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[OFF] Recife, centro de quem?

Clique na foto e vai ler uma notícia sobre a mentira da Prefeitura do Recife. A prefeitura prometeu deixar os camelôs trabalharem onde estavam até a praça de alimentação ficar pronta, mas descumpriu e expulsou HOJE os trabalhadores de seus lugares. Foto: Alexandre Gondim/NE10

O tal do projeto “Recife Nosso Centro” nos deu duas lições. Primeiro, João da Costa, embora seja do centro-esquerdista PT, é um prefeito de direita, segue uma ideologia direitista de repressão a trabalhadores pobres e promoção “higiênica” da “ordem”, seja ela física ou social; é uma versão recifense malfeita de Gilberto Kassab. Segundo, subemprego, trabalho informal, no Recife é caso de polícia, não de política pública socialmente inclusiva.

Desde o começo do ano, os comerciantes ambulantes do Centro do Recife vêm sofrendo a opressão da expulsão por parte da prefeitura da cidade, e nem todos são alocados nos tardios e aparentemente improvisados programas de qualificação e regulamentação. Apenas alguns têm a sorte de serem encaixados em cursos profissionalizantes e espaços regulares. Os restantes, como disse um agente repressor do Estado, “vão ter que correr atrás” – ou seja, que se virem, se danem para lá.

Tudo acontece muito antes que se chegue a qualquer acordo entre os camelôs e a prefeitura. Mesmo com a negociação em andamento, ou mesmo quando não há nenhuma negociação prévia sequer, os fiscais municipais e a polícia são acionados para fazer valer a tal da “ordem”, aquela que deixa a cidade calma e organizada às custas dos mais pobres, aquela que se põe em vigor mediante higienização social.

João da Costa, famoso pela sua alta taxa de desaprovação e por mal conseguir realizar as manutenções básicas mínimas na infraestrutura urbanística da cidade, segue a escola de Kassab, o opressor de São Paulo capital. Além de promover medidas coadjuvantes para tentar alegrar a população, como o combate à poluição visual – o que na prática é quase a proibição total de se ter fachada nas lojas –, trata a pobreza e informalidade dos trabalhadores ambulantes como caso de polícia, de repressão, como algo que pode ser resolvido na força, na porrada. Não como questão de políticas públicas de inclusão socioeconômica.

Ou seja, para o governo petista de direita que administra o Recife, o pobre, o informal, o camelô, incomoda, enfeia a cidade. Suas barracas e fiteiros sujam a urbe. É um estorvo que tem que ser varrido para fora do centro, de modo que as classes média, média-alta e alta tenham de volta o gosto de andar a negócios pelos velhos bairros.

A política de exclusão sociourbanística se comprova pelos relatos dos informais, que são notificados para saírem dali sem qualquer proposta prévia de qualificação e profissionalização. Sem alguma chance de negociar com tranquilidade um novo lugar para trabalhar. Sem nenhuma promessa de inserção no mercado formal. Muitos, não tendo para onde ir comerciar, acabam, no ato da expulsão, tendo destruído seu único ganha-pão pelos fiscais e policiais e sendo jogados ao absoluto desemprego – agravado pela falta de qualificação profissional e pela instrução educacional reduzida de grande parte.

Recife deve adotar uma política de ordenamento urbano sim. Mas nunca deveria fazê-lo sem uma proposta paralela de inclusão socioeconômica dos ambulantes a serem afetados. Não é o que está acontecendo no velho centro. Estamos vendo ali uma regulamentação apenas parcial, improvisada, feita na má vontade, e ainda acompanhada de constrangedora coação autoritária vinda da fiscalização municipal e da polícia.

A saber: isso já aconteceu com outros setores informais no passado recente (década de 2000): os comerciantes da praia de Boa Viagem, que também foram constrangidos à expulsão mas hoje continuam lá após a orla, à parte de qualquer política de qualificação e embelezamento, e os kombeiros, parte dos quais acabaram excluídos da inserção no sistema complementar de transporte público municipal.

Uma cidade que é “limpa” porque expulsou trabalhadores de sua área poderá se tornar esteticamente admirada, mas sempre será moralmente imunda. E, inexoravelmente, direita política e “ordem” não combinam com igualdade e justiça social.

Recife, centro de quem? Nosso, pertencente a nós o povo, definitivamente não é.

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