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Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada

Artigo convertido em postagem convencional (ao invés de página do WordPress não datada) em 08/10/2015, uma vez que correspondia à realidade do início da década de 2010 e, portanto, algumas informações podem estar desatualizadas.

Um preconceito gritante, mas pouco considerado – mesmo por suas próprias vítimas – e estudado, campeia no Brasil: a ateofobia, intolerância contra ateus – definida por Marcelo Druyan como “ódio, aversão ou discriminação de uma pessoa ou grupo de pessoas contra ateus e, consequentemente, contra o ateísmo”.Desde declarações impunes de ódio no Twitter até desmembramentos violentos de famílias e amizades, a hostilidade ateofóbica acontece neste país com uma liberdade tão grande que os próprios ateus, que deveriam ser os primeiros a denunciá-la, permitem ser esculhambados e humilhados pelos religiosos que não aceitam o fato de existirem pessoas que não acreditam em nenhuma divindade.

Desde a patricinha crente que twita uma mensagem de ódio até a presidenta da República que desmoraliza a descrença ateísta, passando por formadores de opinião notórios, os preconceituosos agem à revelia de qualquer justiça, de qualquer sanção penal, de qualquer retaliação da opinião pública. Atuam das mais diversas formas: pela internet, pelos meios de comunicação convencionais, por brigas presenciais, por inanição político-eleitoral etc.

Abaixo categorizo os diversos veículos usados pela ateofobia, sendo esta direta ou indireta, para ofender, discriminar e marginalizar os ateus.

 

Preconceito online

Na internet, os ateofóbicos agem de maneiras variadas:

a) Nas redes sociais, descarregam ódio contra os descrentes com minidiscursos – geralmente do tamanho de um tweet – e hostilizam colegas ou desconhecidos em função de seu (não) credo – ex.: “seu ateu de m…”. Os discursos podem citar versículos bíblicos, declarar a superioridade moral dos cristãos perante os ateus, atribuir desqualidades sérias aos ofendidos, demonstrar decepção, indignação e outros sentimentos negativos de quem acabou de conhecer ou encontrar ateus ou simplesmente ser declarações dos tipos “eu odeio…”, “eu não suporto…”, “tenho nojo de…”, “ateus devem morrer” etc.

É de se perceber claramente que tais investidas de violência verbal são muito similares àquelas racistas, xenofóbicas ou antissemitas que rendem aos agressores a retaliação solidária de milhares de internautas mais várias denúncias às autoridades policiais ou ao Ministério Público. Quando uma semianônima diz ter nojo da torcida negra do Flamengo, recebe uma saraivada massiva nacional de tweets como reação de uma população cada vez mais partidária da tolerância e do respeito. Mas quando um cristão fanático afirma sentir o mesmo nojo de quem “não acredita em Deus”, é quase certo que passe totalmente impune e não se torne alvo de nenhuma reação coletiva.

b) Por artigos de opinião, personalidades do quilate de um Frei Betto ou de um Cláudio Lembo (ver respostas ao artigo dele aqui e aqui), de quem muitos esperariam palavras calcadas na sabedoria, demonstram patente preconceito, atribuindo ao ateísmo desqualidades como ausência de valores e violência inerente (Frei Betto comparou o “ateísmo militante” à tortura promovida pelo DOPS durante a ditadura militar brasileira). Tentam convencer os leitores de seus textos de que ser ateu é intrinsecamente ruim, é prejudicial.

c) Por entrevistas dadas aos meios online de imprensa. Os entrevistados, se não declaram seu desrespeito aos ateus e ao direito de descrer à TV, fazem-no aos noticiários da internet. É através dos portais de notícia que gente da laia de Geraldo Alckmin diz que idosos ateus são pessoas tristes, ou que promotores de Justiça insinuam que ateus não contribuem para a recuperação de pessoas em situação de risco.

 

TV e rádio

Nos meios de comunicação em massa audiovisuais convencionais, a ateofobia é bandeira sacudida por apresentadores, jornalistas e outras personalidades admiradas pela população, ou então emana de pessoas entrevistadas, podendo ser desde um porteiro de condomínio até a presidenta da República. Eles fazem da câmera um palanque para declarações preconceituosas, para expor toda a sua ignorância, convertida em desde pena a repúdio, sobre o modus vivendi e o pensamento filosófico – o qual, exceto a própria descrença em deuses, é distante de qualquer unanimidade – dos ateus.

Seu preconceito se exacerba através de frases curtas discriminatórias (“Eu tenho pena de quem não tem fé, de quem não acredita em Deus”) ou arrogantes (“Deus existe, mesmo quando não se acredita nele”) ou discursos de ódio a durar vários minutos – nesse caso, tendo como maior exemplo o venenoso discurso dado por José Luiz Datena em 27 de julho de 2010, um dos únicos casos de ateofobia respondidos pelos ateus com denúncias à Justiça.

É até mais perigoso que o ódio exacerbado por internautas, porque vem de formadores de opinião diretos ou indiretos, possuidores de um lugar cativo na ainda muito prestigiada TV aberta. Para uma sociedade cuja maioria é religiosa e se submete a aceitar argumentos simplesmente por virem de autoridades, uma frase ou discurso vindo de Hebe, de Datena ou de Roberto Canázio pode lhes reforçar a crença, biblicamente fundada (Salmos 14:1), de que ateus “não prestam” e devem por isso ser tratados com marginalização, imposição religiosa e/ou repressão por sua descrença.

Outra forma muito poderosa de propagação de preconceitos são os programas religiosos, em sua maioria neopentecostais. Pastores e bispos, vez ou outra, declaram os ateístas verdadeiros seres malignos, demoníacos. Fundados ora em dogmas bíblicos ora no seu preconceito pessoal ora na intenção de manter os fiéis sob seu controle por impedir que duvidem de sua religião, esses clérigos dirigem impropérios claros aos ateus, o que normalmente lhes faria alvos de processos judiciais se suas ofensas fossem dirigidas a minorias como negros, judeus e asiáticos.

O caso mais recente e comentado de preconceito e incitação à discriminação vindo da TV foi um breve momento do discurso de um pastor que se autointitulava “profeta da nação”, feito em março de 2011 numa rua de cidade não revelada e transmitido por programa evangélico da RedeTV!.

Nos meios de comunicação em massa, há também a divulgação de músicas que incitam o preconceito contra quem não crê em quem convencionam chamar de Deus. Ainda que a intenção original por trás de suas letras seja, na maioria das vezes, apenas exaltar a importância da divindade para quem crê nela, tais canções possuem efeitos colaterais altamente comprometedores, que acabam tratando os ateus e até pessoas de religiões não cristãs como potenciais poços de imoralidade, tristeza e sofrimento.

Para exemplificar como o preconceito se dissemina através da música, cito alguns trechos de canções direta ou indiretamente preconceituosas:

1.
Sem Deus, a segurança recua nas bases avançadas
Sem Deus, vidas morrem assassinadas nas calçadas
Sem Deus, o mundo é dos espertos que vendem praias nos desertos
Sem Deus, Você corre perigo a mercê das garras do inimigo

2.
O Homem sem Deus
Caminha sem rumo e anda sozinho
Vive no mundo sem ter um caminho
Ao sopro do vento ele anda sem luz
O Homem sem Deus
Tem o seu próprio jeito de pensar
Não tem limites e vive a pecar
Não anda nos planos que vem la da cruz

3.
Viver sem Deus no coração é não ter alegria.
É viver sem direção, caminho e melodia.
Não ter amor, só ter agonia.

4.
Quanto tempo mais, você quer levar
Pra tentar provar que és forte sem deus?
Quanto tempo então,devo esperar
Pra tentar provar que se garante só?
E pra que bater no peito?
Sem deus não adianta nem tentar!
Sem deus não vale nada,
Sem deus tudo é um nada,
Money, poder, fama e tudo mais
É nada sem deus

5.
Meu amor, não… Não me queira mal
Amar a Deus sobre tudo para mim é essencial
Vou dizer, não tem que ser assim
Mas se Deus não serve pra você
Você não serve pra mim

 

Discriminação e violência ao vivo (incluindo na escola)

São muito frequentes os casos de descrentes que sofrem diversas formas de violência de quem não tolera sua não crença nem respeita seu direito à mesma. O tipo mais comum é a dissensão familiar, na qual os pais religiosos fanáticos (ou apenas o pai ou a mãe) investem-se em brigas sérias, muitas vezes violentas, com seus filhos quando desconfiam ou descobrem que deixaram de acreditar em divindades ou quando eles assumem sua descrença.  Nada raro é ver pais assim expulsando o filho ateu de casa, mesmo quando este não criou qualquer condição de se emancipar.

A discriminação familiar também pode vir de forma menos radical, mas ainda assim em tom muito reprovatório. Ocorre quando o pai ou a mãe ou ambos dizem ao filho que lamentam, reprovam e/ou repudiam seu ateísmo, fazem sermões repreensivos ou mesmo os castigam ou lhes cortam direitos. Há também casos frequentes em que o parente ou familiar tem o costume de assediar a pessoa, cutucando-a regularmente por não acreditar em um deus e lembrando-a de que “Deus existe”, não importando se o assediador sempre perde nas argumentações sobre existência ou inexistência do seu deus.

Nas escolas, pode vir na forma exclusiva, no ensino religioso ou por bullying. Na primeira, a própria instituição estabelece regras arbitrárias que punem quem não se matricula na disciplina religiosa – o que é ilegal perante a Constituição e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – e/ou não acompanha as práticas religiosas regulares da escola, como rezar o Pai Nosso antes do começo da aula ou participar das atividades religiosas anuais do educandário.

Dentro desse ensino religioso, na maioria das vezes ministrado de maneira confessional e proselitista a despeito da lei, é recorrente a pregação do puro preconceito contra ateus. Disse Debora Diniz à revista Istoé, sobre diversos livros didáticos de religião:

“[Em grande parte desses livros h]á equívocos históricos e filosóficos, como a associação de Nietzsche ao nazismo. As pessoas sem Deus são representadas como uma ameaça à própria ideia do humanismo. É muito grave a representação dos ateus. Isso pode gerar desconforto entre as crianças cujas famílias não professem nenhuma religião. Já que, nos livros, elas estão representadas como aquelas que mataram Deus e associadas simbolicamente a coisas terríveis, como o nazismo.”

Já o bullying ateofóbico – algo, a saber, ainda quase não discutido no Brasil – ocorre quando a criança ou o adolescente é hostilizado ou mesmo agredido fisicamente por um ou mais colegas aderentes de uma mesma denominação religiosa.

Variante desse bullying, há também o risco, também pouco visado pelas universidades, de se sofrer violência na rua por ser conhecidamente ateu. É parecido com a violência homofóbica, que mata lésbicas e gays simplesmente por serem homossexuais, por não partilharem da mesma orientação sexual da maioria.

De tão pouco relatados, denunciados e discutidos nos meios de comunicação – inclusive na internet –, pode-se suspeitar que o bullying e a violência de rua dirigidos contra ateus talvez nem existam ainda no Brasil. Mas deve-se denunciar a possibilidade de virem a acontecer no futuro, a qualquer momento. Portanto, este artigo antecipa o alerta para esses crimes, se já não escancara uma realidade presente.

 

Ateísmo como fator para o suicídio político

O preconceito antiateu em que grande parte da sociedade se mergulha tem consequências também políticas. Hoje em dia um político declarar-se ateu é decretar o encerramento de sua própria carreira política, visto que não conseguirá mais se eleger para nada.

Pesquisa da Veja e CNT/Sensus de 2007 dizia que apenas 13% dos brasileiros votariam num ateu. Em 2010, um levantamento da Fundação Perseu Abramo revelou números menos ruins, mas ainda muito negativos contra os descrentes: somente 20% dos brasileiros disseram que poderiam votar, sem impedimentos, num ateu, enquanto 77% dificilmente ou jamais confiariam seu voto a um descrente.

Ou seja, ateísmo é visto por uma preocupante maioria como algo que tornaria os políticos potenciais crápulas. Não lhes é apenas a ausência de crença em divindades: é-lhes um atestado de perversão moral, que impede o ser humano de ser bom, ético e generoso e, portanto, inabilita qualquer pessoa para assumir um mandato político.

 

Quando até o Estado dito laico exclui os ateus

Muitas vezes o discurso do Estado brasileiro de respeito às crenças acaba excluindo os ateístas. Diversas declarações partem do pressuposto de uma opção religiosa, não citando quem não optou por nenhuma religião ou divindade. São poucas aquelas que citam quem não professa uma crença religiosa ou quem não crê em nenhuma deidade.

O exemplo recente de maior destaque é o (inativado) Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que, apesar de pregar a laicidade e o respeito a todas as crenças, marginaliza a ausência de crença, trazendo apenas referências genéricas a “pessoas sem religião” – entre as quais se incluem milhões de irreligiosos que acreditam em uma divindade suprarreligiosa, muitas vezes pós-cristã –, conforme denuncia Marcelo Druyan:

O decreto do presidente Lula comete o erro primário de confundir Estado Laico com Estado Ecumênico. Substitua-se a palavra “laicidade” do título pela palavra “ecumenismo” e todas as alíneas milagrosamente ganham sentido.
Não há uma só menção à não crença ou aos não crentes! Todo o conteúdo do item parte do pressuposto de uma opção religiosa.

Outro caso, menos notório mas bastante emblemático, foi a sessão especial do Senado de 19 de novembro de 2010, dedicada à solidariedade dos parlamentares a vítimas de preconceito e discriminação, mas que excluiu os ateus em termos de representatividade – representantes de religiões estiveram presentes, mas nenhum delegado das pessoas sem religião.

 

Nem as outras minorias se solidarizam com os ateus

A maioria das minorias costumam receber a franca solidariedade de militantes de outros grupos minoritários e de ONGs defensoras dos direitos humanos. Já os ateus, nem isso. São raros aqueles militantes LGBT, negros, feministas, de religiões minoritárias (como as afro-brasileiras) etc. que declaram apoio explícito à minoria ateísta. E frequentemente flagramos eventos pró-tolerância que excluem ou minimizam o ateísmo e a irreligião.

Mesmo entidades importantes de luta contra a intolerância religiosa partem do pressuposto de ter uma religião, reduzindo o ateísmo, ou mesmo a irreligião a lato senso, à marginalidade. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, por exemplo, tem como lema Liberdade religiosa: eu tenho fé! (negrito meu) – o que moralmente exclui pessoas desprovidas de fé religiosa, descrentes em divindades.

A mesma entidade, além disso, não conta com entidades de ateus em seus quadros e clipou no passado uma reportagem bastante tendenciosa da conservadora revista Veja jogando fé e descrença uma contra a outra – com o sugestivo título Como a fé resiste à descrença. Esses detalhes não impedem ateus de participarem de suas passeatas, mas eles acabam reduzidos a personagens secundários da luta contra a intolerância religiosa.

Um outro fato que evidencia o isolamento ateísta dentro do próprio universo de minorias e de defensores dos direitos humanos é que, no caso do virulento preconceito manifestado por José Luiz Datena na TV em 27 de julho de 2010, nenhuma ONG de direitos humanos nem de qualquer outra minoria se solidarizou com os descrentes na ocasião.

 

Mais uma estatística sobre ateofobia no Brasil

Uma outra pesquisa da Perseu Abramo, de 2008, mostra que os ateus são mais discriminados e odiados do que qualquer outra categoria, mais até do que consumidores de drogas pesadas. 17% da população sentem repulsa e ódio pelos ateístas e 25% são antipáticos contra eles, num total de 42% de aversão. Isso enquanto os usuários de drogas recebem a antipatia de 24% e a repulsa de iguais 17% da sociedade.

 

Quando os próprios ateus “aceitam” ser preconceituados e discriminados

Por incrível que pareça, uma parte mais que significativa, senão a maioria, dos ateus são indiferentes ao preconceito e à discriminação que sua própria categoria sofre. Não tomam para si quando religiosos intolerantes declaram ódio, nojo e outros sentimentos repulsivos à generalidade dos descrentes no Twitter, quando cantores gospel declaram a imoralidade e depressão de uma vida “sem Deus” – e inspiram muitas vezes os fãs a adotar ou reforçar essa crença preconceituosa – ou quando celebridades ou pessoas públicas condenam o ateísmo ou os ateus.

Pelo que se pode observar em fóruns de discussão ateístas e em blogs que abordam o ateísmo, muitos irrelevam as ofensas e discriminações vindas dos ateofóbicos porque estes não falariam a mesma “linguagem” dos ateus, visto que creem e agem muito mais pela emoção fanática do que pela razão ponderada, ao contrário dos descrentes. Outro motivo pensado é que esses intolerantes já são “queimados” perante a sociedade secular por nutrirem uma série de outros preconceitos, como a homofobia e a intolerância religiosa, e desprezarem a ciência quando esta questiona os mitos bíblicos.

Pensando na máxima “O que vem de baixo não me atinge”, essa parcela grande, senão majoritária, de ateus trata com indiferença as vociferações discriminatórias vindas das igrejas e dos seus frequentadores. Ignoram, porém, que a ateofobia desimpedida e impune vinda de uma coletividade nada desprezível pode estar guardando consequências nefastas inesperadas para o futuro dos ateístas brasileiros.

Não se sabe até que ponto a ateofobia de hoje em dia pode avançar, se ela tende a permanecer estável ou a aumentar a níveis que inspirarão alertas vermelhos, se é apenas arranque de carro velho ou uma ameaça de verdade. Além disso, ateus hoje não possuem menos direitos que pessoas de outras religiões no Brasil, visto que a Constituição Federal prevê liberdade de crença, nela incluída a não crença, e separação entre religião e Estado. Por isso a indiferença de tantos ateus perante as ofensas preconceituosas e discriminações atiradas pelos religiosos intolerantes.

Sobre esse comportamento de apatia, vale dedicar algumas críticas que devem ser levadas em consideração:

Nessa tradição de ignorar o cenário brasileiro de ateofobia, pensa-se apenas no imediato, na irrelevância de uma injúria religiosa dirigida por um fundamentalista contra um ateu, ou na mentalidade defeituosa, fanática e distorcida de uma banda gospel que afirma que os descrentes são depressivos e incapazes de uma relação companheira com os cristãos.

Ignora-se, por outro lado, o alto risco de um conjunto enorme de declarações preconceituosas, que abrange desde (milhares de) tweets semianônimos até discursos de apresentadores e políticos na televisão, associado à omissão do Estado e de ONGs defensoras dos direitos humanos, provocar ações violentas mais enérgicas a longo prazo, como agressões físicas e até assassinatos de descrentes.

Esquece-se que milhares de outros ateus, em função de sua descrença, são vítimas de rompimento familiar, expulsos de suas casas; perdem amizades antigas; são atingidos por discriminações, hostilizações e caras-feias que lhes abaixam a estima. Sofrem literalmente com a intolerância de outrem.

Irreleva-se também que milhares ou mesmo milhões de ateus no Brasil evitam “sair do armário” justamente por causa do cenário hostil que existe no país. Têm que mentir sobre suas (des)crenças aos familiares, fingir estarem orando e também ir forçadamente à igreja de seus pais ou avós. Mesmo aqueles já assumidos se veem sem garantia nenhuma de que jamais serão perguntados sobre se creem em Deus ou não – podendo o “não” ser a palavra-chave para o recebimento de hostilidade, segregação e até agressão.

Sub-releva-se também o fato de estarem em franca expansão, em todo o Brasil, as igrejas de moralidade doutrinária duvidosa, cujos pastores pregam a pura intolerância contra descrenças e outras crenças. Multiplicam-se as igrejas que impõem a uma fração cada vez maior da população brasileira as ideias de que “apenas” o evangelismo lhes garante paz de espírito e comunhão com o bem e que não acreditar em Deus é cair numa vida de desgraça, amoralidade, maldade e tristeza e é um passaporte para o inferno.

Os indiferentes comportam-se como se pudessem escolher integralmente com quem se relacionar, de quem ser colega. Como se os religiosos intolerantes não vivessem em sociedade e pudessem ser deliberadamente descartados do convívio dos que pensam contrariamente a eles. Como se fosse nula a possibilidade de terem que recorrer, um dia, a religiosos potencialmente preconceituosos e mentir sobre sua (falta de) crença, sob pena de eles lhe negarem, por exemplo, a venda de um par de sapatos ou um serviço de reforma da casa e, como “brinde”, ainda o ofenderem.

E, mais emblemático, despreza-se algo essencial: que a ateofobia que atinge a categoria ateísta é absolutamente similar ao racismo, à xenofobia e à intolerância religiosa. Difere-se deles apenas em dois aspectos: a diferença das características que “provocam” a discriminação e o fato de que, enquanto os três últimos são punidos com retaliação massiva vinda da sociedade e processo judicial – ou mesmo cadeia –, a ateofobia geralmente é impune e não desperta reação solidária quase nenhuma da população.

Assim sendo, vale aos ateus indiferentes refletir sobre sua visão acerca do preconceito ateofóbico, desse câncer social que hoje parece pequeno mas reserva para o futuro consequências incógnitas mas especulavelmente sombrias. Entre desprezar um problema que não lhes causa danos relevantes no presente e prevenir uma onda futura de violência contra descrentes, vale pensar qual das duas ações é a mais coerente e necessária.

 

A incipiente mobilização contra o preconceito e a discriminação antiateísta

Apesar de a ateofobia ser tão antiga quanto a própria História das Religiões e ser presente no Brasil praticamente desde quando o primeiro ateu assumido e socialmente conhecido aqui veio, a luta contra essa intolerância vem de muito poucos anos atrás. A grosso modo, pode-se considerar na prática que o começo da militância pelo respeito ao direito de ser ateu coincide com a criação, em 2008, da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, presidida por Daniel Sottomaior.

Sottomaior é, aliás, o mais conhecido e dedicado militante antiateofobia no Brasil atualmente, empenhando-se em denunciar manifestações de preconceito na mídia – vide seu blog Ateus Atentos e o newsletter Dignidade sem Divindade – e no Twitter – através do perfil @ateus_atentos. Inspirados pelas denúncias dele, diversos outros ateus, ainda que de forma não suficientemente coletiva nem tampouco numerosa, aderiram à luta, tomando parte nos protestos contra artigos e declarações preconceituosos publicados na internet e nos meios de comunicação tradicionais.

Aquele que, pelo que tudo indica, foi o primeiro caso de mobilização em massa de ateístas contra a intolerância contra si se deu a partir da noite de 27 de julho de 2010, durante o longo discurso discriminatório e cheio de ódio proferido pelo apresentador do Brasil Urgente da TV Band, José Luiz Datena. No Twitter, nos blogs pertencentes a ateus, no YouTube e em outros lugares da web 2.0, uma grande quantidade de descrentes depuseram sua revolta com a vociferação odienta de Datena. Também foram feitas inúmeras denúncias ao Ministério Público para que o apresentador e a Band fossem penalizados por intolerância religiosa.

Ficou claro ali que a ateofobia, até então quase sempre desimpedida pelos próprios ateus, estava tomando contornos preocupantes, avançando a um ponto perigoso. Um formador de opinião, assistido e apreciado por milhões de brasileiros, estava induzindo sua audiência a acreditar que a “falta de Deus no coração” dos bandidos seria a causa dos crimes hediondos e das altas estatísticas de criminalidade no Brasil. Era patente o perigo de seu discurso, tanto diretamente como depois de reforçado pelas igrejas, incitar em pouco tempo uma onda de pregações à força, repressão social e violência generalizadas contra ateístas em todo o país.

É provável que essa escalada de ateofobia não tenha acontecido graças à reação dos discriminados ateus, que se fizeram respeitar na internet, com discursos sobre a tolerância religiosa e a questão de a ética não depender de religião – pelo fato de haver ateus bons e ateus ruins tanto como religiosos bons e religiosos maus. Aliás, se houve algum aumento momentâneo na violência familiar e urbana contra descrentes, não se sabe, porque não há estatísticas policiais sobre as implicações violentas da ateofobia no país.

Hoje em dia a intolerância ateofóbica continua grassando na internet e fora dela, e Sottomaior não tem tido a solidariedade da massa ateísta brasileira, havendo no máximo poucas dezenas de mensagens de protesto dirigidas a cada ofensor ou aos veículos de comunicação que publicam as suas declarações ofensivas e alguns poucos blogs repercutindo os acontecimentos de discriminação denunciados pelo Ateus Atentos.

É como se um ato ateofóbico precisasse adquirir grandes e ameaçadoras proporções para enfim se tornar algo passível de denúncia judicial e protestos.

 

Considerações finais

Na luta das minorias por direitos no Brasil, as mulheres e os negros estão avançados, embora tenham ainda um caminho árduo e comprido rumo à igualdade de tratamento e à compensação das injustiças históricas a que foram submetidos. Já os LGBT estão mais atrás, mas já vêm conquistando vitórias notáveis e o respeito da sociedade secular, tendo ainda, porém, que enfrentar a homofobia da grande maioria dos cristãos e de suas igrejas e o reacionarismo, influenciado pelas raízes cristãs de nossa cultura, de quem ainda acredita que homossexualidade ou mudança de sexo são “escolhas” “pervertidas” em sua essência.

Os ateus, por sua vez, são a última minoria no Brasil, os que estão em maior desvantagem no que tange à garantia do respeito aos seus direitos – ainda que já possuam tantos direitos quanto os cristãos perante a lei – e à dignidade de sua pessoa. Os crimes de preconceito e discriminação dirigidos contra eles são hoje muito frequentes na internet, na mídia, nas igrejas, nas escolas e até nos lares, e mais de 99% deles passam totalmente impunes – não sendo sequer objeto de denúncia às autoridades por parte dos próprios ofendidos.

Para agravar a situação, uma enorme parcela dessa categoria, senão a maioria, é apática e indiferente à discriminação que a população descrente em geral sofre no país. Embora considerem irrelevantes as injúrias e declarações de ódio vindas de fanáticos religiosos, esquecem que milhares de ateístas sofrem na pele as injustiças impostas por uma sociedade cuja maioria não os respeita – como rompimento familiar e discriminação na escola – e ignoram as muito prováveis consequências em grande escala desse cenário não tratado de ateofobia reservadas para o futuro.

Portanto, faz-se mais que necessária a mobilização, à maneira dos próprios ateus, em busca do respeito e do reconhecimento social generalizados que ainda não têm. Seja estabelecendo ONGs como a ATEA, seja lutando individualmente, seja agregando os ateístas de sua cidade em torno da suma causa do combate à discriminação, faz-se essencial que se pare de ignorar o cenário de hostilidade e segregação que a categoria como um todo e centenas de milhares de indivíduos a ela pertencentes sofrem direta ou indiretamente.

Só com luta é que o respeito aos ateus será enfim uma norma geral obedecida generalizadamente pela sociedade – atualmente é uma regra que apenas uma parcela minoritária da população acata de fato. Se somos minorias ainda mais preconceituadas e discriminadas do que mulheres, negros e LGBT e estas três categorias estão lutando muito para terem sua dignidade integralmente reconhecida e as injustiças do passado compensadas – e conseguindo aos poucos -, o que nos impede, afinal de contas, de fazer o mesmo que eles?

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Gustavo S. Nóbrega

dezembro 11 2015 Responder

Sou ateu e sei que sou o último dos últimos aqui no Brasil. Eu amo o nosso país, mas eu sei que ele é muito eivado de todo tipo de preconceitos. Mas o preconceito mais difícil de mitigar, sem dúvida, é a ateofobia. Acho até que nunca será mitigada, muito menos erradicada.
Porém, quero saber o que posso fazer pra entrar em contato com outras pessoas que queiram se engajar nessa luta contra a ateofobia. Aqui em minha cidade quase não conheço ateus, pra não dizer que não conheço. Moro em Campina Grande, cidade de 400.000 habitantes do interior da Paraíba, e mesmo assim até parece que o único ateu desta cidade sou eu. Sendo assim, como posso fazer pra entrar em contato com outros ateus que queiram se engajar nessa luta? Eu quero lutar contra esse preconceito contra nós ateus, e vou procurar engajar outros ateus aqui em Campina Grande, mesmo que eu não saiba nem por onde começar. Só que também quero entrar em contato com vários ateus em todo o território nacional, a fim de que eu possa disseminar essa ideia de luta contra a ateofobia, e juntar o meu grito ao de outros anti-ateofóbicos que já devem estar com os meus mesmos propósitos há bastante tempo.
E por favor consciencia.blog.br me ajude! Com humildade, peço encarecidamente essa informação, pois é uma realidade a que já não suporto mais assistir calado, e também acho que, se não nos movermos agora e lutarmos já, os evangélicos (que estão cada vez mais tomando conta do nosso Brasil) um dia vão acabar matando a nós ateus em todos os setores psicológicos, sociais, motivacionais, econômicos, de cidadania, de dignidade, de direitos constitucionalmente garantidos… se não acabarem nos matando também fisicamente falando!
Acho, sinceramente, que o nosso Estado nunca foi laico, e que a tendência agora é que aos poucos se torne um Estado Protestante, mudando até qualquer cláusula pétrea da Constituição Federal em favor do advento do Protestantismo como religião oficial do nosso Brasil! Nem é preciso citar as consequências derruidoras que isso traria pros ateus brasileiros como eu, como vocês deste blog e como tantos outros que são obrigados a viver no anonimato, por este Brasil afora! E todos, em sua grande maioria, gente muito inteligente, honesta, boa, de bons princípios, que age com correção, que vê a realidade de forma mais clara que a maioria das pessoas do planeta Terra, e que decididamente não merecem ser suprimidas de forma tão hedionda!

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