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Veja carnista: a opinião-reportagem sobre “senciência” vegetal e a tentativa de desacreditar o vegetarianismo

A próxima edição da revista inominável

A revista Veja é assim: quando menos se espera que se supere em termos de mau jornalismo, ela surpreende a todos com uma nova pérola. E dessa vez revela uma radicalização momentânea do seu discurso antivegetariano: com um artigo republicado no seu site como se fosse notícia, confirma de uma vez por todas sua entrada para o clube dos carnista – onívoros reacionários que atacam o vegetarianismo e o veganismo [e também os próprios veg(etari)anos] e defendem o consumo de alimentos de origem animal com argumentos falaciosos e preconceituosos.

Se a Veja já tivesse perdido toda a sua credibilidade ou fosse apenas um blog de visitação pequena ou mediana, poderia ser solenemente ignorada nessa sua nova publicação, assim como se recomenda que façam com qualquer outro carnista. Mas deve-se admitir que ela ainda é confiada o bastante para persistir em ser a revista mais vendida do Brasil, por ter um público cativo de conservadores das classes A e B e continuar divulgando denúncias políticas com repercussão e consequências notáveis, mesmo quando são tendenciosas ou meias-verdades.

Por isso, seus textos antivegetarianos e pró-pecuaristas, mesmo tendendo à provocação, ainda precisam ser todos rebatidos, contestados e criticados de modo a esclarecer às pessoas mais incautas e suscetíveis a acreditar nos seus ditames magister dixit sobre os erros e manipulações praticados pela revista contra a alimentação ética.

Convém aqui, nesta contestação do artigo sem assinatura referido, dividir a crítica em duas partes: a ação amadora da Veja e a refutação dos argumentos apresentados no texto.

Artigo de opinião, sem fiabilidade científica, publicado como se fosse uma notícia

O artigo, intitulado Mesmo sem rostos, as plantas também querem viver, é uma tradução do texto No Face, but Plants Like Life Too, publicado no site do The New York Times em 15 de março passado como special issue (matéria especial) e escrito por Carol Kaesuk Yoon, autora de textos ligados a biologia e ecologia. A pessoa que traduziu o artigo é desconhecida, teve seu nome omitido.

O texto anonimamente traduzido foi publicado na Veja como se fosse uma notícia, visto que consta no diretório virtual /noticia/ciencia/ dos arquivos do site da revista. Fica assim com uma fachada de reportagem científica, não obstante todos os “eu”s e impressões pessoais que marcam o caráter meramente opinativo do artigo.

A saber, o NYT, fonte primária da obra carnista, também merece críticas por ter divulgado um texto de opinião como “reportagem especial”, como matéria passível de isenção. Poderia, ao invés, tê-lo realocado à seção de Opinião ou rejeitado sua publicação no meio das reportagens propriamente ditas, visto que destoa das demais special issues de 15 de março, as quais se caracterizam como reportagens verdadeiras, com fontes internas e entrevistas breves, em vez de terem o formato opinativo do texto de Yoon.

A Veja se apoderou de uma opinião, ainda mais externa à sua redação, e a transformou em reportagem de tendência científica, ferindo qualquer princípio de imparcialidade. Aliás, desde quando a Veja tem algum resquício de jornalismo dito imparcial? E desde quando ela é fiel à ciência em suas reportagens? Lembremos daquela vez em que a redação respondeu arrogantemente ao leitor que avisara via e-mail sobre um erro gráfico na representação dos genes em reportagem impressa da edição de 22/04/2009, desobrigando-se de qualquer fidelidade científica. Sem falar no lendário boimate.

A revista tem o costume de tratar de assuntos que contrariam seus interesses com argumentação manipulativa e frágil em termos de lógica, lançando mão frequentemente do apelo à autoridade, pela qual a “confiabilidade” da matéria está toda escorada na posição de autoridade prestigiada do especialista fornecedor das informações controversas. Assim sendo, com o artigo estrangeiro traduzido tornado “notícia”, mesmo estritamente online e sendo improvável que vá ser reproduzido em edição impressa, a Veja não trouxe nenhuma novidade para quem já sabe que ela não tem credibilidade para passar informações cientificamente fiáveis. Fora a sua consolidação como mídia “alfacista”.

Argumentos tipicamente carnistas

Saindo da discussão da atitude amadora da Veja e entrando no artigo, pode-se ter a expectativa de que, pelo título e pela frase de subtítulo, é uma notícia capaz de revolucionar nossas concepções sobre a senciência (ou a falta dela) das plantas. Mas à medida em que lemos, percebemos que não passa de um trololó cheio de impressões subjetivas, dados sem fontes e argumentos facilmente desmontáveis.

O texto é precedido por uma provocativa descrição: Por que as plantas mereceriam morrer mais que os animais? Sob esse aspecto, não há razão para ser vegetariano. Diante do histórico pró-pecuária e antivegetariano da Veja, percebe-se o evidente caráter lobista da reprodução, a intenção de desarmar os vegetarianos de sua filosofia ética de modo a fazê-los voltar a comer carne e outros alimentos de origem animal em razão da suposta incoerência filosófica de respeitar a vida e os direitos dos animais mas não das plantas.

A partir do sétimo parágrafo, começamos a conhecer o que sustenta a contraditória compaixão da autora para com as plantas. Podemos resumir seu argumento, parágrafo por parágrafo, a esta lista:

– Há distinções citológicas entre as células animais e vegetais. Logo, de acordo com o discurso do respeito às diferenças, isso se torna um motivo para pensarmos em incluir as plantas no nosso círculo moral;
– A presença de uma face é essencial para a percepção moral e compassiva acerca do merecimento de direitos por parte de cada animal;
– A falta de reações físicas por parte da planta deve ser relativizada como sendo a ocultação, não a ausência, da senciência vegetal;
– Há senciência oculta “evidente” nas plantas, que as leva a reagir sensorialmente – ou, em outras palavras, “luta(r) para se salvar com o mesmo ardor e inutilidade, mesmo sendo menos óbvio aos ouvidos e olhos humanos”;
–  As reações bioquímicas das plantas que servem como defesa contra predadores devem ser consideradas um tipo completo de senciência, ativa o suficiente para caracterizar sofrimento no vegetal;
– As plantas têm locomoção, sendo seu tropismo não uma resposta a estímulos externos, mas um movimento tão ativo e neuralmente comandado quanto o de um animal vertebrado;
– Plantas podem reconhecer sensorialmente “parentes” (descendentes ou “irmãos” vindos da mesma planta), logo são seres conscientes;
– Há animais não-sencientes (esponjas) e protossencientes (cnidários), logo animais não são tão sencientes assim;
– Fungos são ainda mais sencientes do que as plantas;
– A exploração vegetal tem as mesmas bases preconceituosas da escravidão e dos genocídios, visto que a senciência das plantas é tão “desconhecida” quanto os sentimentos de alguns tipos (raças e etnias) de seres humanos eram na época da escravatura legalizada;
– Micro-organismos também deveriam começar a ser levados em consideração no círculo moral humano;
– É tão difícil o veg(etari)ano considerar as plantas sujeitos morais quanto o onívoro incluir moralmente os animais não-humanos.

Em outras palavras, o discurso de Yoon se centra na suposta senciência não reconhecida das plantas e na tenuidade idem dos limites do círculo moral vegano.

Esclareçam-se então os pontos, que podem ser verificados em qualquer livro de Biologia de ensino médio ou mesmo no parque da cidade. Em primeiro lugar, fez-se uma grande confusão entre os processos bioquímicos da fisiologia botânica e o funcionamento do sistema nervoso dos animais. Tentou-se atribuir senciência a movimentos celulares quimicamente programados e estimulados, tais como o tropismo e a emissão de substâncias venenosas, esquecendo-se de que o funcionamento do sistema nervoso é baseado em reações eletroquímicas, não apenas químicas.

Além do mais, segundo a perspectiva lógica e evolucionista, qual seria a função da dor e do sofrimento nos vegetais, que não podem escapar dos animais e micro-organismos comedores de folhas e caules? Por que as plantas haveriam de evoluir com uma característica – a dorência – que não lhes traz nenhuma vantagem ecológica, nenhum efeito prático?

Animais sentem dor porque isso lhes permite fugir dos predadores e protege seu organismo de modo a fazê-lo reagir a agressões externas que poderiam, em última análise, mutilar e corroer seu corpo. Necessitam da senciência também para manter a integridade corporal, visto que o corpo deixará de funcionar adequadamente se lhe for arrancado um órgão ou um membro por ação predatória.

Já vegetais não podem fugir, nem têm órgãos a proteger individualmente. Se há um incêndio no local, de nada adiantaria serem sencientes, pois não podem evacuar o local do fogo e a dor só seria um sofrimento totalmente inútil. Se o outono chega e põe as folhas a cair, a planta senciente deveria sofrer e até morrer por sua sensibilidade, mas isso não acontece. Pelo contrário, na primavera a árvore terá de volta todo o seu folheamento restaurado.

Se um inseto come uma de suas folhas, não há necessidade nenhuma de se sentir dor no abocanhar do bicho, visto que há milhares de outras para captar gás carbônico, oxigênio e água para a planta e folhas são perfeitamente substituíveis. Se come um galho, a sensibilidade também se faz desnecessária, já que há dezenas de outros ramos em funcionamento – e novos galhos poderão aparecer em seguida.

Em relação à esfera moral, está claro na ética vegana: o critério de inclusão ou exclusão de seres vivos é a senciência. Esponjas não são parte do círculo moral humano, visto que não sentem dor nem sofrem – o que, assim como no caso das plantas, também é desnecessário, visto que vivem fixas e imóveis no fundo dos mares. Fungos e micróbios também não têm senciência, os primeiros pelas mesmas razões dos vegetais, os segundos por serem unicelulares e células não terem qualquer organela com função nervosa.

O outro ponto é relacionado a supostamente ser mais “cruel” comer um vegetal do que um animal. A autora ignora que, para um único animal, são colhidos frutos ou a totalidade de centenas ou até milhares de vegetais, enquanto o mesmo não se aplica às plantas, por serem autótrofas – produzem seu próprio alimento. Quem come um único pedaço de carne bovina está consumindo o sacrifício de milhares de seres vivos, incluindo o próprio animal e mais incontáveis plantas. Logo, mesmo se os vegetais fossem sencientes e merecessem atenção moral, continuaria sendo mais errado comer animais.

E um aspecto final que se faz necessário comentar é a analogia da “exploração vegetal” a ideologias escravistas e segregativas. A autora omite que a legitimação da escravidão e a atribuição de desigualdades “naturais” aos seres humanos foram frutos de irrazão, dogmatismo (às vezes religioso) e pseudociência. Ambas foram sistematicamente refutadas pela ciência ao longo do século 20, a qual mostrou que nada há nos seres humanos que tornem um inferior ou superior ao outro. Por outro lado, a suposta senciência vegetal até hoje não foi provada por nenhum estudo sério revisado por pares e reprodutível.

E isso nos leva a uma das mais importantes constatações: o artigo travestido de reportagem não cita nenhuma fonte, tampouco científica, para sua argumentação. A única “referência” a cientistas não cita nenhum nome: “Não muito tempo atrás (quando?), cientistas (quem?) reportaram evidências de que as plantas podiam detectar e crescer de forma diferente caso estivessem na presença de parentes próximos”.

Conclusão

A Veja não colocou essa pseudorreportagem no ar para fins de compromisso jornalístico nem tampouco de conscientização. Sua intenção é escusa: através de pura desinformação, fazer os vegetarianos desacreditarem como “incoerente” sua convicção ética de respeito aos animais e assim induzi-los a voltar a comê-los – pois, afinal, o que adianta incluir uns seres vivos e excluir outros quando todos teriam a mesma capacidade de manifestar dor e sofrimento?

Essa revista, num mundo ideal, já teria deixado de circular por causa da total perda de credibilidade e confiabilidade e pela sua aliança a interesses sombrios. Mas infelizmente ela é ainda hoje a mais vendida do Brasil e uma das mais comercializadas no mundo inteiro, portanto continua fazendo-se necessário denunciar toda e qualquer obtusidade vinda de suas páginas impressas ou virtuais.

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11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Rodrigo

dezembro 9 2012 Responder

Qual a função de haver senciência em vegetais?A percepção sensorial é necessária para a locomoção em busca de alimentos e abrigo,bem como para fugir de um predador,por exemplo,se as plantas são autotróficas,com que objetivo biológico elas teriam a sensação de dor nervosa?Sentimos dor por que pertencemos ao reino animal com a mesma estrutura corporal e presença de sistema nervoso que outros animais,que pela heterotrofia,necessitaram evolutivamente desenvolver nervos,por isso a senciência nos animais,as plantas não tem essa necessidade,se tivessem,já teriam evoluído para desenvolver meios de locomoção durante os muitos e muitos milênios que estão na terra,você acaso já viu um vegetal andando por aí?

Tenha a santa paciência hein?

Jorge Vivace

julho 16 2012 Responder

Obrigado por me mostrar isso. Nunca mais vou sequer tocar numa revista Veja.

Leandro

março 21 2011 Responder

Lixo essa revista. Porcaria da pior qualidade. Grande “coincidência” terem colocado a matéria dias depois da grande mídia divulgar que Obama e sua família são veganos.

Sarah

março 20 2011 Responder

Caro Robson Fernando,
Sua crítica a veja sou completamente a favor, só não concordo com esse trecho:
“Em relação à esfera moral, está claro na ética vegana: o critério de inclusão ou exclusão de seres vivos é a senciência.”
Existe o biocentrismo que vai além da senciência, creio que a senciencia é fundamental, mas o biocentrismo abrange não só os animais mais ecossistemas naturais. Seus critérios são:
a] a regra da não-maleficência;
b] a regra da não-interferência;
c] a regra da fidelidade;
d] a regra da justiça restitutiva.
Caso não conheça fica a dica: http://eventos.uepg.br/seminariointernacional/agenda21parana/palestras/08.pdf
http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/et53art7Sonia.pdf
Bom ainda estou estudando o tema então é uma sugestão.
Caso conheça, ignore meu comentario… rsrs

    Robson Fernando de Souza

    março 20 2011 Responder

    Olá, Sarah. O biocentrismo (ou, melhor dizendo, o ecocentrismo) é parte do ambientalismo, não intrinsecamente do veganismo, embora a pessoa possa ser ambientalista e vegana ao mesmo tempo (como eu sou).

    O vegano pode ter em sua ética pessoal não danificar ou destruir plantas desnecessariamente nem de forma antiecológica (ex.: não plantar, colher e comer cenouras em cima de área desmatada). Mas esse respeito aos vegetais não é intrínseco ao veganismo, que só prega o respeito aos animais (humanos e não-humanos) e é indiferente às plantas e micro-organismos, embora não pregue que matemos seres não-sencientes indiscriminadamente.

    Abs

yoyo

março 20 2011 Responder

Qta besteira! Vegetais não tem sistema nervoso portanto não sentem dor!

    Avohay

    março 30 2012 Responder

    Você está equivocado meu amigo Dê uma lida no livro “A Vida Secreta das Plantas”. Até mais.

Samory Pereira Santos

março 20 2011 Responder

And again, and again, and again. A Veja é incansável.

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