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abr11

Campanha #precojusto, despolitização e falta de crítica da classe média

Recomendo o texto abaixo de Raphael Tsavkko, o Angry Brazilian, para pensarmos sobre a questão da atitude da classe média brasileira em relação ao vídeo de Felipe Neto sobre os impostos e a política e a tendência da mesma classe média de se restringir a “protestar” por causas a envolver política e governo com hashtags no Twitter.

O artigo de Tsavkko tem tudo a ver com o tema cidadania do Consciencia.blog.br, é uma crítica a quem acha que cidadania é só votar de 2 em 2 anos e twitar hashtags de “protesto” e achar que Brasília é uma Arezzo da vida.

 

Preço Justo Já e a falta de crítica da classe média #PrecoJusto
por Raphael Tsavkko

Felipe Neto é um camarada que faz sucesso na internet ao postar vídeos em que, com linguagem carregada de palavrões, mas não sem certa inteligência, critica a tudo e a todos (e sem precisar de milhões em incentivos, viu Maria Bethânia?).

[Vídeo de Felipe Neto no YouTube]

No vídeo que virou a campanha #Precojusto ele corretamente protesta contra os impostos abusivos que pagamos por basicamente tudo, sem recebermos absolutamente nada em troca. Nossa saúde é uma lástima, nossa educação pública é uma piada, segurança é risível (e segurança é encarada como “bater em pobre” apenas)…. Concordo com ele na crítica à imbecil campanha contra a pirataria promovida pelo governo. Mas não só pelo preço dos produtos devido aos impostos, mas como crítica à indústria em si.

Tudo correto. Revolta correta – ele ainda, no começo, comenta que a única coisa que “fazemos” é protestar no Twitter. Bingo! Realmente, o estilo classe-média de protesto é achar que sentar no sofá e xingar nas redes sociais muda o mundo.

O grande problema do vídeo, porém, é a ampla generalização dos políticos, colocados todos no mesmo grupo: corruptos e canalhas. E, claro, o de se basear na noção divina do “direito ao consumo”, sem qualquer tipo de crítica.

Os protestos classe-medianos tem, todos, uma configuração muito semelhante, não importam as intenções: Colocam a política institucional num limbo completo. Não presta, não serve.

Há, entre a juventude, a idéia firme de que partidos políticos são o mal para o país, são o problema único. Na verdade, boa parte do problema é que este distanciamento acaba por abrir exatamente o espaço que estes partidos precisam para fazer das suas. É exatamente essa ojeriza por grande parte da juventude, os afastando da política institucional, que facilita aos partidos com elementos corruptos roubar descaradamente.

E, ao mesmo tempo, cria-se a aura de que política e política institucional são a mesma coisa. Trata-se de uma juventude classe-mediana facilmente manipulável e óbvia.

Não acreditam na política institucional e, como consequência, se afastam de toda e qualquer política, tornando-se presas fáceis para manipuladores experientes.

Me lembra muito absurdos como o #ForaSarney, de 2009, em que pseudo-celebridades resolveram protestar contra o Sarney, como se ele tivesse aparecido para a política apenas naquele ano. A manipulação midiática sobre o “protesto” era clara. Adolescentes alienados que em sua maioria nunca haviam ouvido falar em Sarney foram levados por sub-celebridades da estirpe de Tico Santa Cruz (quem?) a protestar Sarney não nasceu em 2009, não nasceu aliado de Lula.

Não lembro do DEM ou da Veja apoiarem protestos contra Sarney quando este era aliado de FHC. Isso diz tudo. Semelhanças com o Cansei não são coincidência.

Caso semelhante foi o da quantidade imensa de votos de Marina Silva nas últimas eleições. Tradicionalmente alheios à política tradicional (e em muitos casos qualquer política), foram seduzidos pelo discurso pseudo-ambientalista tão em moda da candidata, legítima representante do atraso (neo)pentecostal.

Trate-se, enfim, de modismo, de ser “hype”, de estar ligado ao assunto do momento. A classe média, vazia politicamente, precisa encontrar um tema, um grupo, algo para se destacar e ao mesmo tempo fazer parte de um grupo, uma comunidade. E, facilmente manipuláveis, estes jovens são atraídos pelas idéias e pessoas que brilham mais, que conseguem fazê-los pensar que podem ser “legais” sem mudar nada em suas vidas.

É o velho “fique rico sem fazer esforço”, mas neste caso ao invés de rico, você fica “popular”.

No fim das contas, o que poderia ser uma reclamação justa e honesta contra os impostos e contra a péssima qualidade dos serviços prestados pelo Estado (aí também entram os péssimos serviços prestados pelas empresas que foram privatizadas, mas neste ponto a classe média não toca), acaba se tornando uma besteira tremenda.

E, lembrando, não toca no ponto principal, que não são os impostos em si o problema, mas sim a “socialização” dos impostos. Rico não paga imposto no país. O problema não é a classe média pagar imposto, mas pagar demais enquanto os ricos não pagam quase nada e, no fim, pouco lhes importa a carga tributária, pois ou ganham o suficiente para não se preocupar com isso ou simplesmente sonegam.

A grande questão a ser debatida não é em si a carga tributária, mas QUEM paga.. E, claro, nem pensar na “campanha” tocar em outros problemas, como o valor dos salários, a precarização do trabalho que também influem na questão.

Segundo Felipe Neto, o problema não é do povo, a culpa não é do povo, mas dos políticos.

Errado.

A culpa também é do povo que vota nos políticos canalhas – em muitos casos SABENDO disso, ou Maluf não seria eleito – e do povo que não fiscaliza, que não participa e mesmo dos que não votam não por ideologia, mas por achar que são só um bando de canalhas. Depois ficam reclamando no Twitter.

É difícil você ter o discernimento para escolher um bom candidato quando se passa fome, quando um saco de arroz faz tanta diferença que você vende seu voto esperando não morrer de fome. Mas qual a justificativa da classe média estudada em colégio particular e que sempre teve de tudo, senão a tentativa de manter seus privilégios e garantir outros?

Política, meus caros, não é só votar, ainda que faça parte, mas ir às ruas, se politizar, compreender o mundo que os cerca, participar de organizações da sociedade civil, de debates no movimento estudantil… Não é fazer parte de um grupo que quer salvar as focas da patagônia achando que vão mudar o mundo, mas participar de conselhos locais, nas escolas, na faculdade… Não é fácil, te afasta do Wii e do PlayStation, mas é isto que faz a diferença.

Aliás, para terminar, alguém duvida que se o objetivo da campanha fosse criticar o preço do arroz e feijão e não do iPad ou dos videogames a classe média way of life não daria a mínima?

A idéia central é o consumo. Não se trata do básico, mas daquilo que os diferencia do resto, da patuléia. A indústria não é a culpada, mas o governo e os impostos. O governo, controlado em muitos casos pelos interesses da… indústria! Cujos industriais fazem de tudo para garantir que não pagarão os impostos e os repassarão para a classe média e para os pobres!

Aliás, convido os revoltados a ir pesquisar como são os impostos na escandinávia. Pois é. Ninguém diz que os impostos no país não são abusivos – eles são -, o problema é o quão deslocada é a crítica. Ou melhor, a crítica alienada que beira o absurdo.

Ser “cool” e descolado pra classe média alienada é protestar unicamente por aquilo que lhe interessa diretamente. Felipe Neto, porém, tem razão, o poder está nas mãos do povo. Mas pena que engajamento só exista quando há reflexos pessoais imediatos.

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