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maio11

Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada (Parte 2)

Ler Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada (Parte 1)

Discriminação e violência ao vivo (incluindo na escola)

São muito frequentes os casos de descrentes que sofrem diversas formas de violência de quem não tolera sua não crença nem respeita seu direito à mesma. O tipo mais comum é a dissensão familiar, na qual os pais religiosos fanáticos (ou apenas o pai ou a mãe) investem-se em brigas sérias, muitas vezes violentas, com seus filhos quando desconfiam ou descobrem que deixaram de acreditar em divindades ou quando eles assumem sua descrença.  Nada raro é ver pais assim expulsando o filho ateu de casa, mesmo quando este não criou qualquer condição de se emancipar.

A discriminação familiar também pode vir de forma menos radical, mas ainda assim em tom muito reprovatório. Ocorre quando o pai ou a mãe ou ambos dizem ao filho que lamentam, reprovam e/ou repudiam seu ateísmo, fazem sermões repreensivos ou mesmo os castigam ou lhes cortam direitos. Há também casos frequentes em que o parente ou familiar tem o costume de assediar a pessoa, cutucando-a regularmente por não acreditar em um deus e lembrando-a de que “Deus existe”, não importando se o assediador sempre perde nas argumentações sobre existência ou inexistência do seu deus.

Nas escolas, pode vir na forma exclusiva, no ensino religioso ou por bullying. Na primeira, a própria instituição estabelece regras arbitrárias que punem quem não se matricula na disciplina religiosa – o que é ilegal perante a Constituição e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – e/ou não acompanha as práticas religiosas regulares da escola, como rezar o Pai Nosso antes do começo da aula ou participar das atividades religiosas anuais do educandário.

Dentro desse ensino religioso, na maioria das vezes ministrado de maneira confessional e proselitista a despeito da lei, é recorrente a pregação do puro preconceito contra ateus. Disse Debora Diniz à revista Istoé, sobre diversos livros didáticos de religião:

“[Em grande parte desses livros h]á equívocos históricos e filosóficos, como a associação de Nietzsche ao nazismo. As pessoas sem Deus são representadas como uma ameaça à própria ideia do humanismo. É muito grave a representação dos ateus. Isso pode gerar desconforto entre as crianças cujas famílias não professem nenhuma religião. Já que, nos livros, elas estão representadas como aquelas que mataram Deus e associadas simbolicamente a coisas terríveis, como o nazismo.”

Já o bullying ateofóbico – algo, a saber, ainda quase não discutido no Brasil – ocorre quando a criança ou o adolescente é hostilizado ou mesmo agredido fisicamente por um ou mais colegas aderentes de uma mesma denominação religiosa.

Variante desse bullying, há também o risco, também pouco visado pelas universidades, de se sofrer violência na rua por ser conhecidamente ateu. É parecido com a violência homofóbica, que mata lésbicas e gays simplesmente por serem homossexuais, por não partilharem da mesma orientação sexual da maioria.

De tão pouco relatados, denunciados e discutidos nos meios de comunicação – inclusive na internet –, pode-se suspeitar que o bullying e a violência de rua dirigidos contra ateus talvez nem existam ainda no Brasil. Mas deve-se denunciar a possibilidade de virem a acontecer no futuro, a qualquer momento. Portanto, este artigo antecipa o alerta para esses crimes, se já não escancara uma realidade presente.

 

Ateísmo como fator para o suicídio político

O preconceito antiateu em que grande parte da sociedade se mergulha tem consequências também políticas. Hoje em dia um político declarar-se ateu é decretar o encerramento de sua própria carreira política, visto que não conseguirá mais se eleger para nada.

Pesquisa da Veja e CNT/Sensus de 2007 dizia que apenas 13% dos brasileiros votariam num ateu. Em 2010, um levantamento da Fundação Perseu Abramo revelou números menos ruins, mas ainda muito negativos contra os descrentes: somente 20% dos brasileiros disseram que poderiam votar, sem impedimentos, num ateu, enquanto 77% dificilmente ou jamais confiariam seu voto a um descrente.

Ou seja, ateísmo é visto por uma preocupante maioria como algo que tornaria os políticos potenciais crápulas. Não lhes é apenas a ausência de crença em divindades: é-lhes um atestado de perversão moral, que impede o ser humano de ser bom, ético e generoso e, portanto, inabilita qualquer pessoa para assumir um mandato político.

 

Quando até o Estado dito laico exclui os ateus

Muitas vezes o discurso do Estado brasileiro de respeito às crenças acaba excluindo os ateístas. Diversas declarações partem do pressuposto de uma opção religiosa, não citando quem não optou por nenhuma religião ou divindade. São poucas aquelas que citam quem não professa uma crença religiosa ou quem não crê em nenhuma deidade.

O exemplo recente de maior destaque é o (inativado) Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que, apesar de pregar a laicidade e o respeito a todas as crenças, marginaliza a ausência de crença, trazendo apenas referências genéricas a “pessoas sem religião” – entre as quais se incluem milhões de irreligiosos que acreditam em uma divindade suprarreligiosa, muitas vezes pós-cristã –, conforme denuncia Marcelo Druyan:

O decreto do presidente Lula comete o erro primário de confundir Estado Laico com Estado Ecumênico. Substitua-se a palavra “laicidade” do título pela palavra “ecumenismo” e todas as alíneas milagrosamente ganham sentido.
Não há uma só menção à não crença ou aos não crentes! Todo o conteúdo do item parte do pressuposto de uma opção religiosa.

Outro caso, menos notório mas bastante emblemático, foi a sessão especial do Senado de 19 de novembro de 2010, dedicada à solidariedade dos parlamentares a vítimas de preconceito e discriminação, mas que excluiu os ateus em termos de representatividade – representantes de religiões estiveram presentes, mas nenhum delegado das pessoas sem religião.

 

Nem as outras minorias se solidarizam com os ateus

A maioria das minorias costumam receber a franca solidariedade de militantes de outros grupos minoritários e de ONGs defensoras dos direitos humanos. Já os ateus, nem isso. São raros aqueles militantes LGBT, negros, feministas, de religiões minoritárias (como as afro-brasileiras) etc. que declaram apoio explícito à minoria ateísta. E frequentemente flagramos eventos pró-tolerância que excluem ou minimizam o ateísmo e a irreligião.

Mesmo entidades importantes de luta contra a intolerância religiosa partem do pressuposto de ter uma religião, reduzindo o ateísmo, ou mesmo a irreligião a lato senso, à marginalidade. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, por exemplo, tem como lema Liberdade religiosa: eu tenho fé! (negrito meu) – o que moralmente exclui pessoas desprovidas de fé religiosa, descrentes em divindades.

A mesma entidade, além disso, não conta com entidades de ateus em seus quadros e clipou no passado uma reportagem bastante tendenciosa da conservadora revista Veja jogando fé e descrença uma contra a outra – com o sugestivo título Como a fé resiste à descrença. Esses detalhes não impedem ateus de participarem de suas passeatas, mas eles acabam reduzidos a personagens secundários da luta contra a intolerância religiosa.

Um outro fato que evidencia o isolamento ateísta dentro do próprio universo de minorias e de defensores dos direitos humanos é que, no caso do virulento preconceito manifestado por José Luiz Datena na TV em 27 de julho de 2010, nenhuma ONG de direitos humanos nem de qualquer outra minoria se solidarizou com os descrentes na ocasião.

 

Mais uma estatística sobre ateofobia no Brasil

Uma outra pesquisa da Perseu Abramo, de 2008, mostra que os ateus são mais discriminados e odiados do que qualquer outra categoria, mais até do que consumidores de drogas pesadas. 17% da população sentem repulsa e ódio pelos ateístas e 25% são antipáticos contra eles, num total de 42% de aversão. Isso enquanto os usuários de drogas recebem a antipatia de 24% e a repulsa de iguais 17% da sociedade.

 

Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada (Parte 3)

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