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abr11

Público.pt contra o veganismo: mais desinformação e terrorismo

O terrorismo contra o vegetarianismo, o veganismo e os direitos animais não é nenhuma novidade, nem tampouco é exclusivo do Brasil. O mais recente ataque difamatório direto contra a alimentação sem animais veio de Portugal, numa reportagem do portal Público.pt que deixa até a revista Veja parecer mansa, intitulada “Associação de Nutricionistas alerta para perigos (sic) de dieta vegan”. Foi inspirada na recente prisão de pais vegetarianos fanáticos acusados de levar sua filha bebê à morte por desnutrição. Erros primários, desinformação e confusão são as palavras-chave de mais um factoide a tentar destruir a reputação de um dos hábitos alimentares humanos mais saudáveis existentes.

Assim como a maioria das difamações “jornalísticas” e “científicas” contra o veg(etari)anismo, a matéria é centrada numa única personagem: Alexandra Bento, presidenta da Associação Portuguesa de Nutricionistas. Mais ninguém. Nenhuma segunda opinião, nenhum especialista em nutrição vegetariana. Nenhuma referência a qualquer pesquisa científica ou parecer oficial de instituições nutricionais. Nem mesmo relatórios que pudessem concluir que o vegetarianismo completo inspirasse cautela apareceram. Apenas argumentos sem referência, cuja “confiabilidade” é totalmente escorada na falácia do apelo à autoridade.

Entre as diversas declarações desprovidas de fonte científica, estão:
– A dieta vegan não é recomendável a crianças e os próprios adultos que a queiram seguir devem realizar análises periódicas ou tomar suplementos alimentares, para suprir carências, alertou a hoje a Associação Portuguesa de Nutricionistas [na matéria, personificada e centrada na figura de Alexandra Bento].
– [A alimentação vegana] É mais restritiva do que uma alimentação vegetariana. Além disso, depois há deficiências de determinados nutrientes, nomeadamente vitaminas do complexo B […]
– Num regime vegan, exclusivamente de vegetais, há “uma deficiência muito grave em termos de nutrientes” que pode resultar “num desfecho terrível [sic]” […]
– A falta de vitamina B12 é “logo expectável” nestas condições, explicou a nutricionista portuguesa, acrescentando [quebra de coesão] que a vitamina A está associada à gordura e só entra no organismo se entrarem alimentos com alguma gordura.
– A especialista recordou que a alimentação é “um todo”, em que “todos os alimentos” devem ser misturados para cumprirem a sua função.
– […] um adulto sabe que um regime deste género “incorre em carências” que tem de suprir de outra maneira (com suplementos), o que “parece quase um contra senso”.

Tenta-se instaurar o pânico ao se tentar mostrar supostos aspectos alarmantes da alimentação vegana. O veganismo infantil é condenado por Alexandra, baseando-se ela unicamente na morte da menina Louise, a bebê desnutrida que bombou nos noticiários no final de março. A necessidade de se suplementar vitamina B12 é extrapoladamente transformada em uma “deficiência de vitaminas do complexo B”. Nem mesmo se fala da origem específica (carne vermelha? Fígado? Ovos? Carne de peixe? Laticínios?) dos tais nutrientes que supostamente faltam nos vegetais.

Coloca-se a vitamina A sem nenhuma associação relevante com o vegetarianismo completo – diz-se que vem de alimentos com gordura, mas em nenhum momento a própria notícia diz que ela seria exclusivamente de origem animal (o que não é verdade, visto que vegetais alaranjados, tomates, brócolis, espinafre etc. possuem carotenoides capazes de se converter em vitamina A no organismo).

No geral, insiste-se, sem qualquer informação aprofundada ou solução, no velho mito de que alimentos de origem animal seriam “fundamentais” para a saúde humana, o que milhões de pessoas ao redor do mundo desmentem com seus próprios corpos.

O mais irônico da notícia é que a fonte única da matéria afirma: “Basearmos as nossas decisões só num acontecimento é lamentável porque estas pessoas de certeza que são seres sociais e esclarecidas”. O que torna a notícia risível quando percebemos que Alexandra despejou suas afirmações tomando por base um único acontecimento – o caso da bebê Louise. Ela atira no próprio pé com fuzil.

E para complicar mais ainda a veracidade da reportagem, a frase seguinte encerra-a: “Alexandra Bento afirmou não ter conhecimento de outros casos com estes contornos, mas admitiu que existam.” Ou seja, ela própria assume: nunca viu uma bruxa fora do caso Louise, mas que elas existem, existem.

Estamos diante de mais um caso de jornalismo desinformativo, empreendido apenas para destruir, não para melhorar ou esclarecer. Evitou-se mostrar com profundidade aos veganos qual é a melhor solução para uma alimentação saudável, restringindo-se à superficial e confusa afirmação de que “a alimentação é ‘um todo’, em que ‘todos os alimentos’ devem ser misturados para cumprirem a sua função” (será que carne humana, carne de cachorro, leite de porca e insetos fritos se incluem nesses “todos”?).

Ainda se tenta desqualificar o vegetarianismo, completo ou incompleto, como uma alimentação saudável, usando-se de várias táticas, incluindo terrorismo psicológico, semeio de medo e recorrência a “autoridades” nutricionais, para atingir os indecisos e menos informados. Mas felizmente a grande maioria desses factoides não resistem a uma análise lúcida e relativamente simplificada mesmo de pessoas que nem sonham em trilhar o caminho do jornalismo profissional.

“News fails, because journalism isn’t dying fast enough.”
Slogan do antigo blog humorístico Probably Bad News, hoje incorporado ao FailBlog.org

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