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Uso “genérico” da palavra homem: por que é uma polêmica

Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher. Postado originalmente em 08/03/11 às 07:00

Nos livros e discursos engajados no combate à opressão contra parcelas minoritárias ou majoritárias da humanidade (e contra os animais não-humanos também), vemos uma outra opressão triunfando despercebida e impune. Algo hoje em dia mais simbólico do que prático, é verdade, mas emblemático a ponto de não poder ter sua relevância reduzida a zero. Esse símbolo de dominação e exclusão tem cinco letras e as feições masculinas de um homem.

Mesmo sem perceber, até aquelas personalidades – muitíssimas delas mulheres – muito engajadas em buscar a igualdade entre todos os sujeitos morais acabam consentindo e aceitando tacitamente – e inconscientemente? –, mesmo que numa perspectiva simbólica, o dogma de que os homens são os seres humanos por excelência, o centro da humanidade, os únicos dignos de nomear a espécie humana. Desde a Idade Média, existe o vício de chamar a humanidade pelos seus representantes masculinos.

 

História da palavra “homem”

Até a origem desse costume, o macho não necessariamente nomeava a humanidade na sociedade ocidental, embora já arrogasse superioridade social sobre as mulheres. A palavra homem de fato tem raízes em cognatos antigos que significavam não especificamente o masculino, mas o todo humano – homo e mann, exemplos mais importantes, significavam “ser humano” mesmo. O que quer dizer que o cada vez mais polêmico vocábulo foi corrompido, não deliberadamente promovido, pela androcracia europeia e judaico-cristã.

O cristianismo e o pensamento grego, deduz-se, foram críticos em influenciar a masculinização dessa representação social da espécie humana, já que a Bíblia (especialmente em Gênesis) e filósofos como Platão e Aristóteles consideravam a mulher, respectivamente, apêndice e versão degenerada do macho.

Na Bíblia, Adão, o Homem (adm = homem em hebraico), o masculino, imagem e semelhança do Deus Pai, teve seu nome promovido a denominador de toda a espécie humana – dali em diante, o masculino nomearia o conjunto que englobava humanos machos e fêmeas [1]. Mesmo antes dessa nomeação “oficial”, o macho (Adão) era o primeiro ser humano, e precisava de um(a) ajudante. Como nenhum animal se adequava como braço-direito dele, veio a mulher, sua mulher – assim nomeada “porque foi tomada do homem” –,  a partir da costela masculina. [2]

Na sociedade grega clássica, o homem era o ser humano padrão desde a mitologia pagã local, segundo a qual os primeiros humanos eram homens e a primeira mulher, Pandora, veio como castigo de Zeus e era uma desgraça personificada. Platão “confirmou”, na obra Timeu, que os homens eram os primeiros seres humanos e as mulheres teriam surgido depois como uma “mutação degenerativa” em cujos corpos os homens covardes reencarnavam [3]. Aristóteles radicalizou e teorizou que que “a inferioridade [da mulher] é sistemática em todos os planos – anatomia, fisiologia, ética –, corolário de uma passividade metafísica” [4].

Juntaram-se a misoginia grega e o patriarcalismo judaico-cristão – a saber, tendo a mentalidade grega influenciado importantemente o pensamento dos primeiros filósofos cristãos – e varreram culturalmente cada reino europeu, ao longo da Idade Média – tendo o último reino pagão, a Lituânia, sido cristianizado no século 14. Sistematicamente os homens da Europa, ainda que já fossem dominantes socioculturalmente, foram elevados a um pedestal ainda mais radical, desequilibrando ao extremo a balança entre o peso e atividade masculino e a leveza e passividade feminina.

Nessa varredura, os verbetes que representavam os machos – vir no latim, were no inglês, wer no alto-alemão arcaico – se tornavam desnecessários, já que, como as mulheres estavam reduzidas a seres marginais reclusos no doméstico e os homens eram praticamente toda a parcela publicamente ativa da humanidade, os únicos seres humanos com full power, dizer “os homens” podia ser perfeitamente confundido com “os seres humanos”, já que praticamente só havia eles como agentes sociais. Naquela supremacia androcrática, não parecia fazer mais sentido usar termos diferentes para os homens e a humanidade.

Então as palavras em questão – vir, were, wer etc. – foram abandonadas como denominação dos homens e substituídas pelos termos globais nas línguas existentes e nas então nascentes – man, mann, homem, hombre, homme (estas três últimas derivadas de homo) etc.

 

Polêmicas

A discussão sobre o uso genérico da palavra homem vem esquentando apenas desde a segunda metade do século passado, mas desde as revoluções burguesas do século 18 desperta dubiedades oportunamente aproveitadas como motivos de exclusão feminina. Olympe de Gouges foi talvez a primeira pessoa a se insurgir contra o uso falsamente neutro do termo, ao reclamar que as mulheres não estavam sendo amparadas pela francesa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a qual teoricamente, mas não na prática, abarcava os dois gêneros. Isso levou-a a criar uma Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, algo que infelizmente não foi levado a sério na época – e lhe rendeu a guilhotina.

Previamente percebeu-se que os discursos dos filósofos que exaltavam aquele sujeito que ao mesmo tempo tinha e não tinha um rosto masculino – o tal do homem – dificilmente encaravam a mulher em pé de igualdade com os machos. Rousseau, segundo nos revela Simone de Beauvoir, pensava que “toda a educação da mulher deve ser relativa ao homem (…) A mulher é feita para ceder ao homem e suportar-lhe as injustiças” [5]. Marina Basso Lacerda, por sua vez, em seu artigo A gênese da divisão público/masculino e privado/feminino… [6], acusa: “a tradição filosófica de origem kantiana, quando considera o indivíduo moralmente autônomo, toma raramente a identidade feminina como ligada a essa noção de indivíduo.”

E demorou para que os discursos que visavam o homem “sem distinção de gênero” passassem a abraçar a mulher, considerando-se que direitos como o voto, a atividade política legislativa e executiva e a posse de propriedade só foram conquistados por ela – e graças a suas lutas, não por concessões gratuitas por parte dos homens – entre os meados do século 19 e os do 20 tanto nos países desenvolvidos como na maioria das nações em desenvolvimento. Enquanto isso, contraditoriamente, os livros das então nascentes Ciências Sociais abusavam de falar do homem como se tal palavra representasse a humanidade inteira sem nenhuma polêmica, dubiedade ou injustiça linguística.

Mesmo atualmente, o uso indiscriminado desse verbete da discórdia continua, inclusive entre muitas e muitas mulheres, que desconhecem – ou mesmo ignoram ou irrelevam quando avisadas – (por) que estão aceitando tacitamente o masculino ser o gênero padrão da humanidade.

Diz-se comumente ainda hoje, num senso comum seguido até pelos intelectuais mais cultos e cientificistas, que “homem tem dois significados: os humanos adultos do sexo masculino e os seres humanos indistintos de gênero e de idade”. Mas é considerado muito esquisito, e às vezes até ofensivo, que se diga, por exemplo:

– Eu sou um homem! (dito por uma mulher)
– Eu, você aqui, vocês duas sentadas ali, vocês rapazes aí no fundo, todos nós aqui somos homens de bem. (dito por uma mulher)
– Nós homens devemos respeitar mais os outros animais. (dito por uma mulher)
– Neste congresso de mulheres, nós devemos nos firmar como homens capazes de mudar a História. (dito por uma mulher para um público totalmente feminino)
– As mulheres são homens do sexo feminino.
– Metade dos homens têm a capacidade de engravidar e se reproduzir.
– Aquele lugar não aceita homens fêmeas.
– Aqui homens do sexo feminino só pagam metade do preço do ingresso.
– Alguns homens podem sofrer complicações no parto.
– Moram comigo e com meu marido quatro homens, sendo eles três filhas pequenas e um filho adolescente, dois cães e três gatos.
– Crianças e mulheres são homens ainda hoje pouco valorizados.
– Minhas filhas serão homens valorosos para a humanidade.
– Segundo o Censo 2010, há 190.732.694 homens no Brasil, incluindo-se entre eles 97.342.162 mulheres.
– Todos os homens no Brasil tiveram enfim direito ao voto no governo Vargas, com a instituição do voto feminino.
– Minha filha, que está na faculdade, é um homem exemplar.
– Sabia, Fulana, que você é um homem sensacional?
– Alguns homens precisam se cuidar por causa da menopausa.
– Metade dos homens têm o estrógeno como seu hormônio sexual.
– Alguns homens têm cromossomos XX, outros têm XY.
– Gosto de você como namorada linda e amável, como professora devotada, como homem espetacular.
– Simone de Beauvoir, Olympe de Gouges, Marie Curie, Rosa Parks, Emma Goldman… Todas elas foram homens de grande valor!
– Exemplos de mamíferos: homem (mas a foto é de uma mulher), girafa, elefante, cão, gato, leão…

Assim percebemos que a palavra homem não é tão unissex assim, mesmo que seus cognatos originais (homo, mann…) o tenham sido na Idade do Ferro. Reconheceu Paulo Freire diante desse inconveniente:

“(…) É que, diziam elas, com suas palavras, discutindo a opressão, a libertação, criticando, com justa indignação, as estruturas opressoras, eu usava, porém, uma linguagem machista, portanto discriminatória, em que não havia lugar para as mulheres. (…) Em certo momento de minhas tentativas, puramente ideológicas, de justificar a mim mesmo, a linguagem machista que usava, percebi a mentira ou a ocultação da verdade que havia na afirmação: ‘Quando falo homem, a mulher está incluída’. E por que os homens não se acham incluídos quando dizemos: ‘As mulheres estão decididas a mudar o mundo’? (…) A discriminação da mulher, expressada e feita pelo discurso machista e encarnada em práticas concretas, é uma forma colonial de tratá-la, incompatível, portanto, com qualquer posição progressista, de mulher ou de homem, pouco importa. (…) A recusa à ideologia machista, que implica necessariamente a recriação da linguagem, faz parte do sonho possível em favor da mudança do mundo. (…) Não é puro idealismo, acrescente-se, não esperar que o mundo mude radicalmente para que se vá mudando a linguagem. Mudar a linguagem faz parte do processo de mudar o mundo. A relação entre linguagem-pensamento-mundo é uma relação dialética, processual, contraditória.” [7]

Desse discurso, aliás, extrai-se uma pergunta muito pertinente: por que os homens não se acham incluídos quando falamos a mulher ou as mulheres? A resposta mais fácil é o que foi exposto neste artigo: homem, e não mulher, serviu originalmente como denominação da espécie humana. Daí aparece algo interessante: se o cristianismo, a sociedade grega e os povos europeus antigo-medievais tivessem sido ginocráticos e misândricos em vez de androcráticos e misóginos, as mulheres hoje é que se chamariam as homens/las hombres/hommes/men, e aqueles que hoje chamamos homens continuariam sendo chamados por cognatos derivados de were/vir (vires, ou viros, em português?).

 

Conclusão

A Wikipedia anglófona diz que o verbete homem – assim como seus cognatos das línguas romances, derivadas do latim – tem atualmente um “significado genérico residual” [8]. Quem dera que fosse assim mesmo. Hoje mesmo mulheres mais que convictas de seus direitos e de sua dignidade insistem nesse que se tornou, segundo muitas delas próprias, um vício de linguagem.

Esquecem, ou desconhecem, que o histórico socioetimológico dessa palavra interdita seu uso genérico. O termo outrora denominador da humanidade acabou corrompido pelos homens do passado, que o usaram como a coroa de um império androcrático absolutista. Ali a supremacia masculina fazia-os ser confundidos com a humanidade inteira, mesmo sendo demograficamente apenas metade dela, e sujeitava as mulheres a uma submissão que não só se comparava à escravidão, mas também as rebaixava a seres sub-humanos, ou pseudo-humanos. Em outras palavras, o vocábulo homem, enquanto termo dotado de dois significados concorrentes e, por que não, conflitantes, serviu como um emblema da exclusão feminina, de tal forma que as alheou do alcance de diversas declarações de direitos.

Portanto, e considerando também os diversos exemplos de frases “absurdas” ditos mais acima, a afirmação de que “homem também significa ser humano de qualquer gênero” é contraditória e falseável, ou no mínimo muito questionável. O termo em seu uso “genérico”, se não exclui, inclui apenas muito parcialmente as mulheres, enquanto abarca com folga os machos – tanto que eles mesmos se chamam homens.

Daí fica a recomendação enfática: abandonemos o uso da palavra homem como sinônimo de ser humano ou humanidade. Deixemo-na para nos referirmos apenas às pessoas do sexo masculino. Há opções hoje disponíveis para nos referirmos aos seres humanos indistintos de sexo e à espécie humana – além da opção de inserirmos “…e mulheres” ou “mulheres e…” ao lado de homens.

Exemplos [9]:

“A exploração do homem pelo homem” = “A exploração do ser humano pelo ser humano”
“A relação homens-animais” = “A relação humanos-animais” ou “A relação seres humanos-animais”
“A alma é a essência do homem.” = “A alma é a essência do ser humano.”
“Paz na terra aos homens de boa vontade” = “Paz na terra aos seres humanos de boa vontade” ou “Paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade” ou “Paz na terra às mulheres e homens de boa vontade” ou “Paz na terra às pessoas de boa vontade”
“Homens de fé” = “Homens e mulheres de fé” ou “Mulheres e homens de fé” ou “Seres humanos de fé” ou “Pessoas de fé”
“A evolução do homem” = “A evolução da humanidade” ou “A evolução do ser humano” ou “A nossa evolução”
“De nada valem as ideias sem homens que possam pô-las em prática.” = “De nada valem as ideias sem pessoas que possam pô-las em prática.”
“As duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos homens.” = “As duas coisas infinitas: o Universo e a tolice das pessoas.” ou “As duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos seres humanos.”
“A sociedade é a união dos homens, e não os próprios homens.” = “A sociedade é a união dos seres humanos, e não os próprios seres humanos.” ou “A sociedade é a união das pessoas, e não as próprias pessoas.”
“O homem é um animal racional.” = “O ser humano é um animal racional.”
“Um homem sem memória é um homem sem passado.” = “Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem passado.” ou “Um ser humano sem memória é um ser humano sem passado.”
“Intermédio entre Deus e os homens” = “Intermédio entre Deus e os seres humanos”
“Lei dos homens” = “Lei dos humanos” ou “Lei dos seres humanos”
“Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros.” = “Enquanto os seres humanos massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros.” ou “Enquanto os humanos massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros.”
”O coração de um homem e o fundo do mar são insondáveis.” = ”O coração de um ser humano e o fundo do mar são insondáveis.” ou ”O coração de uma pessoa e o fundo do mar são insondáveis.”

A diferença pode ser impressionante, e nos mostra que mesmo muitos discursos pró-igualdade e antidominação podem vir carregados de fortes resquícios daquilo próprio que visam combater – a desigualdade e a exclusão. Mesmo uma única palavra faz grande diferença na nossa ideia acerca do mundo que queremos construir. E esse mundo desejado certamente não é um onde os homens continuem tendo a supremacia social em detrimento das mulheres, seja ela prática ou apenas simbólica, e o privilégio de ser o centro da humanidade.

 

Notas e referências:

[1] “Este é o livro da história da família de Adão. Quando Deus criou o homem, ele o fez à imagem de Deus. Criou-os homem e mulher, e os abençoou, e deu-lhes o nome de homem no dia em que os criou.” (Gênesis 5:1,2 – Bíblia Ave Maria, grifo meu)
[2] Ver Gênesis 2. A referência do texto é a Bíblia Ave Maria.
[3] conforme DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres no Ocidente. v. 1. Porto: Afrontamento, 1990. (p. 96-97)
[4] DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres no Ocidente. (p. 86)
[5] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 1. Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. 3. ed. (p. 140)
[6] LACERDA, Marina Basso. A gênese da divisão público/masculino e privado/feminino no discurso legitimador do Estado moderno e a incorporação de temas “domésticos” na agenda política. Fazendo Gênero, Florianópolis, n. 8, 25-28 ago. 2008. Disponível em http://www.fazendogenero8.ufsc.br/sts/ST28/marina_basso_lacerda_28.pdf. Acesso em 5 de março de 2011.
[7] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança – um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. 7. ed. (p.66-68)
[8] “residual generic meaning”. http://en.wikipedia.org/wiki/Man_%28word%29. Acesso em 5 de março de 2011.
[9] Não se recomenda que se “traduza” a palavra homem/homens de citações alheias em trabalhos científicos – pode-se, porém, pôr um “[sic]” ao lado. Elas foram postas aqui apenas como uma amostra de como pode(ría)mos tornar alguns discursos mais igualitários.

imagrs

12 comentário(s). Venha deixar o seu também.

claudia

setembro 9 2015 Responder

uau bem esclarecido e instrutivo parabéns e obrigada.

    Robson Fernando de Souza

    setembro 10 2015 Responder

    Obrigado =)

claudia

setembro 9 2015 Responder

uau bem esclarecido parabéns.

Marcela

setembro 6 2015 Responder

Nunca encontrei explicação convincente para esta questão. Rotineiramente sou incomodada com isto … qualquer um que comece dizendo ” Os Homens …, pronto, já sei que não esta falando comigo.E é um saco, ter de ficar lembrando isso. No entanto, temos de lembrar, de corrigir – sempre! É como um erro de português – não podemos deixar! Mas como mudar isso no dicionário?Na linguagem culta padrão?

ruth iara

maio 8 2011 Responder

Como as palavras são inocentes do preconceito e da malícia dos homens mulheres e dos homens homens.
Este artigo foi muito instrutivo para mim. Muito obrigada!
Um abraço.

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