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abr11

Na internet, Suape enrola sobre o que faz em prol do meio ambiente

 

Essa é a sustentabilidade do Porto de Suape? (obs.: A imagem não é lá de Suape, mas poderá ser reproduzida lá em breve.)

Apesar de estar ameaçando diretamente um dos maiores estuários de Pernambuco e sendo conhecido por não compensar desmatamentos muito menores, o Complexo Industrial-Portuário de Suap, em seu site, tem uma seção de sustentabilidade e meio ambiente. Um texto bem pequeno, como é de se esperar, e de argumentação frágil.

Em 21 curtas linhas, está toda uma tentativa de convencer o internauta de que o porto teria uma postura pró-sustentável e respeitaria o meio ambiente. Nesse pouquinho texto que mal enche uma página de editor de texto com fonte tamanho 18, tenta-se enganar quem está por fora da maior ameaça de desmatamento litorâneo “legal” da história pernambucana e do comportamento ali recorrente de não compensar devastações de pequeno porte.

Vale comentar parte por parte a fragilidade desse pequeno texto, o qual pode ludibriar pessoas mais incautas mas não pega quem é bem informado e tem noções básicas de sustentabilidade.

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“O Complexo de Suape estrutura um crescimento em bases sólidas e com vistas ao futuro para essas e para as próximas gerações. Adota, desde sua criação (ainda na década de 70), uma política preventiva, construtiva e de compensação ambiental. Dos seus 13,5 mil hectares, 45% são destinados à preservação do meio ambiente.”

O site não prova o que diz. Nenhum mapa, nenhuma descrição detalhada dessa política. Não sabemos onde se situam esses 45% supostamente preservados dos 135km² de Suape, nem em qual categoria de unidade de conservação (vide Lei Federal 9.985/2000) se enquadra essa área. Além disso, três perguntas se fazem necessárias:

Primeiro, por que o estuário do rio Ipojuca (à exceção da área ciliar do baixo Rio Merepe), importante berçário de vida marinha e fluvial, elemento importante na dinâmica marítima local (região metropolitana do Recife e litoral sul), não está incluído nessa relativamente grande suposta área de preservação? Por que, ao invés, toda a zona estuarina central está condenada à devastação graças à Lei Estadual 14.064/2010? Que consistência tem uma “política ambiental” a empreender preservação seletiva, cuidando de áreas terrestres mas excluindo, jogando à destruição, ecossistemas estuarinos, litorâneos e marinhos situados dentro da jurisdição do complexo?

Segundo, se essa tal política de compensação ambiental existe desde a criação legal de Suape lá na década de 1970, onde está a área compensada de mangue, restinga e recifes correspondente aos cerca de 600 hectares de vegetação destruídos na primeira terraplenagem do porto feita nos anos 80 e ao arrecife natural local que foi parcialmente dinamitado na mesma época para passagem dos navios?

Terceiro, o que os burocratas de Suape têm a dizer desse documento da CPRH, datado de 2010, que denuncia que as devastações feitas em Suape não são compensadas?

“Nos últimos anos, a preocupação em manter esse percentual só aumentou. Dentro de seu programa de sustentabilidade, Suape implanta e desenvolve os Programas Básicos Ambientais (PBAs); realiza o plantio de mudas nativas da Mata Atlântica, o diagnóstico e o reflorestamento de áreas degradadas e recolhe e trata os resíduos sólidos por meio de um Centro de Triagem instalado na zona portuária.”

Novamente, nada de descrições, detalhes, provas, mapas. O que são os tais Programas Básicos Ambientais? O que fazem, em que consistem? Onde se localiza esse centro de triagem de resíduos sólidos? E também: o que adianta Suape plantar mudas de Mata Atlântica se, às escondidas, destrói dezenas ou centenas de hectares de mangue e restingas a cada ano?

E o controle de poluição por efluentes líquidos? O que dizer da termelétrica que despeja(va) direto no mar água quente e poluída, matando a vida marinha local, caso esse a que o próprio IBAMA fez vista grossa?

“Para promover a consciência ecológica dos moradores das comunidades e dos colaboradores das mais de cem empresas do Complexo, Suape criou o Programa de Educação Ambiental (PEA); nos moldes do Programa Ambiental das Nações Unidas [sic], os cursos relacionam desenvolvimento econômico, conservação ambiental e recuperação dos recursos naturais do Complexo. Junto a isso, a construção de um Centro de Tecnologia Ambiental (CTA), em parceria com a Petrobras, integrará as atividades de proteção ambiental às atividades socioeconômicas e educacionais em desenvolvimento.”

Seria pedir demais, mas bem que poderíamos saber como essa educação ambiental do PEA se dá, que definições e representações sociais de meio ambiente utiliza, como trata as relações entre o ser humano e o meio silvestre, como vê o meio natural, se advoga em favor do mero conservacionismo tradicional ou defende uma relação bem mais dinâmica entre humanidade e ambiente, como define a ética ambiental, se utiliza inter e transdisciplinaridade, como se conecta com outras disciplinas (História, Geografia, Ciências Naturais etc.), se tem uma visão mecanicista ou holística da Natureza, que conceito de sustentabilidade usa…

E bem que poderiam deixar na página um link para a lista desses tais parâmetros de Educação Ambiental estipulados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, não PANU), para não parecer uma enrolação que usa o nome de uma instituição internacional para parecer impressionante e convincente.

Outro detalhe é que, pelo que se vê entre os moradores das comunidades mais próximas do porto, pelo menos em Tatuoca, não se vê nenhum programa de Educação Ambiental, mas sim a intenção de expulsá-los da terra cujos antepassados já habitavam no século 19, promessas vazias e materialmente irrisórias de quem quer desgarrar aquela gente de seus laços com a natureza local.

Em seguida, nos deparamos com a promessa do CTA, sem data, sem localização, sem detalhes de seu futuro funcionamento, sem nada sobre como anda a licitação ou a obra no presente momento. Apenas uma promessa sem muita descrição, aparentemente colocada ali apenas para apaziguar a opinião pública de modo a parecer que Suape respeita a Natureza.

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O pequeno informativo sobre a suposta – e extremamente questionável – sustentabilidade de Suape bem que tenta enrolar, mas acaba caindo diante de uma análise sucinta. Fica a demanda para os burocratas do complexo industrial-portuário melhorarem muito o texto, acrescentarem muito mais conteúdo, se quiserem passar uma imagem melhorzinha do que estão (supostamente) fazendo em prol do meio ambiente.

Mas, mesmo que refaçam a página, algo jamais vai ser esquecido, nem perdoado: a irreversível destruição de quase 7 quilômetros quadrados do estuário do Ipojuca.

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