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“Como nasce um paradigma”: extraindo “lições de moral” da crueldade contra animais

Estudiosos dos mais diversos ramos das ciências humanas e sociais-aplicadas, desde calouros até pós-doutores, já devem ter dado de cara com o texto abaixo, de autoria anônima, que circula desde em blogs pessoais até em slideshows de renomados professores. Negritos meus:

COMO NASCE UM PARADIGMA

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.

Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: “Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui…”

Eu pessoalmente, provavelmente enviesado, não vi nenhuma graça ou sequer valor positivo a ser extraído desse texto. Sua moral de história, seu caráter de ensinamento acabam totalmente anulados pela violência que marca a tal experiência – que tudo indica que é fictícia tal como uma lenda urbana.

Sendo verídico ou não o fato acima, deveríamos extrair daí uma outra moral: é ético extrair de histórias/estórias francamente violentas, envolvendo crueldade explícita contra animais humanos ou não humanos, lições de moral?

No caso acima, temos a violência primária que é os cientistas mengeleanos jogarem jatos de água gelada nos animais. Isso em si já é uma violência física, um maltrato evidente, se não óbvio. A agressão consequente é ainda mais séria: o medo dos macacos de receberem mais jorradas de água gelada os induz a impedir qualquer um de seus companheiros de tentar subir.

O que resulta na ainda mais grave violência induzida (direta ou indiretamente, isso é uma discussão em aberto) pelos cientistas: a agressão, análoga ao hoje cada vez mais debatido e repudiado bullying, do grupo contra indivíduos que tentem subir a tal escada. O que, tal como uma tradição, se estende aos novatos, que aprendem com os veteranos que é “necessário” ou “tradicional” espancar os colegas que tentam subir a escada, mesmo sem a presença do medo de serem agredidos com jatos de água fria. Quem tenta escapar do cativeiro imposto pelos cientistas em questão se depara com as barras da jaula onde seu grupo foi confinado. Não pode sair, é obrigado a sofrer o espancamento de seus colegas de prisão.

Me pergunto se esses milhares de pessoas que reproduziram em seus blogs, sites, slideshows e aulas tal texto utilizariam textos que, por exemplo, envolvessem a violência mútua entre crianças humanas, ou a tortura de prisioneiros de regimes ditatoriais, ou qualquer outra situação em que houvesse o uso de crueldade contra seres inocentes incapazes de se defender e que não tivesse final feliz ou qualquer caráter de denúncia.

Questiono aqui: que ética há em fazer da violência, do bullying, da tortura, do sofrimento alheio, de histórias muito violentas desprovidas de qualquer final feliz, lições positivas de vida? Não incluo aqui lições em que a violência é denunciada, tal como nos livros de George Orwell.

O largo aproveitamento positivo desse conto do bullying primata acaba nos mostrando algo que todo abolicionista animal já sabe de cor e salteado: a exploração animal é naturalizada, é tornada algo “positivo” mesmo sendo aplicada em seres inocentes e indefesos. Situações de tortura e violência entre seres humanos costumam ser denunciadas e condenadas, e a única lição que exprimem é que a humanidade deve impedir a todo custo que elas se repitam. Já histórias ou estórias envolvendo experimentos cruéis contra animais não humanos como a “Como nasce um paradigma” são exaltadas como ensinamentos de vida, algo que enriquece e engrandece o conhecimento humano.

O conto acima não cria um paradigma para os humanos, mas realça o milenar paradigma da valorização da exploração animal, da naturalização e positivação da crueldade contra seres sencientes inocentes.

Quando a humanidade amadurecer em sua relação com os animais não humanos, certamente sentirá uma profunda vergonha de ter utilizado no passado a violência contra inocentes como fonte de conhecimento positivo. E jogará no lixo do esquecível textos como o “Como nasce um paradigma?”, passando a extrair bons ensinamentos apenas de livros que valorizem o bem e militem contra o mal.

imagrs

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Rafael

dezembro 13 2012 Responder

O post demonstra um ponto de vista interessante e aborda vários aspectos sobre a violência. Mas eu acredito que essa reflexão é aprofundada demais e foge completamente do objetivo do texto citado, que é, creio eu, promover a reflexão a respeito dos paradigmas. Acredito que pouquíssimas pessoas que tenham lido e compartilhado esse texto pensaram nisso, portanto, por mais que a opinião descrita no post faça sentido, não vejo porque pensar dessa forma, porque a violência, no texto, não é o que chama a atenção.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo