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É justo tratar animais como mercadoria?

Vi essa nota na Folha.com e achei a história ao mesmo tempo comovente e convidante à reflexão:

Gato Arnesto transformou vida da dona em samba do crioulo doido

A história do gato Arnesto, 2, isso mesmo, o da música famosa do Adoniran Barbosa, começou no dia em que Vivian Andrade, de São Paulo, entrou numa loja de animais com o samba na cabeça.

Eu só queria xeretar os filhotinhos maravilhosos de american short hair que estavam à venda. Um gatinho lindo e serelepe logo chamou a minha atenção e de uma enorme plateia”, relata a dona.

“E não que é de repente ele se vira e me olha com seus lindos olhos verdes! Não resisti e caí no samba. Brincando, cantei pra ele ‘Arnesto nos convidou prum samba…’. Ficamos uns quinze minutos brincando e viramos amigos para sempre. Aí ele olhou nos meus olhos ainda mais fundo como que dizendo ‘sou teu pra sempre’. E então, nesse momento veio na minha cabeça a parte da música ‘Isso não se faz Arnesto’.”

Hoje faz dois anos que Arnesto está com Vivian. “Desde sua vinda minha casa se transformou num samba do crioulo doido, mas ‘nóis não se importa'”, diz a dona.

De mercadoria à venda num pet shop, Arnesto tornou-se um dos melhores amigos de Vivian. Sentimentos, emoções, personalidade, sensibilidade, talvez até amor… Tudo aquilo que por muito tempo aparentou-se exclusivo de seres humanos aflorou de um bichinho que naquela loja nada mais valia do que algumas dezenas de reais e vivia preso numa gaiola-vitrine como se fosse um brinquedo exposto. Posso apostar que o que explica parcialmente essa relação tão bonita é que Arnesto retribuiu sua tutora por tê-lo libertado daquela condição de prisão e desamor.

A reflexão que fica é: é justo que a humanidade trate seres dotados de tantas qualidades e capacidades cognitivas e emocionais, tantas coisas que os fazem muito similares a nós, como meras coisas à venda? Por que um ser humano tem direitos e um inalienável e inviolável valor intrínseco enquanto um animal não-humano tem apenas valor em dinheiro e em utilidade?

Quando alguém compra um cão ou gato filhotes, para a sociedade é “tudo bem”. Mas quando, depois de anos de relacionamento carinhoso, vende o mesmo animal adulto ou envelhecido, passa a ser alvo de repúdio e condenação por parte do próximo. Por quê? Por acaso o filhote vale menos do que um bicho adulto? Se sim, por quê?

Se não se pode vender um bicho adulto visto que ele ganhou um valor intrínseco, uma dignidade, o que é, afinal, que faz o animal ter seu valor em dinheiro substituído por um valor intrínseco comparável ao possuído por seres humanos?

Por que pet shops vendem animais domésticos mas orfanatos não vendem bebês encontrados abandonados? Por que existe uma “indústria” de vidas sencientes mas não uma de vidas humanas? Qual é a dignidade, o valor, o merecimento moral da invalorabilidade, que um não tem e o outro não?

E olhe que eu nem cheguei ainda na questão dos animais abandonados, acolhidos por abrigos cuja maioria se sustenta com precariedade e depende de doações. O que faz uma pessoa preferir comprar um animal num pet shop, tratá-lo como mercadoria mesmo sabendo que tem tantas características humanoides, a adotar um outro que é tão ou mais carente e demandante do amor de uma pessoa? Fora o puro desconhecimento sobre direitos animais, o que faz alguém preferir financiar uma “indústria” que vive de vender vidas a optar pela adoção, pelo pensamento de que vidas sencientes, sentimentos, amor, afeto, carinho etc. não têm preço?

Se você ainda é daquelæs que compram animais como se fossem brinquedos ou robozinhos, pense nessas perguntas, e, se puder, reproduza-as para mais alguém que trata animais como mercadoria.

Fecho este post com esperança de que Vivian, depois de ter conhecido Arnesto, nunca mais trate um animal como mercadoria.

imagrs

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vivian

abril 14 2012 Responder

Somente hoje, 13 abril de 2012, vi seu post sobre o Arnesto.
Robson, eu sou a Vivian, aquela “insensível”, segundo você (pelo menos foi o que entendi do texto), proprietária do Arnesto que postou a matéria na Folha de São Paulo. De onde vc tirou que eu comprei uma mercadoria? Como vc consegue ver gatos, porque estão em loja para serem vendidos, simplesmente como mercadoria??? Que visão limitada de quem os vê dessa forma! Eu simplesmente agreguei para a minha vida uma outra vida que estava ali, por acaso, em uma loja. O Arnesto foi o terceiro gato que comprei e eu nunca os vi como uma mercadoria. Aliás, veja vc, eu não tinha nenhuma pretensão de comprar qualquer animal naquele dia! Veja bem, eu não fui a uma loja comprar um animal!! Simplesmente, por acaso, o vi na vitrine de um shopping e ele me conquistou e, somente então, porque eu me apaixonei e acreditei no amor, decidi trazê-lo para integrar a minha vida, não importando a forma de que isso pudesse ser feito: se tivesse que comprá-lo, pegá-lo na rua ou receber de presente. Não importa. Ele era especial. Único naquele momento. O que importa é que percebi que o Arnesto me concedeu o direito de amá-lo e o amei profundamente desde então e a cada dia o amo mais, e isso já faz 3 anos. O amo demais como sempre amei todos os animais que tive e que nem me lembro como os recebi em casa!. Eu abri minha casa, minha vida, meu coração, para eles. Os trouxe para a minha intimidade a ponto de eles fazerem hoje parte de minha personalidade, parte de mim. Não me entendo, não me vejo, sem eles. Sempre que lembro deles, meu coração estremece e morro de saudades e espero que para sempre nesta vida e na eternidade poderei voltar a vê-los e dizer pessoalmente, por palavras ou por atos, que os amo muito!!!! Ele jamais foi para mim uma mercadoria! Que ideia mais triste e, repito, limitada! O Arnesto e os outros gatos que tenho são para mim, cada qual de uma forma especial, meu filhinho profundamente amado e se eu tivesse condições, teria muitos mais, seja comprando-os, pegando os abandonados na rua, daria um jeito qualquer. Robson, o que vale, acredito, é a motivação do coração de quem adquire um animal: não importa a forma, o meio, mas o que faz sentido isso tudo é que tem que ter amor integral para dar e disposição, fruto desse amor, para se doar. Saber que, não obstante dar integralmente seu amor, esse mesmo poderá não ser retribuído!! Na verdade, trata-se de uma aliança de amor que se inicia de mão única, mas que, com o tempo vai aperfeiçoando em uma relação mútua baseada na entrega incondicional. Assim como Deus fez por nós, quando nos deu vida. Tanto faz se é abandonado ou de loja. Não importa a procedência, o que vale é o que, em sua essência, realmente esses animaizinhos são!! São vidas preciosíssimas, que só vieram a viver porque nascidos um dia, seja em cativeiro, ou na rua, mas somente por que Deus o permitiu!!! Eles têm tanta dignidade quanto qualquer outra vida nesta terra! E se estão em mercado, indústria ou seja lá como for, reconheçamos que eles tiveram a chance de nascer e continuar vivos, e, no caso , porque foram criados para serem vendidos. Independentemente disso, deverão ter uma vida digna e feliz junto daqueles que os adotaram!!!! Aliás, vc não tem direito de postar uma matéria criticando qualquer pessoa, como se fosse o bastião da verdade, sem ao menos se informar da sua história de vida! Isso sim, acho, é tem que ser repensado, pois não pareceu ter amor e respeito na atitude! Vivian: a mãe, defensora e aquela que dá sua vida, sua força de trabalho árduo, seus dias, por seus gatinhos que sempre serão amados e que a honraram vindo habitar, pelas mãos de Deus, em seu lar. Vivian, aquela pessoa inconsequente, que dá todos os dias graças a Deus porque a fez esbarrar numa vitrine de uma loja qualquer, ter olhos para poder ver e então ter podido enxergar aquela vidinha fofa que estava ali, e ter naquele momento dinheiro suficiente para comprar e então poder trazer para cuidar junto de seu coração, com todo o carinho, o amor de sua vida: o gato Arnesto.

    Robson Fernando de Souza

    abril 14 2012 Responder

    Olá, Vivian. Me permita esclarecer.

    Em nenhum momento critiquei sua pessoa no texto, ou duvidei do amor que você tem pelos bichinhos que tutela. Pelo contrário, sua história é um exemplo louvável de que é algo extremamente incoerente vender animais de estimação. Os pet-shops vendedores de filhotes os tratam como meras mercadorias, o que nem sempre é o caso de quem compra os bichinhos – você não os trata assim, embora os tivesse comprado.

    Entendo que no teu caso foi mais um caso de resgate pago (aliás, posso até fazer um artigo sobre isso quando tiver um tempo livre), e não um caso de ir a um pet-shop escolher um “animal-objeto” a dedo por quem trocar o dinheiro que tem na carteira. E isso torna ainda mais repulsiva a cultura da comercialização de animais de estimação – não por causa de quem compra, mas porque os pet-shops vendedores de vidas se aproveitam da fofura e das capacidades afetivas e cativantes dos filhotes pra apressar sua compra e faturar em cima do afeto dos filhotinhos e dos próprios seres humanos que desejam alguém, humano ou não, com quem compartilhar sua afetividade.

    Quando você tiver a oportunidade de conhecer os Direitos Animais, ligá-los ao amor que tens pelos bichinhos que tutelas e saber como empresas e pessoas (não o seu caso) tratam os animais não humanos como mera propriedade humana, você verá que essa cultura de trocar dinheiro por animais (e, no caso das lojas, animais por dinheiro) é algo que deve ser abandonado de nossa cultura. Você mesma é um exemplo disso – um exemplo muito positivo – e poderá contribuir muito pra essa causa.

    Desde já, peço desculpas se o texto acabou conotando alguma crítica a você. Porque não é você quem merece a crítica, mas sim a cultura de tratar animais como mercadoria – cultura essa que inclusive explora os sentimentos dos animais domésticos e de pessoas como você.

    Abs

T&T

abril 17 2011 Responder

PARABÉNS! Esta postagem do seu blog foi escolhida para ser publicada numa obra literária que estamos a preparar, caso esteja interessado/a em ceder-nos gratuitamente todos os direitos autorais e literários, será recompensado/a com a inclusão no nosso livro do endereço do seu blog (E o seu nome se assim o desejar). NOTA: Caso esteja de acordo, aguardamos resposta para o e-mail: blogstalentosos@gmail.com

TAZ

abril 11 2011 Responder

É isso, muito bem sintetizado. Impressionante como as pessoas tratam vidas como objetos, como produtos. Como sempre, me vêem a cabeça a cara das pessoas quando eu digo “porquê você não come um humaninho no almoço?”.

Tempos atrás escrevi um artigo para um zine chamado Civilizar Tudo, onde tratava justamente desa questão de tratar os animais como produtos e a grande indústria dos Pets. Suscitou opiniões bem opostas… acontece sempre.

teu blog é um achado.

abxxx

TAZ

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