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Tatuoca, o lado social do ecocídio de Suape

Quando falamos de meio ambiente, devemos também incluir o ser humano, que, para o bem ou para o mal, é parte integrante da Natureza. O ambiental, quando engloba a presença humana, passa a ser também social – torna-se socioambiental. Isso é muito evidente nas comunidades tradicionais, entre as quais se incluem povos indígenas e moradores não-indígenas que vivem, de modo simples, do usufruto sustentável dos recursos naturais do ecossistema a rodeá-los. Esse é o caso dos habitantes tradicionais da Ilha de Tatuoca, vizinha ao Porto de Suape.

Pois bem, a destruição causada pelo complexo industrial-portuário não é só ambiental, restrita a matar um ecossistema de flora e fauna não-humana. É ainda mais completa, é uma devastação socioambiental. Os moradores de Tatuoca, muitos deles morando lá há várias gerações e/ou tendo praticamente nascido na ilha, estão prestes a ser expulsos dali pelo Governo de Pernambuco, para a instalação de pelo menos um estaleiro – mais empreendimentos poderão chegar ali no futuro e terminar a aniquilação do ambiente local.

Em troca do terreno usufruído há muitas décadas por gerações de pessoas humildes que vivem da pesca e do extrativismo, oferece-se uma indenização irrisória em dinheiro e casas num terreno, ainda sem infraestrutura, chamado “Nova Tatuoca”, situado ao norte de Suape. Os tatuocanos não gostaram nada do oferecido – até o momento, apenas um conjunto de promessas constantemente adiadas –, visto que o novo terreno nada tem a ver com o modo de vida que levam.

Deixarão de morar em casas afastadas uma das outras (como um conjunto de pequenos sítios) para viver em casas muito próximas, não terão um terreno natural grande à sua disposição e, o mais importante, serão desligados daquilo que fundamenta suas vidas desde gerações passadas: a ligação vital com a natureza que lhes dá abrigo, alimento e sustento. E também não há perspectivas profissionais para quem tão pouco contato teve com a escola – o governo tenta enrolar com cursos paliativos como informática para a Terceira Idade, embora seja claro que nenhuma empresa instalada em Suape vai querer contratar para bons empregos gente idosa ou de meia-idade e que não tem curso técnico ou superior na bagagem.

O caso de Tatuoca é muito parecido com a expansão territorial dos Estados Unidos ao oeste no século 19: os povos indígenas da região foram sistematicamente expulsos de suas terras natais, pelas armas e/ou por indenizações a preço de banana, e confinados em pequenas reservas, sendo desgarrados da conexão socioambiental e espiritual com a terra onde nasceram.

Agora é a vez de Suape. Sua expansão não respeita os direitos da comunidade tradicional tatuocana e reduz seus laços com aquela terra a uma compensação financeira que, segundo os ilhéus, não vale nem um terreno pequeno para edificar uma casa. É uma demonstração de que o crescimento do complexo industrial-portuário, a tão alardeada “revolução industrial pernambucana”, é algo apenas econômico, francamente desvinculado do socioambiental.

E o mais grave é que a expulsão vem sendo relativamente sutil, com a destruição “pelas beiradas” da fauna e flora locais como consequência da expansão portuária e da poluição vinda das indústrias. Perdendo o amparo natural por causa da devastação do mangue, várias famílias já abandonaram a ilha. O que torna a resistência dos moradores algo tênue, a não durar muito tempo, já que o desmatamento dali parece ser inexorável apesar da grita dos movimentos ambientalistas.

Tanto que cada vez mais falam não em lutar pelo direito de continuarem ali, abraçados à sua terra natal outrora habitada pelos seus pais e avós, mas em conseguir na Justiça uma compensação minimamente decente – alguns falam em obter uma nova casa na beira-mar em outro local, outros reivindicam indenização em dinheiro bem maior do que a oferecida pelo governo. Mas, convictos são, jamais reaverão em qualquer outro lugar os laços com a natureza que tinham na ilha.

O governo estadual não só estupra a natureza com leis e aterros, como também desampara comunidades tradicionais como os ilhéus de Tatuoca. Sem nenhuma noção de responsabilidade socioambiental, aposta num crescimento “chinês” tão conveniente quanto os prazeres tabagistas de um fumante fadado a morrer cedo. Enquanto dá emprego a uns, joga outros na miséria existencial de quem teve seus laços com a Mãe Natureza violentamente cortados e passou a viver cheio de incertezas sobre o amanhã.

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Ramos Sobrinho

maio 24 2012 Responder

Impiedosamente sofremos uma brutal neocolonização consentida
por nossas oligarquias retrógradas e entreguistas: trabalhamos para as multinacionais, os bancos, a rapinagem,
o saque permanente. Nas escolas que ensinam a ignorar, nas
universidades hostis subordinadas a modismos, o forte das
conversas são as questões de gênero e outras igualmente inócuas diante da derrocada ambiental a favor do lucro acima
de tudo, diante do furto da água dos rios, da destruição do semi-árido, do analfabetismo crônico, da covardia generalizada, da boçalidade pública e privada. Sinto nojo
dessa gente carreirista, oportunista, autoritária que nos
empurrou essas situações de goela abaixo.

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