19

abr11

Folha, veganismo e ambientalismo: você está fazendo isso errado

Nas últimas semanas, a mídia (exceto a entrevista de Mauro Fisberg à Carta Fundamental) pareceu ter dado uma trégua em seus ataques ao vegetarianismo e ao veganismo, depois de ter sido consumada a condenação do casal de veganos franceses acusados de terem negligenciado mortalmente a nutrição e saúde da sua filha bebê. Ledo engano. No último dia 17, a Folha de S. Paulo assumiu a postura ofensiva (em todos os sentidos) no objetivo de queimar e contrapropagandear a alimentação vegetariana-completa – e, de quebra, atacar também o estilo de vida baseado no menor impacto ambiental.

Na reportagem-experiência chamada “Diário de um ecochato”, na página C12 do caderno Cotidiano, um escritor mostrou como foi “complicado” viver quatro dias na pele de um dito “ecologista radical”. Um relato típico de uma pessoa desinformada ou mal informada, que não buscou qualquer informação idônea sobre viver sustentavelmente e alimentar-se com respeito aos animais. Em quatro dias, a construção de um estereótipo risível que teve como efeito depreciar veganos e ambientalistas e reforçar o estereótipo do “ecochato” antissocial e de vida difícil.

Para quem tem pelo menos um mês de experiência no veganismo, ficou óbvio que o escritor deturpou tudo, tal como um manequim mal montado. Não soube planejar a alimentação sem derivados animais. Não procurou auxílio de nutricionista nem dados sobre o valor nutricional dos alimentos. Não soube se informar sobre produtos veganos. Agiu acreditando piamente que veganos só o são se consomem alimentos ou produtos caros a substituir os de origem animal. Desconheceu princípios básicos do veganismo e da própria Nutrição. Sem falar que exagerou substancialmente na sua tentativa de reconstituir um viver de baixo impacto ecológico.

O resultado foi comparável a quando alguém tenta montar um computador sem ter lido antes qualquer instrução: um objeto funcionando muito mal até queimar minutos depois. O escritor sentiu fraqueza e irritação, gastou muito dinheiro desnecessariamente, empreendeu esforços impensáveis mesmo para quem vive com baixa pegada ecológica.

Analisando cada um dos quatro dias da malograda experiência, percebemos como o “autocobaio” incidiu em percepções e ações que nem de longe correspondem ao estilo de vida dos verdadeiros veganos e ambientalistas.

***

1º dia: o sujeito tentou dispensar ações essenciais, como usar o elevador vivendo num andar alto. Escolheu erroneamente um creme dental absurdamente caro, esquecendo que há pastas veganas imensamente mais baratas, como as marcas Contente®, Condor® (gel dental) e Ice Fresh®, cujas unidades de 90 gramas custam entre 90 centavos e 2 reais cada. Pelo que aparenta, desconheceu um princípio fundamental do veganismo: para um produto ser vegano, basta não ter nenhum ingrediente de origem animal nem ser de empresa que testa seus fabricados em animais, nada mais do que isso.

Seu almoço “exclusivamente vegetal”, pelo que parece, longe de ter sido bem planejado, foi um amontoado quimérico e pesado de valor nutricional duvidoso. E o pior, foram associados estados emocionais negativos relativamente fortes a um único dia de refeições diferentes, algo impensável para quem inicia o vegetarianismo emocionalmente preparado. Além de ter manifestado um totalmente desnecessário “medo de falhar”, visto que acostumar-se ao vegetarianismo requer, na maioria das vezes, algumas semanas até o domínio do planejamento e escolha alimentares.

2º dia: pelo que ficou aparente, ele não procurou na internet uma receita de feijoada vegana, tentando ao invés partir para a tentativa-e-erro – esperadamente fracassada. E novamente manifesta impressões negativas sobre a dieta que ele sequer planejou, algumas delas calcadas na pura ignorância sobre os efeitos de uma alimentação vegetariana-completa racionalmente preparada – “será que eu posso ficar burro?”.

3º dia: mais refeições mal preparadas, mais efeitos psicológicos colaterais típicos de quem se “tornou” vegano sem o devido preparo emocional e racional, e o hábito nocivo de se preocupar muito mais com quantidade do que com qualidade em relação ao que come. Além de o ator da “experiência” encarar medidas simples, como não usar lâmpadas de manhã, como se fossem bichos mordedores.

Esse dia trouxe à tona o mito de que vegetarianos dependem de substitutos industrializados da carne e do leite – o homem consumiu hambúrguer e leite feitos de soja, itens nutricionalmente bons mas não indispensáveis. E, pelo que ele deixou evidente, teve uma fetichista crença de que é “necessário” urinar apenas durante os banhos, levando ao pé-da-letra os conselhos de quem supervaloriza medidas individuais secundárias e deixa em segundo plano hábitos de impacto realmente alto, como o próprio consumo de carne.

E no final do dia, mais impressões psicológicas negativas de um despreparado.

4º dia: o abandono da experiência, para a qual ele sequer se preparou. Não sentiu prazer na dieta vegetariana-completa, porque não procurou conhecer nem tampouco se aprofundar na tão diversificada culinária vegana. Engordou, porque valorizou quantidade mas não qualidade. E saiu com a crença de que restaurantes vegetarianos são todos caros, porque aparentemente não fez pesquisa de preços.

E ainda encerrou colocando a fome humana como algo superior e não relacionado aos direitos animais – os vegetarianos sabem bem que a produção de alimentos de origem animal desperdiça quantidade de vegetais suficiente para, uma vez bem distribuída, dar fatura alimentar a todos os seres humanos do planeta.

***

O “diário de um ecochato” foi uma experiência que não deu certo, porque nela foram usados ingredientes errados, em quantidade idem, e procedimentos para lá de equívocos. Porém, a Folha de S. Paulo publicou integralmente o malogro do escritor, desinformando os leitores do jornal mais lido do Brasil, seguindo os rastros de Globo e Veja na até agora fracassada campanha contra o vegetarianismo e o veganismo – e também depreciando os ambientalistas, tanto taxados de “ecochatos” como ligados a um estilo de vida intragável.

Ficou patente nas últimas semanas que, quando aparente ou comprovadamente almeja um objetivo sujo, a imprensa usa um jornalismo igualmente imundo para ludibriar os seus leitores e telespectadores. Erros jornalísticos infantis, descompromisso com a ética, manipulação de fatos, falta de respeito às categorias diretamente atacadas pelas reportagens mitificadoras – no caso, os veganos e os sustentabilistas.

O que consola é que, apesar de todo o esforço da imprensa marrom em tentar desqualificar a nutritividade e praticidade dos hábitos de consumo dos veganos, estes se multiplicam pelo Brasil, ignorando o jogo sujo de quem tenta proteger, intencionalmente ou não, a pecuária, a pesca e a indústria lacto-frigorífica. E os escolhedores do consumo sustentável também vêm se tornando cada vez mais numerosos, a despeito de quem os chama de “ecochatos” e vê seu dia-a-dia como um monstro do armário.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bruno Pinheiro

abril 22 2011 Responder

Parabéns pela excelente análise dessa reportagem manipuladora, Robson!

Continue firme nesse propósito de desmascarar os manipuladores, fazendo-nos (sociedade) enxergar a verdade.

Abração!
Bruno

BÁRBARA DE ALMEIDA

abril 20 2011 Responder

Concordo com a Almeida acima. Será que, antes de publicar, eles não pensam que MTOS/AS veg(etari)anos/as ficariam, no mínimo, envergonhados com tal tratamento imparcial da parte da Folha? Vôti.

Luh Almeida

abril 20 2011 Responder

Vergonha alheira por ele. E decepção, mesmo, com um jornal como a Folha de São Paulo.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo