Não aceitaremos nada que não seja a liberdade do animal. Não cederemos a tentativas de acordo que estipulem, por exemplo, cuidado mais dedicado ao peixe por parte de seu “dono”, um aquário maior ou um(a) companheiro(a) para ele. Queremos sua libertação, nada menos do que isso.

O mesmo é com a vivissecção: queremos o fim das pesquisas que torturem animais, cedo ou tarde. Nossa única cessão é o prazo a ser dado para o desenvolvimento de métodos de pesquisa científica que tornem obsoleta e substituível a exploração de cobaias – até porque mais tempo é realmente necessário para um trabalho bem feito que ao mesmo tempo liberte os bichos do futuro e traga segurança às medicações testadas e às pesquisas empíricas feitas.

Mas absolutamente nada que mantenha indefinida e perpetuamente a existência da experimentação animal – leis de “bem-estar” animal, conselhos de “ética”, “diminuição” do sofrimento das cobaias, mais conforto nos biotérios, punição a crueldades desnecessárias (enquanto as “necessárias” continuariam permitidas), política 3R… Não aceitamos nada disso. Queremos nada menos que o fim, ainda que a longo prazo, das pesquisas com animais. Somos realmente radicais quanto a isso.

O mesmo se aplica ao veganismo. Nós veganos somos acusados de radicalismo e “extremismo” por não darmos nenhuma brecha a qualquer flexibilização. Não consumimos nada de origem animal ou de empresas que testam em animais, nada cujo consumo seja evitável (o que infelizmente não inclui medicamentos ou mesmo meios de transporte sobre pneus, visto que os pneus podem conter ácido esteárico de origem animal), e não pensamos em moderar nosso hábito de consumo.

Recebemos frequentemente pedidos para que flexibilizemos nossos hábitos alimentares – por exemplo, aceitando de vez em quando comer um queijinho, um docinho feito com leite, uma fatia de bolo ovolacto, ou mesmo carne de peixe (visto que muitos ainda confundem vegetarianismo com não-consumo apenas de carne vermelha). Ou seja, para que abandonemos o veganismo – ou mesmo o vegetarianismo – e sejamos flexíveis em nosso respeito aos animais não-humanos.

De acordo com nossa interpretação, a mensagem acaba significando: “Não sejam tão radicais em respeitar os animais. Aceitem pelo menos de vez em quando frutos de exploração animal. Os bichinhos que dão leite e ovos não morreram mesmo (mesmo que tenham sofrido tanto quanto ou ainda mais do que animais “de corte”)”. Mas nossa resposta é não, pois não relativizamos a ética e o respeito aos seres sencientes. Isso pelo motivo que nos leva ao segundo grande fundamento de nosso radicalismo.

Esse motivo é: os abolicionistas são tão radicais em pensar a libertação animal quanto a sociedade ocidental, de forma quase generalizada, o é quando pensa e reproduz a ética dos Direitos Humanos (exceto quando a atribuição de direitos a criminosos hediondos entra em pauta, por ser algo que divide a população).

Quase ninguém de nossa sociedade aceitará, por exemplo, que certas categorias de pessoas, escolhidas por raça, etnia, tribo urbana, faixa de peso, religião etc., sejam submetidas a trabalho escravo. Mesmo que tentem convencer as pessoas de que serão obedecidos estritos critérios de “bem-estar” que proíbam os senhores desses escravos de, por exemplo, chibatá-los, privá-los de alimentação, insultá-los etc., ninguém passará a defender essa escravidão. Quase todos irão evocar os Direitos Humanos para justificar que é incondicionalmente errado escravizar seres humanos.

Outro ponto, embora bem menos generalizável numa sociedade relativamente conservadora como a nossa, é a defesa dos direitos das mulheres ao voto e ao exercício de mandatos políticos – aspectos que até as primeiras décadas do século 20 eram partes da pauta da luta feminista, mas hoje no século 21 já não “requerem” mais uma consciência feminista militante para serem defendidos. Só uma minoria muito retrógrada aceitaria hoje negociar que as mulheres tenham esses direitos flexibilizados – por exemplo, tornando os direitos ao voto e ao exercício político condicionados ao estado civil delas.

Ou seja, a maioria da sociedade é radical quando defende incondicionalmente os direitos políticos da mulher, sem espaço a qualquer flexibilização. E ninguém considera isso um mal como o fazem em relação aos defensores abolicionistas dos Direitos Animais.

E um outro caso de radicalismo patente, mas não criticado, em parte significativa da sociedade é relacionado aos seus próprios direitos. Dessa parcela da população, ninguém aceitaria negociar a flexibilização de direitos como a liberdade de locomoção, a cidadania, o voto e a associação em grupos de interesse. Não quereriam ter direitos pela metade, ainda que fosse alegado um suposto “bem maior” para que tal corte acontecesse. Ou seja, são radicais em relação aos seus direitos próprios, mas ninguém implica com eles por serem assim – pelo contrário, não é nada raro receberem exaltados elogios. Ao contrário do que fazem conosco, radicais pelos direitos dos animais.

Voltando ao radicalismo abolicionista, este tem um outro sentido – o terceiro fundamento –além da intransigência: é radical porque vai à raiz do problema, porque procura cortar o mal em seus fundamentos, ao invés de meramente reparar os danos, podar as “folhas” desse mal, para torná-lo menos grave. Nossa militância quer o fim do tratamento dos animais como seres inferiores e como propriedade, visto que isso é o que fundamenta as mais diversas violências, sejam elas já consideradas crimes pela lei vigente ou não, contra os animais não-humanos.

Se os animais sofrem minguando em suas prisões (gaiolas e aquários domésticos e jaulas de zoológicos) ou são explorados em rodeios, vaquejadas e touradas, não é porque estão sendo maltratados por humanos de mau caráter em casos isoláveis, mas sim porque a sociedade em geral vê os bichos como seres inferiores, passíveis de serem aprisionados, privados de qualquer direito, escravizados em favor de benefícios – ainda que fúteis – para a humanidade, tratados como propriedade humana tal como carros e brinquedos. E propriedade e escravidão tornam as vítimas passíveis das mais diversas privações e consequente sofrimento, já que não possuem nenhum direito.

É essa propriedade e essa desigualdade moral que queremos abolir, inegociavelmente. Não nos contentamos com cessões bem-estaristas como gaiolas mais espaçosas e confortáveis ou assistência 24 horas. Queremos respeito incondicional, liberdade e direitos para os animais não-humanos. Isso nos faz radicais: sermos intransigentes e irmos à raiz do problema.

Nosso radicalismo é tão difícil de negar quanto fundamentado e justificado. Mas somos uma das únicas categorias de radicalismo pacífico vastamente criticadas pela sociedade, ao contrário dos outros tipos que citei – os radicais que não aceitam flexibilizar seus direitos próprios, os que repudiam a escravidão humana rejeitando qualquer condição de “bem-estar” para os hipotéticos escravos, os não-feministas que não concordam nem um pouco que as mulheres tenham seus direitos políticos condicionados e a própria sociedade cuja maioria não aceita retrocessos nos Direitos Humanos.

Isso porque vamos de encontro a diversos interesses e hábitos arraigados na sociedade – beneficiar-se pela escravização de animais não-humanos, ter uma alimentação na qual a compaixão para com os bichos vale menos do que o prazer, usar aves e peixes como objetos de decoração. Como creem que não se sentiriam bem em abrir mão dessas práticas, nem conseguem contra-argumentar convincentemente contra os Direitos Animais, resta-lhes nos taxar de radicais numa conotação negativa e nos desqualificar por isso – mesmo quando eles próprios são radicais em relação a seus direitos humanos, civis e políticos.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Luara

março 16 2011 Responder

Única crítica, quanto ao primeiro exemplo: do peixe de aquário que deveria ser libertado num rio. Ele saberia sobreviver? Ou isso não importa para os abolicionistas, contanto que esteja livre?

    Robson Fernando de Souza

    março 16 2011 Responder

    Luara, na minha opinião, o peixe liberto que morre na natureza pelo menos morre como ser livre, ser integrante do cosmos da biosfera. Morre segundo as leis ecológicas. E ali, no meio silvestre, nós não temos nenhum poder sobre a vida animal – à parte os caçadores* e os traficantes de animais silvestres, ambos criminosos.
    Não morre na solidão, na tristeza, na miséria do encarceramento.

    *Excluindo os caçadores de povos tribais, que vivem integrados à natureza, como seres realmente naturais.

    Samory Pereira Santos

    março 20 2011 Responder

    Obviamente, na opinião de Robson. Eu discordo dele, por minhas críticas a “supremacia” das leis da natureza (que chamo de “Mandamentos de Gaia”), ao entender que, no caso de animais domésticos ou domesticados que não possuem mais habitat natural, nos cabe lhes fornecer a melhor vida possível até a eventual morte não intencional. Esses animais são “nossa” criação, enquanto espécie, e devemos responsabilidade a ela, não nos cabendo por-em-ordem a morte desses animais usando as regras de Gaia, ao qual não lhes aplicam (por não serem animais naturais, para começo de conversa).

      Robson Fernando de Souza

      março 20 2011 Responder

      Samory, no caso de domésticos e domesticados sem habitat, eu concordo contigo, devemos cuidar deles até sua morte não intencional. Mas quanto a animais que ainda podem ser libertados, como peixes e a maioria dos pássaros, prego a abertura das portas das gaiolas e a liberação nos lagos e rios não poluídos.

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