08

maio11

Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada (Parte 3)

Ler Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada (Parte 1)
Ler Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada (Parte 2)

Quando os próprios ateus “aceitam” ser preconceituados e discriminados

Por incrível que pareça, uma parte mais que significativa, senão a maioria, dos ateus são indiferentes ao preconceito e à discriminação que sua própria categoria sofre. Não tomam para si quando religiosos intolerantes declaram ódio, nojo e outros sentimentos repulsivos à generalidade dos descrentes no Twitter, quando cantores gospel declaram a imoralidade e depressão de uma vida “sem Deus” – e inspiram muitas vezes os fãs a adotar ou reforçar essa crença preconceituosa – ou quando celebridades ou pessoas públicas condenam o ateísmo ou os ateus.

Pelo que se pode observar em fóruns de discussão ateístas e em blogs que abordam o ateísmo, muitos irrelevam as ofensas e discriminações vindas dos ateofóbicos porque estes não falariam a mesma “linguagem” dos ateus, visto que creem e agem muito mais pela emoção fanática do que pela razão ponderada, ao contrário dos descrentes. Outro motivo pensado é que esses intolerantes já são “queimados” perante a sociedade secular por nutrirem uma série de outros preconceitos, como a homofobia e a intolerância religiosa, e desprezarem a ciência quando esta questiona os mitos bíblicos.

Pensando na máxima “O que vem de baixo não me atinge”, essa parcela grande, senão majoritária, de ateus trata com indiferença as vociferações discriminatórias vindas das igrejas e dos seus frequentadores. Ignoram, porém, que a ateofobia desimpedida e impune vinda de uma coletividade nada desprezível pode estar guardando consequências nefastas inesperadas para o futuro dos ateístas brasileiros.

Não se sabe até que ponto a ateofobia de hoje em dia pode avançar, se ela tende a permanecer estável ou a aumentar a níveis que inspirarão alertas vermelhos, se é apenas arranque de carro velho ou uma ameaça de verdade. Além disso, ateus hoje não possuem menos direitos que pessoas de outras religiões no Brasil, visto que a Constituição Federal prevê liberdade de crença, nela incluída a não crença, e separação entre religião e Estado. Por isso a indiferença de tantos ateus perante as ofensas preconceituosas e discriminações atiradas pelos religiosos intolerantes.

Sobre esse comportamento de apatia, vale dedicar algumas críticas que devem ser levadas em consideração:

Nessa tradição de ignorar o cenário brasileiro de ateofobia, pensa-se apenas no imediato, na irrelevância de uma injúria religiosa dirigida por um fundamentalista contra um ateu, ou na mentalidade defeituosa, fanática e distorcida de uma banda gospel que afirma que os descrentes são depressivos e incapazes de uma relação companheira com os cristãos.

Ignora-se, por outro lado, o alto risco de um conjunto enorme de declarações preconceituosas, que abrange desde (milhares de) tweets semianônimos até discursos de apresentadores e políticos na televisão, associado à omissão do Estado e de ONGs defensoras dos direitos humanos, provocar ações violentas mais enérgicas a longo prazo, como agressões físicas e até assassinatos de descrentes.

Esquece-se que milhares de outros ateus, em função de sua descrença, são vítimas de rompimento familiar, expulsos de suas casas; perdem amizades antigas; são atingidos por discriminações, hostilizações e caras-feias que lhes abaixam a estima. Sofrem literalmente com a intolerância de outrem.

Irreleva-se também que milhares ou mesmo milhões de ateus no Brasil evitam “sair do armário” justamente por causa do cenário hostil que existe no país. Têm que mentir sobre suas (des)crenças aos familiares, fingir estarem orando e também ir forçadamente à igreja de seus pais ou avós. Mesmo aqueles já assumidos se veem sem garantia nenhuma de que jamais serão perguntados sobre se creem em Deus ou não – podendo o “não” ser a palavra-chave para o recebimento de hostilidade, segregação e até agressão.

Sub-releva-se também o fato de estarem em franca expansão, em todo o Brasil, as igrejas de moralidade doutrinária duvidosa, cujos pastores pregam a pura intolerância contra descrenças e outras crenças. Multiplicam-se as igrejas que impõem a uma fração cada vez maior da população brasileira as ideias de que “apenas” o evangelismo lhes garante paz de espírito e comunhão com o bem e que não acreditar em Deus é cair numa vida de desgraça, amoralidade, maldade e tristeza e é um passaporte para o inferno.

Os indiferentes comportam-se como se pudessem escolher integralmente com quem se relacionar, de quem ser colega. Como se os religiosos intolerantes não vivessem em sociedade e pudessem ser deliberadamente descartados do convívio dos que pensam contrariamente a eles. Como se fosse nula a possibilidade de terem que recorrer, um dia, a religiosos potencialmente preconceituosos e mentir sobre sua (falta de) crença, sob pena de eles lhe negarem, por exemplo, a venda de um par de sapatos ou um serviço de reforma da casa e, como “brinde”, ainda o ofenderem.

E, mais emblemático, despreza-se algo essencial: que a ateofobia que atinge a categoria ateísta é absolutamente similar ao racismo, à xenofobia e à intolerância religiosa. Difere-se deles apenas em dois aspectos: a diferença das características que “provocam” a discriminação e o fato de que, enquanto os três últimos são punidos com retaliação massiva vinda da sociedade e processo judicial – ou mesmo cadeia –, a ateofobia geralmente é impune e não desperta reação solidária quase nenhuma da população.

Assim sendo, vale aos ateus indiferentes refletir sobre sua visão acerca do preconceito ateofóbico, desse câncer social que hoje parece pequeno mas reserva para o futuro consequências incógnitas mas especulavelmente sombrias. Entre desprezar um problema que não lhes causa danos relevantes no presente e prevenir uma onda futura de violência contra descrentes, vale pensar qual das duas ações é a mais coerente e necessária.

 

A incipiente mobilização contra o preconceito e a discriminação antiateísta

Apesar de a ateofobia ser tão antiga quanto a própria História das Religiões e ser presente no Brasil praticamente desde quando o primeiro ateu assumido e socialmente conhecido aqui veio, a luta contra essa intolerância vem de muito poucos anos atrás. A grosso modo, pode-se considerar na prática que o começo da militância pelo respeito ao direito de ser ateu coincide com a criação, em 2008, da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, presidida por Daniel Sottomaior.

Sottomaior é, aliás, o mais conhecido e dedicado militante antiateofobia no Brasil atualmente, empenhando-se em denunciar manifestações de preconceito na mídia – vide seu blog Ateus Atentos e o newsletter Dignidade sem Divindade – e no Twitter – através do perfil @ateus_atentos. Inspirados pelas denúncias dele, diversos outros ateus, ainda que de forma não suficientemente coletiva nem tampouco numerosa, aderiram à luta, tomando parte nos protestos contra artigos e declarações preconceituosos publicados na internet e nos meios de comunicação tradicionais.

Aquele que, pelo que tudo indica, foi o primeiro caso de mobilização em massa de ateístas contra a intolerância contra si se deu a partir da noite de 27 de julho de 2010, durante o longo discurso discriminatório e cheio de ódio proferido pelo apresentador do Brasil Urgente da TV Band, José Luiz Datena. No Twitter, nos blogs pertencentes a ateus, no YouTube e em outros lugares da web 2.0, uma grande quantidade de descrentes depuseram sua revolta com a vociferação odienta de Datena. Também foram feitas inúmeras denúncias ao Ministério Público para que o apresentador e a Band fossem penalizados por intolerância religiosa.

Ficou claro ali que a ateofobia, até então quase sempre desimpedida pelos próprios ateus, estava tomando contornos preocupantes, avançando a um ponto perigoso. Um formador de opinião, assistido e apreciado por milhões de brasileiros, estava induzindo sua audiência a acreditar que a “falta de Deus no coração” dos bandidos seria a causa dos crimes hediondos e das altas estatísticas de criminalidade no Brasil. Era patente o perigo de seu discurso, tanto diretamente como depois de reforçado pelas igrejas, incitar em pouco tempo uma onda de pregações à força, repressão social e violência generalizadas contra ateístas em todo o país.

É provável que essa escalada de ateofobia não tenha acontecido graças à reação dos discriminados ateus, que se fizeram respeitar na internet, com discursos sobre a tolerância religiosa e a questão de a ética não depender de religião – pelo fato de haver ateus bons e ateus ruins tanto como religiosos bons e religiosos maus. Aliás, se houve algum aumento momentâneo na violência familiar e urbana contra descrentes, não se sabe, porque não há estatísticas policiais sobre as implicações violentas da ateofobia no país.

Hoje em dia a intolerância ateofóbica continua grassando na internet e fora dela, e Sottomaior não tem tido a solidariedade da massa ateísta brasileira, havendo no máximo poucas dezenas de mensagens de protesto dirigidas a cada ofensor ou aos veículos de comunicação que publicam as suas declarações ofensivas e alguns poucos blogs repercutindo os acontecimentos de discriminação denunciados pelo Ateus Atentos.

É como se um ato ateofóbico precisasse adquirir grandes e ameaçadoras proporções para enfim se tornar algo passível de denúncia judicial e protestos.

 

Considerações finais

Na luta das minorias por direitos no Brasil, as mulheres e os negros estão avançados, embora tenham ainda um caminho árduo e comprido rumo à igualdade de tratamento e à compensação das injustiças históricas a que foram submetidos. Já os LGBT estão mais atrás, mas já vêm conquistando vitórias notáveis e o respeito da sociedade secular, tendo ainda, porém, que enfrentar a homofobia da grande maioria dos cristãos e de suas igrejas e o reacionarismo, influenciado pelas raízes cristãs de nossa cultura, de quem ainda acredita que homossexualidade ou mudança de sexo são “escolhas” “pervertidas” em sua essência.

Os ateus, por sua vez, são a última minoria no Brasil, os que estão em maior desvantagem no que tange à garantia do respeito aos seus direitos – ainda que já possuam tantos direitos quanto os cristãos perante a lei – e à dignidade de sua pessoa. Os crimes de preconceito e discriminação dirigidos contra eles são hoje muito frequentes na internet, na mídia, nas igrejas, nas escolas e até nos lares, e mais de 99% deles passam totalmente impunes – não sendo sequer objeto de denúncia às autoridades por parte dos próprios ofendidos.

Para agravar a situação, uma enorme parcela dessa categoria, senão a maioria, é apática e indiferente à discriminação que a população descrente em geral sofre no país. Embora considerem irrelevantes as injúrias e declarações de ódio vindas de fanáticos religiosos, esquecem que milhares de ateístas sofrem na pele as injustiças impostas por uma sociedade cuja maioria não os respeita – como rompimento familiar e discriminação na escola – e ignoram as muito prováveis consequências em grande escala desse cenário não tratado de ateofobia reservadas para o futuro.

Portanto, faz-se mais que necessária a mobilização, à maneira dos próprios ateus, em busca do respeito e do reconhecimento social generalizados que ainda não têm. Seja estabelecendo ONGs como a ATEA, seja lutando individualmente, seja agregando os ateístas de sua cidade em torno da suma causa do combate à discriminação, faz-se essencial que se pare de ignorar o cenário de hostilidade e segregação que a categoria como um todo e centenas de milhares de indivíduos a ela pertencentes sofrem direta ou indiretamente.

Só com luta é que o respeito aos ateus será enfim uma norma geral obedecida generalizadamente pela sociedade – atualmente é uma regra que apenas uma parcela minoritária da população acata de fato. Se somos minorias ainda mais preconceituadas e discriminadas do que mulheres, negros e LGBT e estas três categorias estão lutando muito para terem sua dignidade integralmente reconhecida e as injustiças do passado compensadas – e conseguindo aos poucos -, o que nos impede, afinal de contas, de fazer o mesmo que eles?

imagrs

5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Antonio Fitzgerald

junho 7 2015 Responder

Afinal, qual o deus que os teístas veneram, Ganesha, Brahma, Vishbu, Saraswati, Lakshmi, Parvati, Rama, Shiva, Rá (Ré), Toth, Anúbis, Bastet, Hathor, Hórus, Osíres, Khnum, Maet, Seth, Isis, Poseidon, Hades, Hera, Zeus, Afrodite, Hefesto, Ares, Apolo, Artemis, Hermes, Atena, Netuno, Juno, Cupido, Vesta, Psique, Minerva etc, etc, etc? Por que que o deus atual, sem nome, é o que vale? Honestamente, isso foge de minha compreensão.
O teísmo foge à qualquer compreensão lógica. Será se os teístas sabem que o monoteísmo, a crença em um só deus, foi estabelecida por decreto, uma obrigação? Claro que não.

Maria

setembro 7 2013 Responder

Preconceito igual, só contra os gordos… Imagine uma atéia gorda…
Que não rouba, não fura fila, não suborna o guarda e nunca colou na escola. Funde a cuca do povo, né?
Eu não sei se as pessoas acreditam tanto quanto dizem, me parece que precisam de ter uma autoridade fora – e acima – de si que lhes diga como agir, o que é certo e o que é errado, e dê uma solução mágica para o irremediável: a morte, catastrofes, doenças etc..
No fundo, é uma grande insegurança em assumir as próprias escolhas e a própria vida.
Não tenho nada contra ir a uma igreja para um casamento ou um enterro. Para mim é uma comemoração social, mais nada. Muitos me perguntam se eu não gostaria de ter, por exemplo, uma vida após a morte. Seria ótimo, mas também seria ótimo se houvesse Papai Noel, fada-madrinha, etc.
Não é por que eu quero que vai existir. Cai na real, gente!!!

Luciano

junho 29 2011 Responder

Muito bom, Robson! Gostei muito das três partes!

Gostaria de fazer uma consideração quanto à falta de união entre os ateus que você menciona. Certa vez vi alguém falando que é mais difícil reunir atueus do que outros grupos porque os ateus tendem a usar mais a própria cabeça, sendo mais independentes. Me parece que há alguma verdade nesta afirmação.

Mas enfim, seu alerta é bastante válido. Coisas como não poder declarar o ateísmo em seu local de trabalho sob pena de ter a opção religiosa sendo utilizada como ponto decisivo no momento de promover ou demitir alguém não deveria ocorrer. Certamente este tipo de coisa ocorre, e não consigo entender como alguns ateus preferem ignorar isso.

Eu já cheguei em um ponto que declaro meu ateísmo a quem perguntar. Não finjo orar e me recuso a ir em igrejas. Após tomar tal decisão, me sinto muito mais aliviado mas, mesmo assim, o momento em que toda a família está orando à mesa e eu sou o único que não está, sendo alvo de olhares curiosos e/ou reprovadores devido à minha postura, é bastante desagradável.

    Robson Fernando de Souza

    junho 29 2011 Responder

    Valeu de novo, Luciano =) E concordo sim com a coisa da independência dos ateus.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo