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abr11

Globo mais uma vez tentando desacreditar o vegetarianismo

Imagem de Bessinha, amigo de Paulo Henrique Amorim, em homenagem à Globo, rainha do PIG

Depois do muito mal explicado caso do casal francês de veganos preso por induzir a filha a uma mortal desnutrição, a mídia brasileira (e também portuguesa) declarou guerra ao vegetarianismo estrito, em especial ao infantil. À luz do infeliz acontecimento, a Rede Globo assumiu o encabeçamento daquela que pode estar sendo a maior campanha midiática de desinformação antivegetariana do Brasil de todos os tempos. No último 2 de abril, sucedendo a matéria do Bom Dia Brasil de 29 de março, o Jornal Hoje reiterou a posição oficiosa da emissora: é contra o vegetarianismo completo, especialmente contra sua extensão às crianças filhas de vegetarianos.

Depois do BDB ter posto três dias antes uma dúzia de questionáveis objeções e veja-bens no caminho dos pais que se perguntam se é saudável suas crianças deixarem de comer carne, o JH negritou a opinião implícita da Globo de que o vegetarianismo seria uma dieta incompleta e insegura e requereria o complemento de alimentos de origem animal, mesmo não cárneos. O que foi expresso por um doutor não identificado (a única forma de tentar identificá-lo seria pelo bordado de sua bata, mas o mesmo é muito pequeno na tela), que veio cheio de alusões a carências vitaminares e indiretamente condenou o veganismo.

Ficou clara quase o tempo todo a maliciosa mensagem implícita de que o vegetarianismo estrito não é seguro, exige cautela e pode acarretar a carência de certos nutrientes. Primeiro quando a repórter Cristina Maia enfatiza que “escolher dietas que excluem determinados alimentos é arriscado”. Segundo quando o anônimo dito especialista afirma que “precisamos de todos os alimentos diariamente” e atira referências à deficiência de vitaminas, relacionando insinuantemente a dieta livre de itens de origem animal à insuficiência nutritiva.

Terceiro quando Maia fala do que veganos e crudívoros excluem de sua alimentação. Tal postura, ao mesmo tempo, “denuncia” o vegetarianismo como uma diminuição e restringimento do cardápio e, menos perceptível “a olho nu”, faz um jogo lógico ligando a “restritividade” vegetariana à ideia anteriormente apresentada de que cortar certos tipos de alimento pode fazer mal.

Quarto quando uma aposentada fala que seu último exame de sangue deu anemia supostamente por ter parado de comer carne e por isso o vegetarianismo teria “reflexos negativos”. Informação essa que, embora muito relevante para uma população preocupada, não inspirou à reportagem qualquer aprofundamento ou busca de esclarecimentos sobre ela e foi irresponsavelmente deixada por isso mesmo, acordando o velho mito de que os vegetarianos sofreriam mais de anemia do que os onívoros.

Quinto quando o anônimo de bata “explica” que os únicos substitutos possíveis da carne seriam alimentos também de origem animal – leite e ovos – e que o ferro heme, exclusivo de itens animais, seria o único ferro bem aproveitado pelo organismo humano. Ou seja, para ele, a ideia de se tornar vegetariano estrito ou vegano é biologicamente errada e deve ser abandonada.

E, falando na participação de um “especialista” na reportagem, deve-se notar que ela incidiu em velhos pecados jornalísticos bastante frequentes na imprensa antivegetariana que temos:

a) não ouvir uma segunda opinião especializada, omitir quem se dedica especialmente ao outro lado;
b) não apresentar informações de relatórios científicos de instituições dedicadas à disciplina científica em questão – no caso, a Nutrição;
c) não procurar estatísticas que corroborem a posição exposta na matéria – por exemplo, a incidência de anemia em onívoros e em vegetarianos ou a porcentagem de vegetarianos e de onívoros que sofrem de hipovitaminoses;
d) escorar a “confiabilidade” das informações da reportagem à autoridade do “especialista” entrevistado – falácia magister dixit.

No final, retome-se as três questões que Poliana Abritta, a apresentadora do Jornal Hoje desse dia, levantou antes de passar para o VT:

O que comem os vegetarianos? A única informação que temos é o que Cristina Maia aponta – um prato colorido e bem diversificado – e o que a pequena Letícia diz – arroz, salada, grão-de-bico, ervilha. Nada mais fora os alimentos expostos na mesa do doutor anônimo – que inclui leite, ovos e até carne de peixe (!). Nada sobre o café-da-manhã, o jantar e os lanches intermediários. No final, não se sabe direito o que, afinal, os vegetarianos comem. Mas é relativamente bem identificável o que alguns não comem – “proteína animal”.

A dieta pode ser seguida por qualquer pessoa? A reportagem acaba sem que o telespectador saiba a resposta.

Quais são os alimentos que substituem a carne? A matéria responde, através do doutor não identificado, que seriam apenas outros alimentos de origem animal. Omite, numa maliciosa preguiça, que uma alimentação vegetal decentemente diversificada mais o suplemento de B12 são mais que suficientes para substituir totalmente a carne.

No final das contas, percebemos como parte significativa e poderosa da imprensa vem se mobilizando para desacreditar o vegetarianismo completo perante a sociedade e proteger a indústria da exploração animal da crescente população vegetariana. Reportagens antivegetarianas como a analisada acima, muito embora sejam precárias de qualidade e facilmente desmascaráveis mesmo por quem nunca fez uma faculdade de jornalismo, acabam influenciando uma população leiga que, não sabendo procurar informações mais profundas e especializadas, termina por aceitar o que as Globos e Vejas da vida vociferam.

O dano desinformativo na opinião pública está feito, apesar das críticas. Mas felizmente é temporário e insuficiente para deter a médio e longo prazo o crescimento do número de vegetarianos e veganos no Brasil.

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