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Globo: vegetarianismo infantil? Talvez, cuidado, veja bem, atenção, olhe lá, se ligue…

Imagem de Bessinha, amigo de Paulo Henrique Amorim, em homenagem à Globo, rainha do PIG

No Bom Dia Brasil de 29 de março passado, pela primeira vez a Rede Globo rodou uma reportagem sobre vegetarianismo dedicando um espaço de tempo razoável a um especialista em nutrição vegetariana. O que proporcionou aos telespectadores, mesmo a muitos daqueles mais atentos, a agradável aparência de que a emissora estaria finalmente se portando com imparcialidade para com a alimentação sem carne. Mas não foi dessa vez que a sensatez prevaleceu, visto que os velhos vícios e manipulações da mídia relacionados ao vegetarianismo permaneceram: os poréns, os “veja bem”, as recomendações de cautela, as ressalvas, a sinalização de perigo, a pintura de um modelo alimentar incompleto, frágil e sensível, o plantio do medo e da insegurança.

Eric Slywitch, um dos mais prestigiados e renomados nutricionistas vegetarianos do Brasil, um dos dois mais conhecidos da área no país ao lado de George Guimarães, bem que tentou fazer a diferença, equilibrar a balança global da imparcialidade, visto que teve direito a um tempo bem razoável na matéria. Explicou alguns dos diversos benefícios do vegetarianismo para as crianças e como fazer um prato nutritivo.

Mas parou por aí. Fora a maior parte da fala dele e da vegetariana mãe de vegetariano Rosana Bastos, o restante foi dedicado aos velhos poréns e amedrontamentos que afastam os onívoros de mente aberta da decisão definitiva de se tornarem vegetarianos.

Logo no começo da reportagem, diz-se que “as crianças precisam de nutrientes que nem sempre uma dieta vegetariana pode fornecer”. Ou seja, para a Globo a alimentação vegetariana não é uma fonte completa de nutrientes, o que é decisivo para torná-la alvo de rejeição prévia por parte do telespectador. A suplementação de vitamina B12, único nutriente não encontrado naturalmente nos vegetais, não é considerada parte da dieta pela emissora.

E é justamente quando se fala de B12 que mesmo o conselho de Slywitch é “torcido”. Sua declaração de que “principalmente para quem não usa nenhum derivado animal, a vitamina B-12 é uma suplementação que deve ser feita para as crianças vegetarianas” é espertamente precedida da ameaça, proferida pelo repórter mas atribuída ao próprio Slywitch, de que “a dieta vegetariana pode levar à carência de vitamina B12, essencial para o organismo e presente em ovos e leite”.

A suplementação de cobalamina acaba demonizada pela reportagem, tornada um incômodo corpo estranho na alimentação das pessoas. Mesmo numa realidade em que os próprios onívoros indiretamente se suplementam com iodo adicionado ao sal marinho e com ferro e ácido fólico acrescentados aos macarrões e alguns farináceos. E sequer se diz como se suplementa a B12, omite-se que existem a via oral (comprimido diário ou semanal) e a intramuscular (injeção semestral ou anual). Sem se familiarizar com a suplementação de B12 – visto que não há ainda o enriquecimento industrial em massa e obrigatório de alimentos com a cobalamina –, há a rejeição quase automática ao vegetarianismo.

As ameaças e os veja-bens continuam com a palavra do pediatra Clóvis Constantino, que declara que “os micronutrientes, como o ferro e o zinco, são muito mais aproveitados se forem de origem animal. É claro que é muito melhor nós ingerirmos nutrientes dos alimentos saudáveis do que vindo dos laboratórios da indústria farmacêutica”. Ele insinua erroneamente que o vegetarianismo exige a suplementação também de ferro e zinco, como se fossem encontrados em quantidade insuficiente nos vegetais.

E um detalhe muito, muito importante na reportagem é que quase não há uma dialética equilibrada e saudável entre os dois lados mostrados. Constantino não rebate diretamente Slywitch – muito embora dê uma mais que notável indireta (“Owned!”, diria o meme da internet) contra a proposta de suplementação de B12 ao dizer que “é muito melhor nós ingerirmos nutrientes dos alimentos saudáveis do que vindo dos laboratórios da indústria farmacêutica”. Nem Slywitch tem o direito de retomar a palavra para, enquanto defensor do vegetarianismo para todas as idades, contestar o que Constantino disse. O fraco mas notório e desleal confronto entre as ideias concorrentes acaba vencido pelo lado que questiona a sustentabilidade da alimentação sem carne para crianças, visto que ninguém mais na matéria nega os pedidos de cautela e as objeções antivegetarianas.

Acaba-se a obra jornalística com Carla Vilhena dando o veredicto: “Uma coisa é certa: os pais só podem fazer os filhos seguirem uma dieta vegetariana depois de consultar o pediatra e sempre com um acompanhamento rigoroso do médico.” Não sem um (pen)último tiro da artilharia antivegetariana: Carla afirma que o ferro “é encontrado em vegetais, como o espinafre, por exemplo, muito menos do que na carne” (grifo meu).

Ou seja, é difícil se tirar uma conclusão consistente a favor do vegetarianismo. É muito mais fácil rejeitá-lo e abraçar a carne com mais paixão ainda, diante das tantas objeções que nem o defensor do vegetarianismo Eric Slywitch pôde negar durante a reportagem (porque no ar não teve oportunidade para tal). Ainda mais com a perspectiva de ter que submeter seus filhos a rigoroso acompanhamento pediático, como se fossem portadores de diabetes, de hipertensão ou de alguma doença ou disfunção de ordem nutricional.

“Pra que cortar a carne dos meus filhos se eu vou ter que ficar levando-os ao pediatra direto como se fossem doentes necessitantes de observação? Pra que fazer isso, dar-lhes uma dieta que vai requerer uma penca de nutrientes suplementados fabricados em laboratório? Que não lhes dá ferro e zinco em quantidade segura? Que exige que eu monte seus pratos tal como se tivesse fazendo uma escultura difícil? Eles já vivem muito bem como estão, e nem precisam desse cuidado médico todo que Carla Vilhena enfatizou no final. Então, o mais sensato é eles continuarem como estão, comendo a boa carne.” – essa é a mais provável conclusão de uma mãe ou pai sobre o que a Globo mostrou.

A Globo bem que tentou usar uma máscara de imparcialidade mais bonitinha e convincente do que de costume, mas não deixa de condenar o vegetarianismo, impondo-lhe dezenas de vírgulas, poréns, sinais de atenção, objeções, ressalvas, amedrontamentos quando finge estar finalmente apoiando uma alimentação livre de crueldade contra animais. Portanto, fica a dica: não confie na Globo quando ela abordar o vegetarianismo, nem quando ela puser a falar vegetarianos renomados como Eric Slywitch.

imagrs

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Zeus

abril 2 2011 Responder

Cara, eu te admiro!

Tu conseguiu pegar os detalhes e as entrelinhas de como a reportagem foi tendenciosa, e que faz as pessoas nem prestarem atenção mas ainda aceitarem como verdade, mesmo que inconscientemente, a opinião do jornal.

Eu visito seu blog de vez em quando, não sou vegetariano, mas gosto de passar alguns dias do mês neste regime. Acho muito interessante as idéias que você expõe, e a qualidade da informação.

É triste ver que as maioria das pessoas ainda não estão preparadas e dispostas a digerir informações deste nível, o que torna difícil fazê-las entender e buscar mais informações a respeito.

Mas ainda sim tem muitos interessados e dispostos a tentar diferente.
O mundo está mudando, e os autores da mudança são quem busca fazer diferença no mundo.

Abraços.

    Robson Fernando de Souza

    abril 2 2011 Responder

    Valeu, Zeus, pela admiração =)

    Abs

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